“Não te importas de vir à Reboleira falar com o Basil?” Nem hesitei. Haveria lugar melhor para entrevistar um realizador do que aquele donde o filme em questão foi “parido”? Aceitei afirmativamente, respondendo à assessoria com outra pergunta: “A que horas e qual a morada?”.
Como sempre, nas vertigens da minha pontualidade, chegando à altura do encontro, “embarco” na Reboleira uma hora antes. Circulo pelas imediações da estação de comboio e procuro aquele que será o palco da entrevista, mas, com tempo de avanço e numa tarde calorenta, quase a atingir os picos do calor diário, avanço para um outro plano, o do refrescar. Encontro um café próximo do local combinado, “O Farol”, lê-se no toldo. Porta fechada. Estamos em pleno Agosto, penso, poderá ser mais um daqueles estabelecimentos aos quais dá graça fechar nesta “época alta”. Atrás de mim, alguém surgia com o mesmo propósito… entrar. “É só empurrar”, disse-me. Assim foi. No interior, alguns fregueses, ar condicionado ligado… está explicado o motivo da entrada aparentemente fechada. Sigo para o balcão. “Uma mini, por favor”.
O barista, cuja cara não me é estranha (será que entrou no filme?), pergunta-me qual a marca da cerveja, dando duas hipóteses. Esclareço a última opção. Com a garrafa na mão, sento-me e aguardo. Entretanto, um diálogo acontecia ao meu lado.
“Olha lá, vais à estreia do filme?”
“Ainda não sei.”
“Pá, mas é dia 1 de Setembro, não é?”
“Acho que o filme estreia a 3, mas há uma sessão a 1. Acho que é daquelas especiais, o Basil quer que vamos.”
“E já viste o filme?”
“Ainda não, nem sei se o Basil cortou o meu papel ou deixou ficar.”
“Vi uma versão, a Xana está muito bem!”
Um filme de Basil da Cunha estava a acontecer em frente aos meus olhos, e acidentalmente, pareceu-me, tinha entrado num dos seus “sets”, e, com certeza, as duas personagens, literalmente, tendo em conta que as suas caras não me eram estranhas, eram realmente actores do filme, ou melhor, dos filmes do realizador. Ali, no “O Farol”, com uma mini nas mãos e um realizador a caminho, um estúdio, ou melhor, o bairro do cinema começa ali, como um grande portão de boas-vindas.
Sobre “O Jacaré”, cuja estreia aconteceu na última edição de Locarno, o referimos como um heist movie com os seus viés cómicos e sem modos, à imagem dos primórdios de Guy Ritchie (o realizador haveria de me confirmar depois a referência), um jacaré, verdadeiro animal, no meio de uma intriga envolvendo dinheiro roubado, ajustes de contas e algumas artimanhas, a polícia sempre à coca, igualmente furtivos e furiosos, e um final a abrir portas para novas etapas no cinema de Basil, um dos realizadores com mais know-how deste país.
E com “O Jacaré”, na transição, como promete, lança um basta aos “filmes de piratas”, de poucos recursos e pouca projecção, ansiando por outros modelos, outros públicos. Aliás, um cinema popular que não trate o espectador como ovelha do mais preguiçoso entretenimento.
Basil da Cunha, que me recebe à porta do “O Farol”, um metafórico farol na entrada da Reboleira, o bairro cinematográfico, era um reencontro com mais de seis anos. Da última vez, prometeu-nos uma espécie de fim do mundo nos gestos de uma nova geração bairrista. Agora, outras escamas …
Ouçam, há um crocodilo nos esgotos… coisas estranhas acontecem aqui!

Vou mencionar uma entrevista tua ao site À Pala de Walsh, cuja frase de destaque era: “Quero é que o meu pai vá ver os meus filmes e goste”. Passados seis anos desde esse texto, e sabendo que agora é pai, pergunto-te se essa ambição se alterou e se, daqui para a frente, também fará filmes para o teu filho ver e gostar?
Sim! Principalmente nos próximos, já que este é o último desta “colecção”. Os próximos vão mergulhar, com os dois pés, no cinema de género, como os de super-heróis. Neste momento estou a trabalhar num filme de terror.
Um filme de super-heróis?
