“No One Will Hear You Scream”, grita-se nos corredores frios do hospício, uma silhueta assombrosa adverte todos os “hóspedes”: o caos aproxima-se, ninguém ouvirá os seus gritos, será tarde demais. Curiosamente, minutos antes, Walter Hill era degolado, o realizador de “The Warriors” e “48 Hrs.” surgia aos nossos olhos antes de virar potencial candidato a dirigir um certo whodunit espacial, hoje sequestrado pela compulsão de franchisar: “Alien”, cuja tagline já anunciava o destino — “In space, no one will hear you scream”. Coincidência ou não, voltemos à acção, ou melhor, a “Messiah of Evil” (lançado em 1974), filme cujo enredo dificilmente se descreve em mais de duas linhas: “uma jovem procura o pai, um artista desaparecido numa cidade costeira, enquanto acontecimentos estranhos se sucedem”, mas a obra vive muito para lá dessa sinopse. É um objecto atmosférico, quase hipnótico, cuja narrativa rarefeita transforma a experiência num pesadelo febril.
As constantes narrações em modo diário deixadas pelo pai desaparecido alimentam um medo profundo do desconhecido, numa lógica marcadamente lovecraftiana, sendo que a costa fictícia de Point Dune convoca ambiências de “The Shadow over Innsmouth” (até o embriagado conhecedor da verdade temos), um dos mais famosos trabalhos do escritor-adjectivo, só que, ao invés de híbridos marinhos, encontramos mortos ambulantes com lágrimas de sangue a escorrer-lhes pelo rosto. Ainda assim, tal como na obra de H. P. Lovecraft, permanece a espera messiânica de “algo” vindo das profundezas oceânicas. Aqui, o “Dark Stranger” surge como promessa de salvação para um mundo moralmente em ruínas, e conectando a histeria satânica em voga nesta contemporaneidade, em substituição da carnalidade dos seres antes da configuração do tempo.
Mariana Hill (actriz que contracenou com Clint Eastwood em “High Plains Drifter” e integrou a família Corleone no segundo tomo do épico mafioso de Coppola) deambula por esta cidade-fantasma à procura de respostas: para a ausência do pai, para os desaparecimentos sucessivos, para o mistério da lacrimação sanguinária, “Messiah of Evil” apoia-se nessa errância. É um slow horror movie na denominação mercantilista, resolvendo-se no medo do desconhecido, das cores emprestadas e impregnadas de um expressivo giallo (estética que a passo e passo consagrasse do outro lado do oceano graças aos seus nomes cimeiros), e estabelecendo pontos de contacto com movimentos correntes, nomeadamente a Nova Hollywood e em paralelismo com as desinvestidas narrativas à lá Antonioni (acredita-se que isso também seja fruto de ser um filme de natureza incompleta em ’71, cujo material cru foi comprado posteriormente, editado e transformado na obra que nos é presenteada).

É uma mescla de cores, de sequências avulsas, operando num enredo que nunca se compromete verdadeiramente com a coerência. Há cenas de escárnio (no supermercado, troça-se do consumismo esfriado, elementos propícios para Romero em “Dawn of the Dead”), outras em que o cinema (a sala propriamente dita, refúgio dos solitários e dos corações partidos) se converte num linchamento saído dos infernos (será que “Dèmoni” de Lamberto Bava bebeu ‘gotas’ daqui?).
Por outras palavras, é na sua imagética que “Messiah of Evil” encontra a razão do seu assombro, ou melhor, do seu poder de mesmerizar. Pouco importa a lógica dos acontecimentos quando as imagens persistem nesse pesadelo e sensações. Gritos mudos, afinal, são os que ecoam durante mais tempo.
“We sit in the sun and wait. We sleep. And we dream. Each of us is dying slowly in the prison of our minds.”

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