Fazer um filme é uma questão de vida ou de morte. Para Madalena (Noá Bonoba), produtora que herda a produção do seu falecido pai (o filme começa no funeral deste), terminar a obra, custe o que custar, não é apenas um respeito à memória, é também um manifesto de resistência. Tudo isto enquanto lida com a sua gravidez e com um realizador que foge misteriosamente do set, numa rodagem ao deus-dará, onde as peripécias se sucedem até mergulharem tudo no caos. Porém, o filme está garantido, nem que seja o próprio “Morte e Vida Madalena”, nova obra de Guto Parente (“Estranho Caminho”, “Clube dos Canibais”), que procura ser um tributo à produção independente, brasileira e não só, e à resiliência necessária para ser-se audível e, claro, visível.

Falando de visibilidades, foi com Noá Bonoba que o Cinematograficamente Falando… conversou sobre os pontos essenciais da produção e sobre o seu papel como Madalena. Contudo, partimos, no início, de outra “Madalena”, que Noá conhece muito bem, para chegarmos a um tema frequentemente abordado pelos meios de comunicação através da etiqueta “actriz trans”, como se pode ler em algumas das manchetes e títulos das entrevistas publicadas nas vésperas da estreia. Embora a atriz não esconda a sua transexualidade e assuma o conceito de “cisfake” (palavras dela, não nossas) no filme, garante-nos que o seu papel não pretende ser uma declaração agreste, mas antes um caminho, ainda que longo, rumo à normalização dos corpos trans no cinema, sem a sua dependência de narrativas de violência ou de alienação.

Morte e Vida Madalena”, da finitude à nova vida cumprindo um arco narrativo em paralelo com a difícil gestação de um filme, chega agora aos cinemas portugueses. Uma co-produção luso-brasileira da C.R.I.M. Produções e da Tardo Filmes.

Vamos falar sobre o filme, mas, antes de mais, tenho uma questão para lhe fazer. Encontrei um artigo seu na Revista Amarello sobre um filme chamado “Madalena” (2021), de Madiano Marcheti, o que também é uma coincidência, visto que me recorda a Madalena neste filme. No texto que escreveu, fala muito da personagem, interpretada por Natália Mazarim, e há uma frase sua que gostaria de lançar como mote para o filme: “O direito de corpos trans à socialidade é algo bonito de se ver num filme.

Gostaria de rematar isto pedindo-lhe que me falasse sobre esse artigo e, ao mesmo tempo, sobre a sua integração no filme “Morte e Vida Madalena”, e claro, da sua personagem.

Sim, é uma grande coincidência! Esse texto é, de facto, uma boa lembrança, essa relação que nem eu mesma tinha feito até agora. É um texto que escrevi numa ocasião anterior, depois de ter assistido a este filme [“Madalena”] e de ter sido convidada a escrever sobre ele. O filme do Madiano, tem um momento muito bonito de integração entre três corpos trans, e esse núcleo, esse momento específico, parece-me uma possibilidade, no cinema, de contar narrativas que não partam da dor e do sofrimento.

No caso de “Morte e Vida Madalena”, a transgeneridade não é uma questão, porque a minha personagem nem sequer é trans. É uma personagem cisgénera, uma mulher cisgénera, e eu sou uma atriz travesti, uma atriz trans, a interpretar uma mulher cisgénera. O que acho mais bonito neste filme, na escolha do elenco, é que, quando o Guto [Parente], a Ticiana [Augusto Lima] e a produtora pensaram na minha escolha, não pensaram na relação com a minha transgeneridade, convidaram-me porque sou actriz. Poderia ser qualquer actriz, mas escolheram-me por acreditarem no meu trabalho, por conhecerem o meu percurso, os meus 16 anos de profissão, uma trajectória com repertório, com técnica.

Natália Mazarim em “Madalena” (Madiano Marcheti, 2021)

Então, a escolha não vem por causa do meu género, vem pela minha profissão e pelo meu percurso. A personagem não foi escrita para mim, foi escrita para uma mulher e poderia ser eu ou qualquer outra. Acho isso muito bonito e penso que precisa de acontecer cada vez mais nas escolhas de elenco: termos também a possibilidade de sermos vistas como actrizes, como qualquer outra actriz, e de sermos escolhidas para papéis como este.

