O MOTELX começa já amanhã (dia 3 de setembro), comemorando 20 anos de existência, e para celebrar este feito, propõe uma estadia mais alargada no Cinema São Jorge – 11 dias, mais 4 do que no ano passado.

Foram duas décadas curiosas para acompanhar um dito “cinema de género” que se aproxima aqui e ali do cinema “queer”, precisamente pelo fator fora da caixa, fora de prateleiras, que esse tal “género” pode conter. Aliás, os melhores filmes de terror são dificilmente catalogáveis: são dramas, comédias, aventuras de alta tensão, tudo num só pacote. É o nervosismo de não saber qual a melhor reação para um momento trágico no papel. Vimos isto recentemente em filmes como “A Substância”, de Coralie Fargeat, e “Obsession”, de Curry Barker.

Ainda há poucos anos, um amigo meu cinéfilo nutria um grande preconceito pelo género recente e, nomeadamente, por um festival como o MOTELX — preconceito esse que se foi esbatendo com a ajuda de filmes como os mencionados acima. Atualmente, só aceitaria um único motivo para alguém me dizer “não gosto de filmes de terror!”: é que a pessoa entre tanto no filme, suspenda de tal modo a descrença, que depois tenha insónias, e que, portanto, não assistir a este tipo de obras seja uma forma de proteção do seu bem-estar físico e psicológico.

O género que não tem género vive uma das suas melhores vagas, talvez com um início assinalado em meados da década passada nos Estados Unidos, quando o primeiro mandato de Trump gerou obras como “Get Out”, de Jordan Peele (2017), ou “Hereditary”, de Ari Aster (2018). O público foi-se apercebendo, novamente, de quanta crítica social o dito “filme de terror” pode conter em tempos particularmente caóticos e verdadeiramente assustadores fora do ecrã. E de quão catártico pode ser, em última análise, viver uma experiência que mexe com os nossos espelhos.

Há inclusive estudos académicos sobre o assunto que reforçam esta narrativa e mencionam o quão positivo o género pode ser para vítimas de trauma desenvolverem uma nova relação com o medo e, quiçá, reclamarem um novo espaço, ao verem um dispositivo narrativo sobre o qual podem pausar ou sair (ao contrário da vida real). Mesmo advogando terapia para todos, independentemente do historial clínico, ver um filme de terror pode, em si, ativar um gatilho que desbloqueie o que seria preciso um par de sessões no divã para alcançar. E sai sempre mais barato…

Por isso, não tenham medo do cinema de género. Tenham medo do mundo lá fora, sim. E talvez façam as pazes com ele numa sala escura.

Deixe um comentário

Outras leituras