Sim, só que é um outro tipo de super-herói, entre aspas, um miúdo que descobre ter superpoderes, só que vive num bairro sujeito à repressão policial, e assim se tornará no super-herói da sua comunidade. Mas, ao invés de ‘caçar’ bandidos, irá enfrentar polícias. Então, vai ser um super-herói do povo. E o que é que quero fazer com isto? Criar filmes que ele possa ver, que se sinta representado, que se reconheça neste super-herói. É a minha ambição.
Quero fazer o filme, uma banda desenhada associada, e até bonecos, todo um universo à volta disso! [risos]
Algo inédito no cinema português! Mas vai ter produção suficiente?
Vai sim. Acho que estamos numa fase da nossa caminhada em que temos maturidade e experiência para poder dar o salto. Também queremos ocupar outro lugar. Estamos fartos de fazer “filmes de piratas”, pouco ou quase nada, e com pouca projecção. Queremos mais, fazer filmes mais populares e, ao mesmo tempo, mais exigentes. Afinar a linguagem e conseguir crescer.
Mas essa ideia de que falas, de apostar num “cinema popular, mas igualmente exigente”, é uma resposta ao que, quando falamos em cinema português comercial e popular, diria até com essa ambição, não são propriamente sinónimos dessa exigência? Muitos acabam por cair no facilitismo ou numa espécie de apêndice televisivo.
Não, mas as minhas referências não são o cinema português. No cinema dos anos 70 ou dos anos 90 também existiam produções muito fortes, filmes pensados para um público e que, ao mesmo tempo, continham uma dimensão política muito presente. A nossa ambição é essa, o qual já está um bocadinho presente neste filme.
Este filme já é uma obra de transição, ou seja, uma obra onde a linguagem usada, o ritmo, ainda não estão completamente conseguidos, ainda não chegámos lá, mas um dos primeiros passos. Só não é o primeiro, porque já estivemos a experimentar várias linguagens e vários géneros, mesmo assim acho que este filme assume ainda mais essa dimensão, ou melhor, para responder à tua outra pergunta, sinto ainda mais essa responsabilidade agora, tendo um filho. Quero fazer, lá está, um super-herói para ele, um filme de terror que ele possa ver com os amigos e que lhe deixe alguma coisa.

Por exemplo, este filme de terror que estou a imaginar é uma história onde os vilões são moradores que integram uma daquelas milícias que, nos anos 80, atiravam cocktails molotov para cima das barracas de madeira. Pronto, estás a entender a ideia? São aqueles moradores que não querem barracas por perto. Então, há sempre aquela dimensão político-social. Estamos a contar a história de Portugal, uma história ainda pouco conhecida e desvendá-la através de um cinema mais popular permite dá-la a conhecer a mais pessoas, e isso é vantajoso.
Mas agora, partindo mesmo para este filme que nos traz cá hoje… Em relação a “O Jacaré”, encontrei uma referência interessante. O lagarto-barbudo presente na tua primeira longa-metragem, “Até Ver a Luz”, chamava-se Jacaré, mas, neste momento, chegámos mesmo a um crocodilo. [risos]
Claro, tivemos de fazer crescer o animal [risos].
Gosto sempre de pôr animais nos meus filmes e já metemos muitos. No caso do dragão-barbudo, aliás, foi aí que nasceu a expressão “jacaré”, por causa de “Até Ver a Luz“, que é usado para descrever pessoas que são trafulhas, bandidos, mentirosos, mas que ao mesmo tempo, têm sentimentos. E o filme é sobre isso, sobre pessoas que desconfiam umas das outras, todas à procura de uma coisa, sem saberem muito bem porquê. Todos desconfiam de todos.
E há um jacaré no meio, literalmente, lá está, que também simboliza essa ideia da trafulhice. É um elemento cómico do filme e permite ligar todas aquelas personagens, já que existem tantas no meio da história.
Continuando no rastejante uma curiosidade técnica e operacional: como foi trabalhar com um animal de verdade? Porque ele é mesmo verdadeiro! É mesmo um jacaré!