Sou, portanto, muito feliz por ter sido escolhida para este papel, porque fui escolhida pela minha profissão e não pelo meu género.

Certo, mas pergunto um pouco por aí. É verdade que isso não tem nada a ver com género, mas o facto de ser uma actriz trans e interpretar uma mulher cisgénera, ainda por cima grávida, não constitui também uma espécie de manifesto contra a heteronormatividade dos papéis no cinema? Como fala, por exemplo, destas pessoas trans assumirem papéis que foram sempre atribuídos a pessoas cisgéneras?

Sim. Acho que, a partir do momento em que se coloca este corpo a interpretar esse papel, é impossível fugir ao debate, porque, durante muito tempo, pessoas cisgéneras interpretaram personagens trans e, até hoje, essa prática continua. O que pedimos sempre, enquanto manifesto, é que, pelo menos, as personagens trans sejam interpretadas por actores e actrizes trans. Isto resulta de uma reivindicação do mercado, não de uma questão filosófica ou discursiva sobre a poética, sobre aquilo que o actor pode ou não pode fazer. É uma questão de mercado, de proporcionalidade, de não termos tido sequer oportunidade de interpretar personagens trans.

A partir do momento em que interpreto esta personagem, existe o perigo de se estabelecer uma falsa simetria, segundo a qual todos os actores podem interpretar todos os papéis. Nós não estamos no mesmo lugar, nem no mesmo patamar dentro do mercado. Ainda é necessário realizar muitas práticas como esta para, um dia, começarmos a falar de uma igualdade que não existe. Se ainda temos pessoas trans a interpretar apenas personagens trans, precisamos de entender este filme e esta escolha como uma excepção, e não como uma regra. O que aconteceu aqui, uma actriz trans interpretar uma personagem cis, é uma raridade. Não é uma prática comum, infelizmente, embora eu ache que deveria ser. É aquilo a que tenho chamado cisfake, uma resposta ao transfake. É uma forma de responder a isso.

Portanto, sim, esse debate instaura-se, mas vai para além do filme, porque o filme, em si, não toca nessa questão. Naturaliza a situação. Em nenhum momento procura colocar a questão do género na poética do filme. Fora dele, esse debate existe e precisa de ser feito de uma forma que permita às pessoas compreenderem que isto é possível e politicamente importante. Precisamos de poder assumir estes papéis e de fazer perceber que, durante muito tempo, pessoas cisgéneras interpretaram personagens trans sem nunca serem questionadas sobre a verosimilhança da caracterização ou sobre a forma como a interpretação correspondia à realidade. Em nenhum momento essa verosimilhança foi posta em causa.

A partir do momento em que interpreto este papel, também recebo uma série de desconfianças: se estou a convencer como mulher cisgénera, se estou a ser suficientemente verosímil. Essa nunca foi uma preocupação do filme. O filme também nunca quis esconder que sou uma actriz trans a interpretar uma mulher cisgénera grávida. Isso não é uma condição para o filme alcançar o realismo a esse nível. Lógico, existe toda uma caracterização, existe um trabalho muito bom da direção de arte, da direção e do figurino. Mas o que quero dizer é que esta cobrança, quando acontece no sentido inverso, surge num lugar que não lhe pertence, porque a história do cinema, o público e a crítica nunca se preocuparam com isso quando um actor cisgénero interpretava uma personagem trans.

É uma prática que precisa de ser muito discutida e debatida, mas também é muito importante politicamente e precisa de acontecer cada vez mais. Eu acredito nisso.

Já me falou que você e o Guto são amigos há alguns anos, aliás, recordo que teve uma interpretação secundária em “Estranho Caminho” (2023). Contudo, gostaria que me falasse sobre este papel e sobre o trabalho de construção da personagem. Antes de começarmos a avançar no filme, houve algumas indicações sobre quem seria a Madalena enquanto produtora. Baseou-se nisso para a construção da personagem? Tendo em conta que foi produtora executiva durante algum tempo.

