“Quorum”, para todos os efeitos, significa colectivo de humanos, neste caso, três seres perdidos numa Gerês propícia a lendas e fantasmas de outras encarnações. Contudo, nessa busca pelo espectral, ou pelo romance eternizado, quase camiliano, há também uma procura por um Cinema, esse reflexo da experiência do seu realizador. Rafael Fonseca (apresenta-se!) foi esse salteador de géneros perdidos, contrafeitos ou até achados, construindo um cinema SEU, conduzido pela sua história e pelo seu fascínio.
Trazendo “Quorum”, cuja estreia aconteceu no ano passado no festival Montanha, na ilha do Pico, e, mais tarde, na televisão, através do programa Cinemax, sem antes angariar duas nomeações aos Prémios Curtas e uma exibição especial na Cinemateca Portuguesa, a curta-metragem faz agora o seu percurso e repousa na plataforma Filmin Portugal, onde pode ser vista e revista no conforto do lar (e não só). Foi através desta aquisição para o streaming que desafiei o realizador a narrar a sua trajectória por via deste trabalho. Nele vemos uma obra e, nela, um autor. Falemos de cinema por via de “Quorum”!
A obra parte da preparação de um filme histórico, mas aos poucos parece transformar-se num filme sobre o próprio acto de fazer cinema, não apenas “sobre” uma produção, e sim sobre a impossibilidade (ou a urgência) de fazer cinema hoje. Quando é que te apercebeste dessa dimensão que “Quorum” parecia ostentar?
Aquilo que posso fazer, como participação numa senda de descobrir o “sobre” o que é o filme, é contar-te um pouco do que ele foi, enquanto processo, sendo que podemos já talvez arriscar que é um filme “sobre” processo. Há um aspecto que é importante dissipar desde já, o de que esta história, da lenda da freira e do soldado, era alguma história que eu “quisesse contar”. Há anos sem fim que se ouvem estas frases do “história que queremos contar”, a de que o realizador é um “contador de histórias” e outras coisas semelhantes, produto de contextos sinistros como são os cursos de Argumento, os workshops de storytelling, as entrevistas a produtores, a guionistas, e mesmo a cineastas.
Não houve nada disso neste filme. Quando me deparei, por acaso, em 2018, com a lápide no Gerês que cedo aparece plantada em “Quorum“, já eu lá estava, na Vila do Gerês, com um telemóvel novo e um gimbal comprados para a ocasião: filmar coisas que me atraíssem, com uma estadia de três noites reservada num hotel. Já tinha viajado para réperar um filme — só não sabia ainda o que este iria ser.
A emergência de um filme existia portanto anteriormente a qualquer rasgo narrativo. A minha ideia tinha sido mais ou menos andar por lá à procura de um ponto focal para qualquer coisa, que acabei por encontrar. É um pouco como aquela cena de “O Sul” (“El Sur“) do Victor Erice onde o pai está com a filha aos ombros e um pau de dois ramos nas mãos à procura, através dos seus métodos, de um lençol de água. Para dizer aos homens onde escavar. Também, se quisermos, se poderá assemelhar àquilo que me lembro de Michel Houellebecq definir em “O Mapa e o Território“, no contexto da actividade artística, como obediência.

Nessa altura, nessa primeira réperage inicial, estávamos a cerca de um mês do Natal de 2018, já com luzes pela Vila do Gerês (luzes que cito repetidamente em “Quorum“). Uma ideia procurava emergir. A minha obrigação era simplesmente a de levar o que quer que fosse à sua respectiva fruição.