Tecnicamente, tivemos de filmar fora de Portugal. Filmámos o contra-campo em França, porque estes animais são proibidos cá. Foi com um senhor que recupera animais apreendidos pela polícia, normalmente em bairros onde os traficantes gostam de ter cobras e outras criaturas que ostentam uma noção de poder. E ele tem uma espécie de casa cujo quintal não é muito diferente dos da Reboleira, ou seja, praticamente não houve nenhum trabalho de produção para fingir que estávamos cá.
E o animal foi afável?
Comportou-se bem. Só que se cansa muito rapidamente [risos]. Dá três passos e tem de ficar uma hora a descansar, mas o resto fizemos depois. A cena mais ambiciosa foi pô-lo numa piscina com a nossa actriz, mas também se comportou “super bem”. Estavam lá o director de fotografia e a actriz…
Mas a actriz estava mesmo dentro da piscina?
Sim, estava mesmo na piscina e não teve qualquer problema. Nada, nada. Estes crocodilos vivem com aquele senhor, estão habituados à presença humana. Aliás, são três que o tal senhor tem e estão na sua sala de estar. Recordo estar na sala e eles a passar por baixo de nós. [risos] Surreal!
Agora, sobre a outra questão, as referências dos anos 70 e 90, acho que já ouvi isto numa entrevista, mas confirma-me: é verdade que vês o “GoodFellas” todas as semanas?
Confirmo e posso garantir que continuo.
Isto, de uma forma muito abstracta, faz-me sentir que nos teus filmes há cada vez mais travellings, mais… diria, mais movimento. Essas sequências e tudo, obriga-nos enquanto espectadores a serpentear, lá está como um réptil, pelo labirinto que é o bairro. Aliás, é muito engraçada a impressão que a Reboleira, o bairro, tem desde “Até Ver a Luz” até agora, porque esse filme é muito labiríntico, muito escuro, e cada vez mais o teu bairro cinematográfico tem mais luz. Mas, atirando assim a provocação com referência à mistura, pretendes captar uma espécie de Copacabana Club no bairro da Reboleira?
Não, estou mais à procura da Reboleira como uma espécie de Cinecittà. Quando tinha 20 anos, vivia de noite, filmava os rapazes, logo os filmes eram mais sombrios. Tinha pouco dinheiro, logo era câmara à mão, a iluminação era feita com candeeiros e pouco mais. Depois, com o passar do tempo, comecei a conviver com as famílias. Quando comecei a sair do campo…

E começaste a passar mais tempo durante o dia.
Exactamente … e queria também mostrar essa força de vida, essa alegria, essa comédia presente no dia-a-dia. Isso lembra-me muito os filmes do Kusturica, quer dizer, numa imagem, num plano, tens um monte de coisas a acontecer ao mesmo tempo. Ou até no Fellini.
Então, a ideia foi, lá está, começar também a mostrar isso. Porque sinto, principalmente pelo que vivi, que, quando mostrava os meus filmes aqui, a malta até se ria, mas quando ia para a Suíça com “Até Ver a Luz”, apesar de, para mim, o filme ter bons momentos hilariantes, a reacção era diferente. Na Suíça ou na França, o filme era visto como algo pesado, triste, sem esperança, e não quero passar essa imagem para fora. Quero mostrar aquilo que sinto.
E o que temos conseguido fazer com isso é talvez dar aos filmes uma dimensão capaz de despertar nas pessoas vontade de vir beber uma cerveja ou comer um churrasco aqui, o que é bom. Já conseguimos quebrar algumas barreiras relativamente à maquinaria.
Principalmente na altura, recusava música extradiegética, recusava máquinas. Também não tinha dinheiro para isso, mas era muito dogmático. Era a minha escola: neorrealismo, cinema directo e mais não sei quê. Só que, na realidade, isso é uma coisa um bocadinho imatura. O meu cinema é maneirista. Lá está, vim do cinema de acção dos anos 80 e 90, tive de assumir também aquilo que sou, e é isso que vou procurar agora com essas ferramentas e essas linguagens.
Acredito nisso. Na mencionada entrevista à “À Pala de Walsh”, revelas que te baseias muito em “Lethal Weapon” para escrever os argumentos.
