Em 1990, o colunista do The New Yorker, Ian Frazier, concebeu um ensaio humorístico, em formato de peça jurídica, no qual a personagem de Looney Tunes, Wile E. Coyote, processaria a ACME, a empresa fictícia desse universo, pelos fracassos e engenhos defeituosos, responsáveis por o impedirem de agarrar a tão cobiçada ave Papa-Léguas. O texto é narrado pela voz do advogado de defesa do carnívoro em questão. Passados 33 anos, Samy Burch, James Gunn e Jeremy Slater partiram dessa ideia para desenvolver um argumento algo satírico, o resultado foi “Coyote vs. Acme”, filme capaz de se apresentar como uma surpresa no minado campo da hibridez entre animação e live action, mas também, perante as suas adversidades, tal como a personagem habitualmente esborrachada contra buracos pintados em paredes, uma tremenda luta contra o corporativismo… pois.

Tudo aconteceu em 2023. Com o filme completo e boas reacções nos seus test screenings, é “engavetado” pelas manobras financeiro-criativas de David Zaslav, presidente da Warner Bros. Discovery, decisão que permitiria um ganho de 30 milhões de dólares através de um tax write-off (um pouco à memória de Mel Brooks e do estratagema de “The Producers“). Perante a comoção dos fãs, da equipa criativa envolvida e dos actores, tentou-se, porém, comprar o filme arquivado, isto contra a própria resistência de Zaslav, que solicitava aos compradores cerca de 70 milhões pela produção, valor próximo do seu custo orçamental, fazendo desistir potenciais compradores como a Amazon e a Netflix. Após tentativas e tentativas, e muita carolice, lá a Ketchup Entertainment conseguiu chegar a acordo por 50 milhões, resultando na estreia do filme no Verão de 2026, onde, à altura deste texto, parece estar a ser apontado como um sucesso de crítica e de público.

Contudo, frente aos gigantes, um filme como “Coyote vs. Acme” poderia corresponder aos mais primitivos apelos que salivam perante este espólio de personagens novamente em grande ecrã, apesar dos fracassos mais incómodos, como “Space Jam 2” (2021), ou da curiosidade nostálgica de “The Day the Earth Blew Up” (2024). Enfim, o que dizer de algo cuja estrutura narrativa assenta num combate jurídico contra, citando o filme de cor, a maior empresa do Mundo, a ACME, gerida com maneirismos magnetizados pelo galináceo Foghorn Leghorn? … Será um reflexo de Zaslav? Conforme seja a intenção, é de facto um esboço de quase todos os CEOs que andam por aí? 

Portanto, não fiquemos acanhados: entre um entretenimento adulto em mimesis (o quanto possível) do arquétipo de “filme de tribunal” e o slapstick looneytunesco, violentamente inquebrável e hiperbólico, temos em mãos um dos mais funcionais exemplares dessa hibridez cinematográfica desde “The Congress”, de Ari Folman, com as suas ‘patadas’, ora moralizantes, ora mais esquivas e um tanto subtis, a esse sistema (ultra)corporativista testemunhado nos EUA e com braços estendidos por inúmeras partes do globo. “Coyote vs. Acme” é uma espécie de Paul Verhoeven animado, é um Cavalo de Troia escapista mas com discursos inflamados foragidos no seu interior. Cumpre a sua função, se descontarmos a animação 3D demasiado brusca e gelatinosa.

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