Será talvez útil traçar uma breve genealogia. Vinha percorrendo nos últimos anos uma tradição naquilo que vim a chamar “videopoemas”, ou trabalhos iniciais, se quisermos. Havia o “An Eskimo Showed Me a Movie He’d Recently Taken Of You“, exibido em Cantanhede uma vez, no Shortcutz Ovar, of all places, que era Leonard Cohen, Jacques Rozier e George Steiner numa caçarola; “Filme de Guerra“, co-realizado com Diogo Ferreira, que passou no primeiro festival CINENOVA e que o Luís Mendonça chamou godardiano, para nossa grande felicidade (“Le Livre d’Image” era um óbvio ascendente); “Black Car“, que são só cenas do “Wings of Desire” remontadas por mim com uma faixa de Beach House, na tradição dos music videos do Youtube no início dos anos ‘10;
“1983“, que é um remix meu focado no “The Last Boy Scout” do Tony Scott, no primeiro “Scream“, entre outros filmes…; “Blow Up the Outside World“ fui eu a descer a “Wonderland Lisboa” a filmar com o shutter o mais lento possível, no Dia dos Reis — o último dia com tudo montado — enquanto ouvia Soundgarden nos fones. A surpresa foi descobrir que o microfone montado na câmara, síncrono à velocidade normal, tinha originado uma experiência sobretudo sonora.
Com estes filmes até montei uma pequena exposição no Mercado do Rato, acredite-se ou não, chamada “Finally a Fight“, cujo trailer é ele próprio um inédito, e que usa imagens de eu a andar a cavalo no Gerês, por exemplo, que foram filmadas nesta réperage de que te falo e que foram protótipas do “Quorum“.
Portanto, tinha algumas imagens na cabeça que procuravam existir num próximo videopoema. Uma cara de uma rapariga por cima da canópia de uma floresta, uma figura no mato no escuro, uma lanterna… Por volta de 2016, tinha vivido numa residência universitária, em Lisboa, e haviam organizado uma excursão de grupo a Braga e ao Gerês. Em turma, passeámos por locais como o estádio de futebol do Grupo Desportivo do Gerês, a Cascata do Arado — tudo futuros décores do “Quorum” — e o que eu quis fazer no Natal de 2018 foi investigar essas memórias, agora sozinho; pareciam-me locais férteis, condutores, sítios para perceber uma forma de fazer um “videopoema” mais ambicioso. Tinha comprado então, dizia, um novíssimo Samsung Note 9, um estabilizador para filmar com ele, e reservei três noites num hotel na Vila do Gerês, o Hotel Adelaide, futuro palco também, claro está, de algumas cenas do “Quorum“. Começas a ver como o filme é recursivo…
Trabalhava na restauração nesta altura, numa barraca de hambúrgueres para o Rock in Rio, por exemplo, e até me aventurei a descobrir uns truques para juntar um pouquinho mais de dinheiro para financiar a minha viagem. Como quando se vai ao hipermercado e se consegue levar um folhado misto a mais pelas caixas automáticas. Para mim não deixava de ser revolucionário, era um gesto contra o megacapital… Este detalhe pouco interessa, acrescenta aqui uma camada herzogiana… lavar pratos ou servir imperiais. Cheguei a rascunhar ideias para o “Quorum” num papel de caixa registadora durante o turno. Esse tipo de coisa.
Antes de subir para o Gerês, dormi uma noite em Braga, e comprei na Decathlon a lanterna de campismo mais poderosa que havia em stock. Tinha genuinamente como ideia entrar na floresta do Parque Nacional de noite com uma lanterna e filmar coisas, as árvores, colocar o tripé na minha frente e interpretar uma espécie de criatura. Durante o tempo que passei lá, estive cheio de medo de me embrenhar no mato à noite, como é óbvio. Mas filmei outras coisas, passeei de cavalo com a mesma empresa que ajudaria com os cavalos no “Quorum“, fui à cascata, ao estádio, ao bar da piscina. Descobri por acaso a lápide e filmei uns planos por lá. Descobri um excelente blog sobre o Gerês que detalhava a lenda toda.
Voltei a Lisboa com uma pasta de uns 45 GB de filmagens de telemóvel a que chamei “Projecto Ogre“, uma pequena homenagem ao Hideo Kojima, que tinha esse como working title do seu “Metal Gear Solid V“. Escrevi um proto-argumento com algumas páginas sobre a experiência, e pedi a uns amigos na World Academy, onde estava a estudar, um rapaz e uma rapariga, para irem comigo ao estúdio e fazermos um improviso sobre o tal tópico da lenda: ele era o soldado fugido e ela a freira que o ajudava. A ideia era magnética e a coisa pareceu consolidar-se à volta dela. 9 versões do argumento mais tarde, em Novembro de 2021, estava de volta ao Gerês, com uma equipa, para a rodagem do filme que conheces.