Exactamente … e na montagem também … aliás, montagens paralelas. Quando acontecem boas peripécias ao mesmo tempo, a música e duas ou três acções em simultâneo fazem isso de uma forma muito engraçada, com punchlines, com pequenas deixas engraçadas. E o “Die Hard” também. O filme que começou esta coisa da movimentação por todo o lado. Aliás, foi o Jan de Bont, o director de fotografia, um génio! A forma como ele mostra o espaço é surreal.
Mas, falando em espaço, há algo, uma questão mais política, que é a representação da polícia neste filme. Alguém me dizia uma vez, numa conversa à saída de Jacaré, que este ataque ostensivo da polícia ao bairro também tem a ver com a extinção da própria polícia de proximidade. Não sei se foi uma coisa que também tentaste mostrar no filme. Por outro lado, não há um vitimismo por parte das pessoas deste mesmo bairro, porque, neste caso, o grande enredo é um golpe.
Claro, não é um filme sobre violência policial. Se fosse esse o caso, lá está… Ainda assim, é inspirado numa história real, e o verdadeiro ladrão não é do bairro, é um branco. Mas, quanto à questão da polícia de proximidade, sei que, teoricamente, houve essa extinção. Reparei mais nisso noutros países, como em França, do que em Portugal, porque, daquilo que conheço do bairro, a minha relação com a polícia sempre foi violenta e há cada vez mais métodos para o ser.

Acho que ainda estamos muito aquém daquilo que quero mostrar sobre a polícia em Portugal e sobre essa violência. Cada vez tenho mais a certeza de que é necessário mostrá-la, porque, neste momento, também vou começar a realizar uma série baseada numa história real sobre um rapaz que era bandido e foi assassinado pela polícia em 2002, e os relatos que tenho… bem … faço cruzamentos de informação, ou seja, tenho três ou quatro pessoas a dizerem a mesma coisa… entrevistei muita gente! Nem tenho espaço na série, que terá seis episódios, para meter tudo. Só entra aquilo que serve a história.
Mas voltando a esse retrato, o meu produtor não acredita, pensa que é exagerada a forma como descrevo a polícia. Então, isso mostra-me como é fundamental haver filmes, porque ajudam, pelo menos, a entrar num inconsciente político. E acho que isso é bem importante, mas não é o único caminho para se fazer isso.
Ninguém tem noção. Nunca foste abordado pela polícia dessa forma? Mas quando fores nem acreditas que é verdade?
Daí, na nossa última conversa, ter referido como era importante haver mais pessoas brancas envolvidas nestas manifestações de antirracismo.
Acho que houve, ultimamente, um crescimento. Não sei, fui a uma … isso posso te garantir.
Sim, se não estou erro da última vez que conversámos, no âmbito do “Fim do Mundo”, tinha acontecido o caso Bruno Candé.
Agora fui para aquela do Odair [Moniz]. Parece sempre haver mais. O Odair é um caso em que se está a perceber que houve negligência policial em tudo, desde o fundo até à forma como lidaram com o caso. Há corrupção, são coisas que acontecem semanalmente.
Aquele caso foi mais mediático, não diria associado, mas… Ou seja, há pessoas que são presas todas as semanas… De provas, violência, brutalidade. Isso chocou-me muito. Agora passo menos tempo no bairro. Naqueles anos, estava na rua semanalmente. Não me imagino a estar lá uma vez por ano, quanto mais semanalmente. As situações são muitas.
E outra questão, também seguindo esse encontro do “O Fim do Mundo”. Nesse filme referiu-me que já estava a trabalhar com uma geração que não era a sua. E, aqui, em “O Jacaré”, deparei-me com algo curioso, é que o crioulo é maioritariamente ouvido dentro do bairro, excepto quando são dirigidas ou estão presentes elementos mais novos. Parece haver aqui uma certa tradição a perder-se, nem que seja linguisticamente e identitariamente.
Sim, sim. Eles não oferecem o mesmo tipo de ponto de vista dos da minha geração. Já há um pouco… É complexo, porque existe a questão geracional e depois há a classe social dentro do bairro.
Há classe social dentro do bairro?
Sim. No filme percebemos que há as “cabeças” e há os que estão cá “em baixo”. Já existem algumas diferenças. Uma certa hierarquia portanto, mas aí entra também a questão do dinheiro. Então, sim. Como é óbvio, uma geração anterior à nossa ainda se vê com todas as dificuldades que carrega. A minha é uma coisa, os filhos deles já são outra.
