Radu Jude vira trovador da contemporaneidade: não é de hoje, nem sequer de ontem, mas desde o seu início enquanto realizador, enquanto o Radu Jude que tão bem nos chega. Contudo, perante uma incansável vontade de afirmar, discursar e experimentar, é com “Dracula”, estacas e alho nas unhas, que deparamos com o próximo passo do romeno: declarar, na figura aproveitada por Bram Stoker, o tal “filho do dragão”, outrora empalador, um símbolo dos ditos novos fascismos, desses de exaltação nacional e de “passados gloriosos”, autoritarismos a cheirar a mofo e protegidos pelo privilégio de nascimento (conde, afinal, como tão bem o intitulamos), com a exploração de classes, e da criação da discórdia, a de um “inimigo comum” como raiz de todos os problemas.

Mas este “Dracula” não é uma releitura, é antes uma autópsia, (res)suscitando um outro elemento de aproximação, até aqui mais insinuado como tese, e que nestas desventuras pela Transilvânia assume o palco principal: a estética alicerçada a esses novos movimentos fascistas, neste tomo dedicada ao contemporâneo, aos (neos) que testemunham e dilaceram democracias, tornando-as pseudo-liberais ou, melhor dizendo, ‘pseudo-democracias’ (‘neodemocracias’, para nos encaixarmos na tendência dos neos?). O que se entende afinal no coração da criatura? Um jovem e ignorante realizador que proclama o desejo de executar filme fluxus (anti-estrutural, destruidor de movimentos e progressões artísticas) procurando em Bram Stoker a nova thing do universo vampírico. Não é Bela Lugosi, não é Francis Ford Coppola, nem Murnau ou Herzog (a lista dos citados à descarada), é AI … num caricato e anedótico algoritmo … fazendo slop e que ‘slopada’!

Reconheço, ao longo das 2h40 de duração, a imperatividade da inteligência artificial como mecanismo de produção e deformação do imaginário. O brejeiro, o repreensor, o grosseiro, a bestialidade e as imagens geradas em fartura, mergulhadas num inquientante uncanny valley, são oposições àquilo que Radu Jude estabelecia (mas que nunca negava, vejamos). O cada vez mais apontado como godardiano do leste recria um “filme feio”, despido da sua criatividade para afirmar um ponto: o esvaziamento da estética fascista perante a ausência qualitativa dos seus operadores artísticos.

Se o nazismo (por exemplo), cuja iconografia permanece amplamente reconhecível, não se constituiu exclusivamente através da acção de artistas individuais, mas mediante a articulação entre produção artística, propaganda, arquitectura, ritual político e organização colectiva da experiência visual (possível perante aliados artistas que trabalharam a matéria, calcificaram-na, moldaram-na como familiar, associativa, semiótica, ou melhor, transformaram a política e ideologia em espectacularidade). O que acontece hoje é que esse deserto artístico-cultural-criativo resulta, em muitas condições, num requisito fácil para a AI, incapaz, por sua vez, de reproduzir do zero uma estetização própria. Se este fascismo nos soa feio, bacoco e insultuosamente piroso, não será porque “homens e mulheres de relevância cultural abandonaram este espaço ideológico”?

Contudo, em “Dracula”, a piada não se faz sozinha, força-se. Radu Jude perde-se na duração e nessa estetização mimetizada para construir um filme assente no exercício do “e se”, como se fosse o próprio provedor dessa estética. Dracula, a personagem, é apenas uma desculpa. O resultado, porém, foi chover no molhado, sob o signo voluntário do “mau gosto”. Ou o espectador cede à provocação, ou cansa-se com a insinuação. Vergamos à matrioska ou a combatemos?

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