Previsivelmente, temos o hábito de olhar para um filme como “Nosso Segredo” enquanto uma espécie de alegoria à sua própria origem: uma coprodução luso-brasileira, embora seja o Brasil, de facto, a sua arquitectura-mestra, é também por aí que a actriz Grace Passô (“Levante”, “Temporada”) salta directamente para a realização (primeira longa’, sublinha-se, depois de uma curta e de uma média, “Vaga Carne”, co-dirigida por Ricardo Alves Jr.), convocando uma família negra para conviver com os seus segredos, repreensões e até opressões. No sótão, para lá dos limites permitidos pela habitação, algo permanece oculto, não falamos, não vemos, nem sequer ouvimos, é o ‘sanzaru’ criado através dessa obscuridade.

E talvez seja a casa, assumindo o protagonismo acima dos seus actores de carne e osso, a verdadeira criadora da metáfora de um país. Quanto ao segredo, esse permanece enfiado nos quarteirões de um plot twist mais enigmático do que resolvente, emprestando ainda mais à prosa do seu discurso crítico-político. Afinal, a tragédia, e Passô aprendeu com a melhor das lições, dá-se inteiramente no seio familiar, onde se conservam todos os elementos trágicos do mundo.

Para uma primeira obra, “Nosso Segredo” encerra nas suas paredes os pensamentos devidos sobre como começar e como pegar. A fotografia (conhecida colaborada de Passô, Wilssa Esser), mais do que um adereço, assume a importância de personificar todo aquele território doméstico, deixando para trás o ar ‘Airbnb’ do cinema comercialóide de Hollywood, com os seus arranjos e aforismos destinados a mercantilizar uma ideia de lar (aqui está para lá do meramente habitável, e sim do usado, degradado, mas conformado para com a própria ruína). Em “Nosso Segredo”, este ramalhete é sujo, húmido, lamacento, maléfico, assombrado … aliás, partindo dessa ideia de assombro, é quase como se estivéssemos perante uma casa amaldiçoada por fantasmas e outras entidades espectrais, será este um Brasil fantasmagórico, talvez? Um Brasil animalesco, onde a negritude tem de conviver com o seu animal-totem (ou o animal-metafórico), figura da sua própria repreensão, numa espécie de exportação de um exotismo feio e ignóbil longe do turístico e do viável ao olhar.

Portanto, percebe-se que “Nosso Segredo” reúne qualidades para a sua inauguração, enquanto tempera um objecto de interpretação e sensibilidades com o nosso próprio estado. É como se fosse um conto infanto-juvenil apanhado numa curva e entranhado nas estâncias deste casarão, a lidar com o seu luto, o trauma e a passividade do seu constante lamento. É nos nossos sótãos que os segredos ruminam como ninguém… Espreitar é colocar a nossa conta em risco.

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