“Porque não fazer um filme sobre plantas?”, terá sugerido o produtor Karl Baumgartner (1949-2014) à realizadora Ildikó Enyedi, certo dia. E o resultado, talvez mais próximo dessa ideia atirada ao ar, é este “Silent Friend”, um objecto atravessado pelos ecos do COVID-19, por um tempo de estagnação capaz de estabelecer um paralelo com a suposta imobilidade botânica. Mas, afinal, as plantas são mais dinamizadas do que pensamos, e numa espécie de mimosa reside o exemplo, como aquela que Léa Seydoux, assumindo uma TED Talk, refere, explicando como os movimentos bruscos em reacção ao toque humano lhe valeram o título de “planta inteligente”. Contudo, as plantas detêm sabedoria, memória e, sobretudo, compaixão, a tese afiambrada neste registo de três narrativas em três tempos distintos, tendo apenas o local, um jardim botânico num campus universitário, e uma árvore ginkgo como conectores desta trindade episódica.
A realizadora húngara provém cada tomo narrativo de uma estética própria: a longinquidade do início do século XX, em preto e branco, que depressa dialoga com o estado da fotografia, inserida epifanicamente no enredo (inspirada no trabalho real do fotógrafo Karl Blossfeldt); depois, o grão quase peliculado dos 16 mm nos anos 70, criando os fios de amizade entre um humano e a sua flor, com um amor de Verão à mistura para “atrapalhar”; por fim, a narrativa-cobertor, ou melhor, o laço, com Tony Leung, actor esse de quem nunca nos conseguimos desligar de Wong Kar-wai, interpretando um académico de neurologia que, durante o seu lockdown no dito campus, testa uma nova abordagem às plantas, espremendo delas uma ideia de consciência.
No fundo, é isto: um filme capaz de criar um senso harmónico e confortável através da fotossíntese, mesmo quando os episódios desvendam conflitos narrativos, estes depressa se dissipam em prol de uma tese geral, unindo as épocas retratadas num só bolo. Convém referir que é como sentar num banco de jardim e contemplar as árvores, um movimento transgressivo perante a aceleração da nossa contemporaneidade, quase adquirindo uma certa dimensão performativa. Mas o filme desliga-se dessa crónica mundana e humana, tornando-se um incentivador, seja pelo som, portador de uma sensorialidade afastada dos rumos da espectacularidade, seja por nos endereçar um cinema sereno com o estado comatoso.
Ildikó Enyedi cita o tão afamado, e ao mesmo tempo mercantilizado, termo “slow cinema”, obrigando-nos a abandonar as nossas expectativas perante o convencional storytelling, propondo-nos observar, apenas isso, sem sermos passivos ou espectadores-activos. Contudo, a experiência é isso mesmo, a experiência, e acabamos nós por ser as cobaias, como a personagem de Leung, inicialmente envolvida em experiências com bebés (dito desta maneira parece grotesco, mas não), que, numa conferência com os seus alunos, exemplifica dois tipos de consciência: a do holofote, concentrada num só ponto, e a “consciência-lanterna”, movendo-se através dos diferentes estímulos. E o espectador de “Silent Friend”, afinal, o que se revela: concentrado ou constantemente estimulado pelo filme?

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