Sim. Quando recebi este papel, foi, primeiro, muito importante entender que aquilo que baseia a construção da personagem é, antes de mais, a profissão dela. Compreender a profissão, os seus detalhes e os aspectos que a constituem era muito importante. Tinha esse repertório porque já trabalhei como produtora executiva e também conheço muitas produtoras executivas. Por fazer filmes e viver o processo de cinema, por ser uma cineasta e estar imersa nos sets, conheço essa dinâmica, sei como funciona, o que implica esta profissão e qual é a sua importância. Portanto, o estudo da profissão, do trabalho desta personagem, era muito importante.

Morte e Vida Madalena (Guto Parente, 2025)

Depois disso, era necessário compreender a singularidade do arco dramático da Madalena. É uma personagem que vive um luto durante o filme inteiro e, ao mesmo tempo, uma gestação. Enquanto perde um ente querido e precisa de fazer este filme para atravessar esse luto, também está a gerar uma vida. Existe, então, um processo de transformação do luto em pulsão de vida. O filme faz esse movimento também através da protagonista. É igualmente o arco do próprio argumento.

Tudo isto vai sendo mostrado em conjunto com as dificuldades de fazer cinema independente no Brasil, sem romantizar aquilo que envolve essa realidade e sem transformar o cinema nesse lugar idealizado da sétima arte, onde se faz um filme a qualquer custo. A obra não romantiza essas dificuldades, mas também não lhes confere um peso excessivo. Existe uma vontade de homenagear este cinema, de trazer o afecto das relações, a forma como se constrói uma família dentro de um set, com todas as dificuldades, diferenças e conflitos, mas também com amor e uma vontade de compreensão.

Portanto, penso que o filme traz uma dimensão positiva das relações humanas, e é muito bonito vermos isso acontecer. É uma obra que toca, e a Madalena vive esse percurso durante todo o filme, atravessando o luto. Primeiro, foi importante compreender a profissão, para depois entender a singularidade da personagem. Sobre a gestação, foi a mesma coisa. Era importante perceber que ela estava grávida, mas não queria representar uma gestação genérica. Era necessário compreender como esta personagem viveria a gravidez dentro da situação em que se encontrava.

A Madalena é muito objetiva. Está a viver um momento em que precisa de terminar um filme, então, a gestação acontece no meio disso. Há um momento no filme em que ela diz: “Eu negociei com o meu filho para ele nascer só depois de o filme acabar.” É assim que ela resolve a situação.

Por mais que exista amor e afecto por aquele “serzinho” que está a ser gerado, essa também é a forma como a personagem, a partir da sua singularidade, resolve as questões da própria vida. Era importante compreender a gestação da Madalena e a sua maternidade. Esse também foi um trabalho de construção, para perceber a singularidade da personagem.

Já que falou sobre a romantização do cinema, ou, neste caso, sobre a sua desromantização, também acredito, e gosto bastante, em filmes sobre bastidores de rodagem que mostram um autêntico caos. Porque percebemos que, através desse caos, podem nascer coisas bonitas, e o próprio filme é o resultado disso.

Aqui existem duas linhas paralelas: o caos da rodagem, do qual pode nascer um filme, e a gestação, que se torna caótica ao longo da produção e vai dar origem a um novo ser. Nunca sabemos se o filme será um sucesso ou não, mas sabemos que uma obra nasceu daquela entropia, ou seja, a gestação e a produção têm algo de mais umbilical do que aquilo que parece à partida.

Exacto. Digo sempre que o parto da Madalena também é o parto do filme. Existe essa metáfora na obra…

Obviamente, ela está a viver um parto na narrativa, há uma criança a ser gerada, o final concentra-se numa imagem muito simbólica que estabelece uma relação directa entre a gestação e o próprio nascimento do filme. É como se o bebé também estivesse, de alguma forma, a celebrar o filme que acaba de nascer. O processo do filme, o seu arco, também corresponde à sua gestação. Fazer um filme… Existe essa metáfora, que é uma interpretação minha, mas também partilhada por toda a equipa. O processo de fazer um filme também é um parto.