Tive a felicidade de receber apoio do ICA, sem o qual esta concretização não teria sido possível. Tivemos a notícia em Abril de 2021, estava eu no Cineteatro São João em Palmela, a fazer assistência de encenação de um espectáculo. É o mesmo Cineteatro São João onde se passa o acto final de “Quorum“, e cuja fachada encerra o filme…
Isto responde à tua pergunta em relação a “sobre” o que é o filme? O “Quorum” está cheio destas piscadelas de olho privadas, a mim próprio, a ninguém. Penso, talvez, que as coisas vivem duas vezes, a primeira no decorrer da vida, fora do nosso controlo, a segunda como ficção, nas nossas mãos.
Digo-te só mais uma anedota. A candidatura ao ICA foi entregue perto do meio-dia no dia 10 de Setembro de 2020, em set, estava a trabalhar n’”A Generala“, uma série do Sérgio Graciano/Coral para a SIC. Assim que terminei fui para o catering e calhou almoçar com a Victoria Guerra, com quem conversei exactamente disto tudo que te disse aqui. Estava contentíssimo nessa rodagem porque ela estava lá e podia-lhe perguntar coisas sobre o “Cosmos“, do Żuławski, um dos filmes da minha vida. A certo ponto, para uma cena do argumento de “Quorum” que não chegou a entrar no filme, uma espécie de epílogo, quis rodar na moradia em Sintra onde “Cosmos” foi filmado. Ainda tentei encontrar qual era, sem sucesso.

Dizes que o “Quorum” parece ser sobre uma urgência de fazer cinema hoje. Não sei concordar ou discordar. O filme será capaz de falar por si mesmo sem qualquer adição minha. Esta história que te conto ilustra talvez uma urgência pessoal.
Há uma sensação de fim do mundo ao longo do filme, como se o cinema estivesse a sobreviver a alguma coisa. Interessava-te partir dessa ideia de um fim, em vez da ideia de um recomeço?
Sim. Mais do que me interessar, não podia ser de outra forma. Isto é, na feitura do filme estava inevitavelmente incrustado um sacrifício. Um sacrifício monetário, claro, para começarmos pelo mais simples. Fui um dos produtores do filme e pus pessoalmente várias centenas de euros, como qualquer realizador faz, em décor, por exemplo (filmar na Cascata do Arado exigiu uma quantia imprevista), em tentativas de distribuição, essencialmente, quando já não tínhamos mais orçamento.
Um sacrifício ao nível da exigência pessoal também, claro, afinal de contas podia ter tido uma rodagem mais zen, no meu interior, se não fosse também intérprete no filme. E um ‘sacríficio’ existencial, se quisermos. Vou tentar citar Houellebecq só mais uma vez: afirma que escreve cada livro seu como se fosse a última coisa que fosse escrever, que pudesse escrever, na vida. Isso para mim fazia todo o sentido.
A intenção que coloquei no filme, genuinamente, era que pudesse servir como a minha última obra na Terra, o meu último gesto artístico. E é engraçado isso, porque era evidentemente o primeiro. Mas essa energia estava lá. Depois de filmar a sequência de futebol humano no estádio, onde estou à luta com o Gonçalo Botelho, tive de ir vomitar, uma paragem de digestão, estavam 1 ou 2 graus centígrados. Mas sentia-me bem. As coisas estavam a acontecer, eram reais, ficariam registadas para sempre. Estava a escrever o derradeiro poema, podíamos fazer esse exercício, de imaginar que estávamos ali a assistir a um fim, a um ocaso. É bom que isso tenha ficado perceptível no filme, uma espécie de ar rarefeito, um arquejar.