E percebi que este filme demorou anos a ser feito.
Sim. E houve bastantes cortes, muitas remontagens, problemas de produção, chegamos até a mudar de produtor e de co-produtor porque simplesmente não aceitavam o meu método de trabalho e tinham opiniões sobre a minha forma de trabalhar. Fomos mudando coisas em cima da rodagem. Não tivemos tempo para nos preparar bem, mas tínhamos de filmar naquele momento, senão muita coisa ia desaparecer. A partir daí, tive de cortar oito semanas a seis antes da rodagem e mais duas durante, ou seja, um guião de duzentas e tal páginas passou para cem. Tive de cortar muito!
Pegava em quatro ou cinco cenas e enfiava tudo numa só, porque é difícil realizar uma cena e ter cinco cenas. São problemas de ponto de vista. Foi um erro que cometi. Além disso, é um filme coral, super complexo de montar. Ainda mais quando um problema tinha sido resolvido na escrita e, de repente, voltava a surgir na montagem. Lá está, com os cortes, não tive tempo para reescrever de forma a tudo funcionar. O equilíbrio é complexo.

E também tiveste de procurar um enredo principal dentro disto, porque, sendo coral, podes perder outro?
Exactamente! Foi bastante duro.
Falando em filme coral, o “Jacaré”, à imagem de muitos dos teus filmes, é também um filme comunitário, porque isto envolve a comunidade toda. Quando entrei aqui no Farol, sem conhecer ainda o espaço, falava-se da estreia do teu filme. Houve alguém que lamentou que o seu papel já tinha sido cortado [risos]…
Várias vezes isso acontece [risos].
Há aqui uma questão muito comunitária. Muitas destas pessoas acompanharam-te ao longo destes filmes, vivem-nos, fazem deles parte da sua família, dos seus respectivos mundos. Aliás, o Sombra, o protagonista de “Até Ver a Luz”, o Pedro Ferreira, é agora o Mafia em “O Jacaré”, é a revisita a este lugar… E há outros que estão igualmente presentes no teu cinema. Sentes que representas uma certa voz para estas pessoas?
Sim. Acho que é importante. Quando falámos na altura, depois de ganharmos o prémio em Locarno, foi importante para o orgulho do bairro. É sempre importante ser falado, ser visto no ecrã, porque isso tem um peso no sentimento colectivo e no orgulho da comunidade. Toda a gente participou, de perto ou de longe, nas cenas, ainda mais neste filme, com tantas personagens e tantos figurantes.
Há pouco falavas de Locarno. A reacção vinda de lá aos teus filmes foi muito diferente daquela que acontece aqui. Aqui, nós rimos de certa forma?
Locarno é diferente, reage bem. Falava mais daquilo que acontece depois, quando levo o filme para os cinemas. Locarno tem um carinho especial pelos nossos filmes, apesar de, como é óbvio, a recepção não ser a mesma de Portugal, muito menos a do bairro, que ligamo-nos mais facilmente ao filme. Quem percebe crioulo ainda mais. Há piadas dentro da língua, sobre o uso da língua, que apenas alguns vão compreender.
E só mesmo para terminar, acerca desta estreia em Setembro. Está muito em cima da estreia mundial em Locarno?
Certo, certo.
É quase excepcional, um filme português muito em cima da sua estreia num festival internacional, por isso, pergunto-te se isto surgiu também para minimizar a antecipação ou foi mesmo para chegar mais rapidamente à comunidade dos filmes?
A nossa ideia foi mesmo essa. Porque é bem concreto: é difícil conseguir pôr um filme no cinema. Normalmente, o filme sai num festival e só passado um ano chega às salas. Tem sido uma tendência.
Não fui eu que inventei isso. Há muitos filmes que vão a um festival pequeno e saem logo de seguida, e nós queremos aproveitar essa boleia também. Imagina: estás a fazer um artigo agora, outro fulano vai fazer um artigo para um filme público, vocês vão fazer outro quando o filme sair? Não necessariamente, provavelmente não e nós perdemos esse impacto que vocês podem ajudar-nos a ter. Quero aproveitar o momento para o filme continuar a ser falado.

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