“All right now, for all you boppers out there in the big city, all you street people with an ear for the action, I’ve been asked to relay a request from the Grammercy Riffs. It’s a special for the Warriors, that real live bunch from Coney, and I do mean the Warriors. Here’s a hit with them in mind.”
Na altura desprezado, e até temido, “The Warriors” tornou-se, ao longo de quase cinco décadas, um objecto de culto. Encerrando uma trilogia informal marcada pela violência urbana de Walter Hill (“Hard Times”, “The Driver”), o filme projecta uma Nova Iorque paralela, dominada por gangues que assumem contornos tribais.
Desde a sequência inicial, uma travessia de metro com os créditos embutidos intercalado por um ajuntamento coreografado das diferentes facções, cada um deles introduzindo e fortalecendo a mitologia do seu líder, Cyrus (Roger Hill), que fora capaz de convocar os representantes dos múltiplos grupos. É de notar que cada gangue exibe os seus códigos: fardas, gestos, nomes que parecem evocar equipas rugby. São gladiadores de um tempo degradado, corpos marginalizados e frequentemente reduzidos a estereótipos étnicos, encarados pela restante cidade como excedentes sociais … resíduos humanos descartáveis (é isso!).
A reunião culmina em uma massa humana impressionante proveniente de mais de uma centena de gangues. Cyrus assume-se como uma espécie de líder de político evangelizado, um mentor de culto e por um lado um Martin Luther King Jr. contrafeito (deixa de Pedro Mexia, não nossa, mas fazendo todo o sentido esse paralelismo), proclamando o seu “sonho” utópico (ou melhor, distópico) de unidade assente na força colectiva (“Can you dig it?”), constatando na apropriação de recursos da cidade e insurreição às autoridades (“You’re standing right now with nine delegates from 100 gangs. And there’s over a hundred more. That’s 20,000 hardcore members. Forty-thousand, counting affiliates, and twenty-thousand more, not organized, but ready to fight: 60,000 soldiers! Now, there ain’t but 20,000 police in the whole town.”). No entanto, tal como o seu referente histórico apontado por Mexia, é assassinado perante a multidão. A culpa, que raramente “morre solteira”, recai sobre os ‘Warriors’, grupo identificáveis pelas suas jaquetas de inspiração quase indígena, que passam a ser caçados por todas as restantes facções.

Constantemente instigados por mensagens de uma rádio pirata, mediadas pela voz enigmática de uma radialista que proclama ameaça e sedução no mesmo tom reconfortante (os lábio carnudos e carmins são o único sinal da sua presença), os gangues lançam-se numa perseguição nocturna. A partir daí, os Warriors tornam-se um único corpo em fuga, atravessando a cidade com o objectivo de regressar à sua origem, Coney Island (“This is what we fought all night to get back to?”).
Hill concebe, deste modo, um western transposto para o espaço urbano, uma selva de betão onde a violência assume simultaneamente a função de linguagem e de mecanismo de sobrevivência. “The Warriors” (inspirado num livro de Sol Yurick) afirma-se como um exercício físico, quase táctil, de tensão e desgaste: um retrato de uma comunidade fragmentada em castas, em micro-estruturas tribais, onde a agressividade se torna eixo identitário. Importa, no entanto, evitar uma leitura simplista que vitimize estas figuras. A ambiguidade moral é central: os Warriors estão longe de corresponder a um ideal heroico. As suas acções revelam impulsos primários, autoritarismo interno e uma relação problemática com o feminino, onde a violação, mesmo quando latente — se insinua como possibilidade concreta.
Neste contexto, o filme distancia-se das representações clássicas do gangster: aquelas figuras elegantes do cinema clássico hollywoodesco até às estruturas familiares densamente mitificadas nas adaptações de Mario Puzo por Francis Ford Coppola, Hill propõe antes uma banalização do vândalo: à lógica familiar e quais-institucional sucede a uma pertença tribal e identitária, onde a devoção colectiva substitui os laços tradicionais.
Anos mais tarde, em 1985, Martin Scorsese exploraria também a deriva nocturna na cidade em “After Hours”, o que seria um dos definidores da subcategoria da malapata, acompanhando um Griffin Dunne perdido num percurso errático e surreal. Ainda que não haja uma relação directa assumida, é tentador estabelecer um paralelo: a viagem urbana como experiência de desorientação e confronto, onde a cidade se transforma num espaço simultaneamente hostil. Gosto de pensar que, mesmo de forma inconsciente, Scorsese terá captado algo do pulso de “The Warriors”, esse movimento contínuo, quase febril, de sobrevivência numa noite que parece não ter fim, e a violência, fora de anomalias no “paraíso”, o carácter desse mesmo “paraíso”, aquela degradação a quem estes fugitivos mascarados apelidam de “casa”.


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