Claro que um filme assim virado para a morte, para um fim, não foi fácil, animicamente. Voltei para Lisboa e senti-me exausto, e desapontado, de certa forma, por aquilo não se ter cumprido, por não ter deflagrado numa grande obra logo lá, nas montanhas do Gerês. Voltei para Lisboa e foi tipo “pois, agora é preciso montar…”. Ainda faltava o trabalho todo. Alicerces pesadíssimos, e necessários, que nunca teria conseguido levantar sem o André Valente Franco, que foi o montador do filme. Numa das primeiras sessões de trabalho que tivemos, e ainda deixámos que uns meses se passassem desde a rodagem, mas numa dessas primeiras sessões disse-lhe basicamente, não é possível tu mexeres no rato, mexeres nos planos, porque o filme está todo na minha cabeça. Não o consigo expressar. Tenho de o descobrir ainda. E comecei a tentar montar uma cena, com a Stabat Mater de Vivaldi a dar nas colunas, a tentar evocar Brisseau, e o André deixou-me estar ali um bocado a mexer no Premiere, deixou-me estar ali até eu me virar e dizer, esquece, preciso da tua ajuda. É preciso lembrar que ainda por cima rodámos várias sequências que ficariam de fora, rodámos sem uma ideia precisa do que seria a ordem cronológica das cenas… o primeiro corte que gostámos tinha cinquenta minutos. Ainda se tirou vinte para o filme final. Foi um trabalho hercúleo. Sem o André, ainda hoje as coisas estariam na gaveta.
Portanto sim, gosto muito disso que dizes, de haver uma sensação do cinema estar a sobreviver a alguma coisa, a fazer um esforço final, secalhar, um estertor. É bonito. Era o que eu estava a sentir. Pensa no filme mais optimista que conheces. Vou buscar o “Conseguimos Fazer um Filme“, da Tota Alves, que gosto muito. Nunca conseguiria pôr essa energia no “Quorum“. As coisas eram graves. É certo que a Vila do Gerês não é o sítio mais isolado do mundo, mas eu estava lá sozinho — com uma equipa, mas sozinho comigo mesmo, um sozinho heróico, analítico — no sentido em que todo o comando criativo era meu. A entrar no filme, a arriscar tudo. As silhuetas das montanhas à noite olhavam-me da janela do quarto na madrugada antes de começar a rodagem, madrugada onde obviamente não consegui descansar. Podia tudo ter acabado ali, não ter dado em nada. Era preciso o cinema irromper. Ainda bem que irrompeu.

De resto, não sou nada iconoclasta. Nada. Por isso também não sentia que houvesse nenhum cinema para recomeçar ali. As coisas desembocaram ali, isso sim. A sequência da freira e do soldado no teatro? Não procures mais longe que “O Sapato de Cetim” (1985) do Manoel de Oliveira. A cena nasceu sob o signo desse filme. Outras nasceram sob o signo de outros. “O Nosso Tempo” (“Nuestro tiempo“, 2018), do Carlos Reygadas, “Que o Diabo nos Carregue” (“Que le diable nous emporte“, 2018) do Brisseau. As minhas influências antigas e recentes. Desembocavam ali.
O Gerês acaba por ser muito mais do que um cenário. A paisagem parece engolir as personagens e até o próprio filme. Até que ponto a natureza mudou aquilo que tinhas imaginado para “Quorum”?
Foi excepcional. Eu queria ser desafiado pela natureza, queria que houvesse uma força, uma natureza real, um vento daquele que se empurra contra ti quando queres andar. Foi isso que aconteceu. Uns dias antes de começarmos a rodagem, já lá em preparação, apanhámos mesmo os últimos dias de algum calor de Novembro. Estava tudo tranquilo. Assim que começámos a filmar, começou o frio. E em algumas cenas, especialmente na famosa cena dos cavalos, estava frio a sério. Essa cena dos cavalos rodou-se numas montanhas ao pé da estrada, repara. Não parece, mas é facilmente acessível de carro.