E um parto, uma gestação, não é algo tranquilo. Envolve todo um processo de transformação corporal e desconforto, mas também pode ser muito bonito. Existe a possibilidade de a criação gerar algo a partir da transformação de sensações dolorosas, difíceis. Acredito que a criação artística, as obras de arte e a possibilidade de criar a partir desses lugares mais difíceis são aquilo que nos move. Acho que o filme traz também essa metáfora do cinema enquanto possibilidade de criação.

Lógico, sem se ausentar dos debates que precisam de ser feitos, sem passar um pano sobre essas questões, temos a personagem do Oswaldo (Tavinho Teixeira), que adopta posturas muito complicadas, e isso é colocado no filme justamente para questionar quais são os limites da criação. Existem limites éticos que não podem ser ultrapassados.

Morte e Vida Madalena (Guto Parente, 2025)

O filme coloca essa questão de uma forma muito importante. Existe também uma discussão actual no cinema que é fundamental fazer. Durante muito tempo, filmes foram realizados através de metodologias que ultrapassavam vários limites éticos. Temos, mais uma vez, nessa figura de Oswaldo, um pouco esse debate sobre quais os limites éticos que já não podemos ultrapassar para fazer um filme. Entendemos que um set pode ser caótico, mas que cuidados precisamos de ter para salvaguardar também a saúde mental das pessoas envolvidas? Como fazemos redução de danos?

Existe igualmente esse debate, que o filme não tem medo de travar, nem de abordar, e considero esse um aspecto muito interessante da obra. 

Há uma coisa também bastante interessante sobre o caos da rodagem deste filme: praticamente diz-se que um set precisa da sua hierarquia, ou seja, neste caso, de um realizador para controlar tudo o resto e evitar que se transforme numa espécie de, vou fazer uma referência talvez um pouco orwelliana, balbúrdia [“Animal Farm”] por assim dizer. 

É muito curioso este filme apontar para essa ideia, porque há muitos filmes… Aliás, temos aqui um recente caso português, “Duas Vezes João Liberada”, da Paula Tomás Marques, que defende precisamente o contrário: os sets têm de ser quase uma utopia para funcionar, ou nos mínimos uma hierarquia horizontal. Este filme parece falar de outra maneira, como se a utopia não funcionasse e fosse necessário regressar a uma hierarquia de natureza vertical. Não sei se é apenas um interpretação minha, mas senti que o filme suscita essa questão. A personagem da Madalena intervém e, de repente, existe uma espécie de harmonia no set

Sim. Eu, Noá, acredito que é possível, e tento sempre, nos meus filmes, construir uma outra forma de organização das relações. Procuro desconstruir essas relações industriais de trabalho. Em “Morte e Vida Madalena” traz, de facto, esse set mais convencional, embora, ao mesmo tempo, ele falhe. Porque, se a figura do realizador desaparece, como se faz para ter um filme? O que acontece ali? O filme continua de alguma maneira. Ela tenta substituir o realizador por outro, o que não resulta, e acaba por ter de dirigir o filme em determinado momento.

Acho, então, que existe também um certo debate sobre aquilo de que um set precisa para funcionar. No filme, ele funciona de uma forma hierárquica, mas essa hierarquia é apresentada como frágil, como um modelo que não garante necessariamente o funcionamento de um set. Porque quem sustenta o filme quando o realizador foge não é o realizador, é a produtora executiva, que, na maioria das vezes, exerce uma profissão invisível, mas é quem está por trás de toda a sustentação de um filme.

Muitas vezes, na maioria dos casos, são mulheres a produzir homens cisgéneros brancos. São profissões invisíveis, e, se a produtora executiva falhar, acabou o filme. O realizador pode fugir, e acho muito interessante o filme abordar essa possibilidade de a obra existir sem o realizador. E o filme acontece.

Sim, é uma obra que trabalha com essa hierarquia de um set, mas o coloca como um dispositivo falível. Essa é, contudo, a minha interpretação.

Falando um pouco sobre a questão da produção independente, como bem referiu, o interessante é que este filme nasce de uma produção independente e aborda as resistências e dificuldades enfrentadas pelo cinema independente brasileiro.

