A hercúlea travessia do Atlântico Sul, em 1922, levada a cabo pelo piloto Sacadura Cabral e pelo navegador Gago Coutinho, feito que ostentamos como medalhão na nossa História recente, chega-nos agora em formato de filme, depois de ter sido uma série televisiva, com todos os feitos e costuras de uma RTP demasiado pedagógica. E é precisamente nesse recorte e remontagem, nesse exercício de condensação para caber nos 90 minutos de duração, que chegamos a um dilema que nos acompanha e que, em boa parte, atravessa o cinema português: quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Nestes critérios, será que a série estava destinada a ser um filme ou terá o filme nascido da ideia génese de uma série?

Com que ficamos, Fernando Vendrell? O realizador de “Fintar o Destino” (1998) e “O Gotejar da Luz” (2002), que posteriormente se aventurou por alguns exercícios históricos e de personalidade da nossa montra patrimonial (“Aparição” e “Sombras Brancas”) ali a resguardar os tiques televisivos em conflito com aquilo que resta cinematograficamente, verga-se ao prestígio da sala escura em detrimento das limitações do pequeno ecrã e da RTP Play (leia-se o streaming como uma espécie de filho bastardo e obstinado do sector televisivo). Talvez seja mesmo isso: o homem do cinema que não consegue abandonar a grande tela, mesmo quando esta não se revê em “Além do Horizonte – A Travessia”.

Contudo, não basta aparecer, é preciso ser, e para tal precisamos de um filme no verdadeiro sentido cinematográfico, ao invés de uma desculpa para o circuito escolar, uma forma de aprender a nossa História por atalhos, com actores, mesmo os de calibre, reduzidos a personagens professorais (sempre preenchido por contextos ou informações adicionais, como um manual), debitando diálogos de exposição e didactismo. Tudo isto à boleia de uma narrativa desfigurada, esquemática nos seus golpes e feridas, povoada por figuras secundárias inúteis e desprovidas de gravitas para o enredo (o que raio está lá a fazer Júlia Palha?). Fica o feito, perdeu-se a dramaturgia. Foi uma travessia no deserto em vez de uma travessia pelo oceano.

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