Tivemos que arranjar soluções práticas para algumas coisas. Uma cena que não chegámos a filmar, escrevi para se passar num sítio chamado Minas dos Carris, um complexo mineiro abandonado, cheio de ruínas, e onde neva. Quando perguntei aos meus amigos na Gerêsmont, numa réperage já com a directora de produção e o director de fotografia, por indicações para este local, disseram-me que não dava para ir de carro, e que filmar lá obrigaria a viagens de horas a pé, tanto para ir como para voltar, em equipa, a carregar equipamento. Entendemos imediatamente que não seria possível. Essa cena era a freira e o soldado em fuga, a esconderem-se pelas ruínas, no vento cortante, na pedra cortante, a neve, a pressão da natureza, tudo isso me interessava.
A natureza fez bem ao filme. Pôs-nos todos vivaços. E o “Quorum” é um filme sem direcção de arte. Tudo o que filmámos foi as is. Salvo excepções também elas muito naturais, como varrer os excrementos dos nossos cavalos para fora da estrada, enquanto esperávamos entre takes.
A história entre a freira e o soldado parece existir sempre entre a realidade e a imaginação. Nunca sabemos bem onde acaba uma coisa e começa a outra. Era importante para ti manter essa ambiguidade, essa fronteira nunca delineada entre a ficção, o real e o metalinguístico?
Das coisas que mais me orgulho no filme é o facto de ter conseguido, creio, uma obra aberta, muito permeável à hermenêutica e, mais importante, muito generosa, sem grande constrangimento em ser interpretada desta ou daquela maneira. Um filme que não é “difícil” — que pode até, entre todos os seus corredores, ser “fácil”. Já me disseram que o trio do filme fez lembrar os três pastorinhos. Já me disseram que na cena do “fantasma” caído no chão junto à lápide, à noite, são as três personagens que estão por baixo desse lençol, a envolverem-se amorosamente (adoro esta interpretação, que nunca me ocorreu a fazer o filme).
Coisas que eu acho graça e reparo, pessoas não acham graça ou não reparam, coisas que eu não reparo são notadas por terceiros. Aquilo que para mim é o ANIM, por exemplo, para pessoas que nunca lá foram pode realmente parecer um estranho convento. Acho isso notável, e correcto. Um dos visionamentos mais curiosos, para mim, foi mostrar o filme a um grupo de amigos do meu antigo secundário, todas pessoas sem hábito de ver cinema fora da esfera do mercado comercial. Para minha surpresa e agrado, tudo o que comentaram ao longo do filme achei de uma clareza e de uma correcção notáveis. Nada tinha ficado “por compreender”.
Conseguiu-se isto para o filme, penso, através de um número de cenas cuja “razão” ou “motivo” está enterrada, ou que simplesmente nunca existiu. De onde vêm estas personagens e para onde vão? Não é um filme narrativo. Ao mesmo tempo, é um filme claríssimo. No estádio, misturamos um jogo e uma luta, parecemos ressentidos de alguma forma. De certa maneira é simples. A esfera de luz apazigua tudo. No fim, o soldado e a freira riem-se dos espectadores de teatro: parecem-nos na sua acção infinitamente mais felizes que os outros. Uma vez, numa visita de estudo, um guia frente aos Painéis de S. Vicente afirmou-nos que uma criança seria capaz de apreender todo o essencial da peça. Também acho que no meu filme se percebe tudo.
Isto para te responder: onde é que acaba a realidade e começa a imaginação… todo o filme é imaginação minha, não é? Por acaso, existe num disco rígido e pode ser projectado. Essa é a parte da realidade. Quanto ao metatextual, é importante ressalvar que nunca há olhares para a câmara ou quebras da quarta parede. Apesar de gostar nos filmes dos outros, acabou por não me interessar aqui fazer isso. O que aconteceu, citando o meu amigo Diogo, é que acabei por deslocar as fronteiras da ficção um bocadinho mais para trás, ao ponto de me englobarem a mim e à equipa. É tudo.

A voz da Alice Ruiz tem um papel muito forte no filme e cria uma atmosfera muito particular. Como é que essa escolha surgiu? Havia referências literárias ou cinematográficas por trás dessa decisão? Como foi a escolha do elenco?