Fora do Brasil, ficamos com a sensação de que a produção independente brasileira floresce em todos os campos, porque vemos muitas obras independentes brasileiras a chegar aos festivais … mais aos festivais do que às salas comerciais é verdade … este filme chega aos cinemas portugueses porque existe uma co-produção portuguesa. Mas, sobre essa resistência, gostaria que me falasse mais sobre ela e sobre a forma como o filme transmite essa grande dificuldade, especialmente na realidade brasileira.

O cinema independente brasileiro teve, de facto, um crescimento muito recente, principalmente o cinema nordestino, que sempre resistiu muito. Podemos considerar este um filme fora do eixo. Quando falamos em “fora do eixo”, referimo-nos a um filme feito fora do eixo Rio-São Paulo, que foi sempre dominante na indústria cinematográfica brasileira. Depois de muita luta pela redistribuição de recursos e por incentivos públicos, conseguimos, historicamente, mais financiamento para outras regiões do Brasil. É uma luta constante, através de políticas regionais e dos próprios concursos públicos.

Morte e Vida Madalena (Guto Parente, 2025)

Então, esse florescimento resulta de uma luta pela descentralização dos recursos, sobretudo dos incentivos públicos, para permitir que outras regiões do Brasil também possam fazer cinema. São regiões que sempre fizeram filmes, mas de uma forma muito guerrilheira, muitas vezes sem dinheiro. Não é que não existisse cinema, mas era uma produção sem os recursos de que São Paulo e o Rio sempre dispuseram. Temos também este boom internacional do cinema brasileiro, com as nomeações para prémios hegemónicos, como os Globos de Ouro e os Óscares, que também impulsionaram as carreiras internacionais destes filmes. Claro, que tivemos o sucesso internacional de “Ainda Estou Aqui” e, agora, “O Agente Secreto”, que também é um filme nordestino, realizado no Recife, trazendo atenção para o cinema produzido no Nordeste.

Só que essa realidade continua a ser a de pouquíssimos cineastas no Brasil, da mesma forma que, internacionalmente, o Brasil é visto como um cinema em florescimento, dentro do próprio país continuamos a ter dificuldades de acesso, sobretudo para cineastas dissidentes. Cineastas negros, trans, PCD e indígenas continuam a enfrentar dificuldades para conseguir realizar os seus filmes.

Esse é o panorama. Acho que existe, sim, um crescimento, sobretudo de um cinema político. Depois de um governo fascista, esse cinema volta a acontecer, o que é muito importante politicamente. Quando conseguimos vencer o fascismo nas urnas, ter novamente um governo de esquerda e voltar a acreditar na importância do cinema enquanto espaço de expressão política, temos dois filmes extremamente políticos: um fala sobre a ditadura, outro sobre o apagamento da história. É muito importante este momento, mas também trazer para a discussão o facto de o acesso continuar a ser difícil para outros grupos. É complexo, porque, ao mesmo tempo que celebramos, continuamos a lutar.

Já agora gostava apenas de terminar falando sobre novos projetos. Sei que a Noá também é realizadora de algumas curtas-metragens. Está a pensar fazer uma longa-metragem ou vai continuar a desenvolver novos projectos?

No ano passado, realizei a minha primeira longa-metragem, chamada “Iguaraguá”, em co-realização com o Izzy Vitório, outro cineasta trans. O filme está em pós-produção e estamos agora a tentar captar mais recursos para o finalizar.

Como actriz, ainda não recebi, infelizmente, outros convites para participar em filmes. Tenho muita vontade de voltar a fazer cinema, mas ainda não aconteceu. Neste momento, estou muito dedicada ao teatro, porque também trabalho nessa área. Tenho avançado com alguns projectos autorais no teatro e, ao mesmo tempo, desenvolvido novos projectos de longas e curtas-metragens, através de concursos e em desenvolvimento de argumento.

É aí que estou a investir. Além disso, também sou professora e investigadora, mas, dentro do meu trabalho artístico enquanto autora, tenho apostado em continuar a fazer cinema, procurando financiamento e orçamentos dignos para as minhas produções. Como actriz, infelizmente, está um pouco parado. Continuamos a acreditar que, depois de este trabalho chegar aos cinemas, possam surgir alguns convites. Por enquanto, ainda não aconteceu. Vamos continuar a torcer.

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