Compreendi cedo que a pedra tinha de ser lida na íntegra, no filme, pelas personagens e que este momento constituía um vértice fulcral. É claro que ninguém retém por completo o soneto que a Alice está a ler. É uma espécie de nota introdutória, o final de um feitiço para entrada no filme. Incrivelmente, entre o que está na pedra e o que ela diz, que decorou, há uma diferença, em que só reparei completamente agora mesmo, para esta entrevista. Ela termina o soneto dizendo “Tudo o tempo varreu, levou consigo / E só tradição no livro incerto / Se encontra o caso que aqui te digo”, que é como está apontado no livro de inscrições de Braga e arredores de Albano Belino (1895), citado pelo etnógrafo Tude de Sousa (1927), e citado de novo pelo Rui C. Barbosa, criador do blog “Carris” — a quem tenho de mostrar o filme — a menos que algum dos três se tenha enganado. Pois o que está (parece) de facto escrito na pedra, e que se vê no filme, é “Tudo o tempo varreu, levou consigo / E só da tradição no livro aberto / Se encontra o caso que eu aqui te digo”, o que realmente faz mais sentido.
Mas esta pedra nunca está onde parece estar, afinal — o filme abre com uma citação de um padre que afirma que ela está no Bom Jesus em Braga — e o seu fundo de verdade permanece um mistério. Quão apropriado é que a pedra e a sua leitura difiram, sem querer, no filme que fiz sobre ela? Espero que ao lhe ter dedicado “Quorum“, tenha contribuído para a sua lenda. Acho que sim.
Não conhecia nenhum dos intérpretes, nem a Alice, nem o Gonçalo. Foram ambos sugestões do director de actores, Pedro Saavedra. Fui tomar café com cada um, conversámos, e pareceram-me bem. Originalmente, o papel masculino seria para o Miguel Ponte, mas por razões de calendário não foi possível. Correu muito bem a rodagem com a Alice e o Gonçalo.
Não houve nenhuma referência literária ou cinematográfica de resto, mas o plano da Alice a ler a pedra tornou-se representativo do filme. Será fácil ver porquê: o rosto tem uma importância óbvia na fotografia e no cinema.
E falando em elenco? O facto do realizador, o próprio Rafael Fonseca, surgir também em frente das câmaras, contribui para esse malabarismo entre realidades e ficções. Porquê esta escolha e que resultado teve no projecto?
Neste curso de Realização da World Academy, no ano lectivo de 2018/19, um dos primeiros módulos, penso que com o Zé Pinheiro, tinha como bibliografia o livro “The Total Film-Maker”, do Jerry Lewis. Nesse livro, que comecei a ler, o Jerry Lewis propõe, ou enquadra como fundamental, o exercício de calçar os quatro chapéus de autoria num filme: argumentista, realizador, produtor, e intérprete. Para mim, fazia completo sentido. Sentia algo do género: se é para fazer, deve ser all the way. Tenho de criar a minha obra de todos os lados. Uma espécie de ultraposição.
E é como te disse há pouco: a ficção é o mundo onde podemos existir de uma segunda forma, uma segunda vez. Nesse sentido, vejo-a como um grande transformador, acho que pode ser mesmo muito poderosa. Vários dos meus artistas favoritos mexem na ficção de formas igualmente fortes, desde o Mário Coelho ao Caveh Zahedi, e já tive a sorte de trabalhar com ambos. Mas não vejo as coisas exactamente na linha deles, ou na linha de mais ninguém. Vejo da minha maneira.
A sequência da “fuga do convento”, no filme, passa-se no ANIM, onde eu estagiei em 2017, cujo cofre de Novos Formatos, das cassetes, arrumei. Passei cerca de duas semanas naquele cofre. É por isso que escrevi essa cena a passar-se lá. Era essencial visitar o ANIM outra vez, entrar no cofre que tinha arrumado, caminhar pelos corredores onde caminhava, mas desta vez num outro mundo, o da ficção. Eu surjo à frente da câmara no estádio, no hotel, aqui e ali, porque já tinha percorrido todos esses lugares antes, na minha vida. É Natal no filme porque era Natal quando o escrevi. As coisas são assim no “Quorum” porque de alguma forma foram assim na vida.
O resultado que teve no projecto foi apenas que foi mais difícil de fazer do que se eu estivesse na régie. Foi preciso uma confiança total no Tiago Amorim, assistente de realização, no Miguel Manso, director de fotografia, no Pedro Saavedra, pessoas que tiveram de estar a ver em vez de mim o que estava a ficar gravado, e essa confiança existia. Se a tua pergunta era sobre um resultado posterior, bem, ficarei para sempre no filme com 25 anos. Vai ser um efeito giro no futuro. Já começa a ser. Mas penso que sobre a eternidade tens uma pergunta mais à frente.
“Quorum” passa por vários géneros (filme histórico, ficção científica, romance, ensaio) mas nunca se instala totalmente em nenhum deles. Isso aconteceu de forma natural ou querias mesmo testar os limites do que um filme pode ser?
Nunca pensei em cinema de género. Descrevi-o aos actores quando os conheci como um filme de “quadros”. Isto está presente no primeiro ensaio junto à cascata, por exemplo, um plano fixo de três minutos, ou nas fotografias que a minha personagem tira. Está presente na cena dos cavalos, os que tu chamas garranos. Está presente no poster, que eu adoro… Quadros. Eu acho que é um filme muito brincalhão, formalmente. Essas coisas do quadro, do dentro e do fora estão sempre em jogo, apesar de, como falámos, não haver nenhuma quebra de parede, nenhuma perche a baixar ou nenhum “corta!” que se ouve… Aquelas coisas estilo Miguel Gomes, como no início das “Mil e Uma Noites” ou no final do “Grand Tour“.

Não há isso. Mas na fuga do convento, quando ela diz “tenho de te dizer uma coisa”, e ele diz “Não digas, espera até chegarmos lá fora”, e depois entram dentro de uma sala de cinema onde está um fora projectado… No final da cena do teatro, quando ouvimos a voz do Papa (eu) a falar com eles, e aquilo que filmo são as várias colunas de som do anfiteatro… Quando a Alice entra no estádio para parar a nossa luta, por exemplo, e os holofotes do estádio se apagam silenciosamente assim que ela entra. Tudo isso são apontamentos formais fortes, divertidos, eu acho, dentro da sua gravidade, e que reenviam o filme para uma situação… sim, talvez nos limites. Um filme onde vemos as margens, os contornos, mas não é por isso que as coisas são menos reais…
Os garranos e aqueles fenómenos no céu dão ao filme um lado quase mágico. Ainda acreditas que o cinema pode provocar esse sentido de maravilhamento e de mistério?
Como não? Rever o filme é pensar o seguinte: fizemos mesmo isto? A sério que estivemos ali, a olhar para um vale vazio para depois enchermos com cavalos? A sério que estivemos num estádio à meia-noite, com um drone do Manel dos drones cheio de luzes, à espera que outra parte da equipa chegasse a um miradouro à distância para nos filmar a olhar para uma bola gigante? Corremos mesmo pelo ANIM às voltas? Fomos mesmo assim tão bons, tão maravilhosamente impecáveis, tão inexcedíveis? Tão felizes?
Ou é uma coisa perdida? Um momento que nunca mais vai voltar? Ou estamos a olhar para areia que nos passa pelos dedos, uma e outra vez, numa espécie de tortura? Conheces outra magia assim?
E em relação aos garranos, uma sequência criativa que parece resultar numa alternativa aos recursos disponíveis, e poderá ser visto como uma referência a Eadweard Muybridge. Como foi possível essa cena?
A ameaça de que eles se escondiam (de cujo som eles se escondiam) não era necessariamente linear. Isto sabia desde o início. Se tentar fazer uma arqueologia da ideia, a coisa mais seminal de que me recordo é a imagem de um casal a abraçar-se perante um barulho ensurdecedor, como num aeroporto. Aqui no “Quorum“, como estava a estabelecer uma espécie de véu quebrado entre o passado/presente/ficção/, com a estrela brilhante, o lençol caído, as fotografias do Gerês antigo, foi surgindo aqui de algum modo uma ligação entre os cavalos selvagens, as altitudes montanhosas, e uma fantasmagoria.
O que é facto é que cheguei lá num dos dias de planificação, virei-me para o Tiago e disse que ia ser assim, que eles se escondiam mas não veríamos nada, adicionávamos os cavalo em pós-produção. Mas era para se ver mesmo que era “falso”, não era de todo para “tentar” que fosse “realista”. Bom, uma vez que tinha isso bem claro na ideia, e já em pós-produção, era muito importante para mim que fosse o João Pedro Gomes a assinar a cena, queria que fosse uma espécie de quadro com a mão dele, segundo as minhas indicações.
O João Pedro Gomes é um artista visual e VJ português de que gosto muito, e que costuma trabalhar assim em efeitos visuais dentro do nosso cinema, para o “Ubu” (2023), por exemplo, para a Rua Escura… Infelizmente o IMDb cá em Portugal está muito pouco completo, por isso é difícil encontrar uma lista de tudo o que ele fez. Será eventualmente mais conhecido por ser um dos Daltonic Brothers, com o Paulo Abreu. Conheci-o no meu estágio como assistente de realização para a Droid I.D., a produtora que acabaria por acolher o “Quorum“. Mandei-lhe uma maquete, ele devolveu uma versão já muito boa, mas onde os “quadros” com os cavalos se mexiam pelo vale. Eu acrescentei só que queria que os quadros ficassem fixos, e ele fez uma segunda versão que é a que vês no filme.
No final, fiquei com a sensação de que o filme está a perguntar o que é que fica depois de nós. Achas que o cinema tem alguma hipótese de sobreviver ao tempo, ou essa ideia de eternidade é apenas uma forma de continuarmos a fazer filmes?
A tudo o que já conversámos, o que falta acrescentar ainda é o efeito profundo que o filme teve na minha vida, já muito após estar terminado. A quantidade de pessoas e de amigos que conheci, de experiências que passei só por causa do “Quorum” é impressionante. Por causa do filme estrear no Festival Montanha, na Ilha do Pico, conheci-te a ti, ao Terry Costa, ao Rui Tendinha. Noutras ocasiões, conheci o Manel do Cineclube de Pombal, a Rita Correia do Festival de Santarém, o Tiago Alves do Cinemax, o Pedro Florêncio.
Passei o filme na sala M. Félix Ribeiro na Cinemateca, cheia. Conheci a malta dos Prémios Curtas. Paguei uma renda uma vez, graças ao “Quorum” … e tantas circunstâncias, tantas conversas directamente ligadas ao filme, que a este ponto julgo que tê-lo feito é um evento tão consequente e ramificado como ter vindo para Lisboa viver, ou a escolha da minha licenciatura. Tem sido como uma lança em frente na minha vida, a abrir caminho. Isso “já ficou”, portanto, não depois de nós, mas no entretanto que cá estou.

Este filme vai continuar a ser visto, o efeito de eu aparecer numa Q&A com a idade real depois de aparecer no filme com a idade do filme será cada vez mais interessante à medida que os anos passam. Houve uma vontade faraónica de preservação, é claro… mas não acho que as coisas se tenham esgotado aí. Acho que consegui que o filme fosse mais do que uma cápsula do tempo. Ou então talvez não, e é precisamente de uma cápsula do tempo que se trata: o filme, os seus efeitos na minha vida, a década dos meus vinte. Se assim for, uma coisa parece certa: temos de fazer outro.
Em relação a novos projectos? Veremos uma longa-metragem, ou uma extensão do universo sugerido em “Quorum”?
Tenho uma segunda curta-metragem escrita, que se passa inteiramente na Ilha do Pico. Conheci alguma coisa da Ilha do Pico apenas porque fiquei lá nove dias, no âmbito da estreia do “Quorum“. Portanto tens aí uma ligação. Mas de resto não tem nada a ver, além do facto de ser escrita por mim. Tenho também uma longa-metragem pronta a passar da cabeça para o papel, quando for oportuno. Passa-se no Centro de Portugal, talvez em Viseu. Posso adiantar um moodboard: Edgar Allan Poe, “Strangers on a Train” e Maurice Pialat.

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