Primeiro estranha-se e continua-se a estranhar: “Begotten” parece-nos ter saído de outra dimensão, um filme de vísceras e saído delas, que reclama pela vida que a Humanidade lhes retira, mitos modernos fundidos na ebulição dos nossos tempos … e assim foi a primeira longa-metragem de Edmund Elias Merhige. Estreou-se num festival experimental de Montreal e noutro underground de Los Angeles, até que, por via do fascínio de Susan Sontag, foi levado à socapa para Nova Iorque para sessões privadas na casa da filósofa com a nata intelectual nova-iorquina da altura. O filme passou de mão em mão, ou melhor, de boca em boca, até que, por fim, o seu autor encontrou espaço na indústria hollywoodiana. Muitos conheceram-no com “The Shadow of the Vampire”, a ficcionalização da rodagem de “Nosferatu” (o de Murnau, por favor), e depois de um thriller com Aaron Eckhart e Ben Kingsley à cabeça [“Suspect Zero”], desaparece dos radares mediáticos.
Contudo, o fantasma de “Begotten” paira, provando como nunca fora esquecido. Hoje chega num novo formato, em 4K (e não só…), com estreia no Festival de Telluride e com promessas de uma (por fim) distribuição. Foi neste contexto que cheguei ao realizador, relembrando a experiência única daquela vez na pequenita sala da Cinemateca de Lisboa, com “Begotten” projectado em 35mm, intocável história de desintegração do mitológico, com Deus sacrificando e parindo a Terra, ela, por sua vez, traída pela sua própria criação.
Segue a conversa (via telefónica) com Merhige, com um oceano entre nós, mas um objecto inesquecível e inexplicável a unir-nos.
Recordo que vi “Begotten” pela primeira vez, na Cinemateca aqui em Lisboa, alguns anos atrás, e projectado em 35mm. Foi uma experiência muito marcante e estranha, admito, para mim. Com isto, gostaria que me respondesse exactamente o que distingue esta nova versão da anterior, tendo conhecido do “restauro” a 4K?
Bem, o que fiz foi um processo óptico utilizando camadas digitais. Separei a escala de cinzentos, os pretos e os brancos da imagem em quatro camadas distintas e depois compus tudo em 4K. É como se tivesse utilizado uma impressora óptica para criar este corpo fotográfico final do filme. E garanto … está muito bonito! Mal posso esperar que o vejas, porque o filme… Quando foi feito pela primeira vez, o formato 16mm nunca foi a forma final que deveria ter.
Havia ainda um processo fotográfico que nunca tinha conseguido fazer na altura, porque não tinha os recursos necessários. Passados 37 anos, posso finalmente dizer que o corpo fotográfico do filme está terminado, da maneira como deveria ser vista e apresentada. E o som também foi devidamente misturado em estéreo, o que é realmente muito bonito.
Por isso, quando voltares a experienciar o filme, vais sentir que estás imerso dentro de um mundo …
Vou vê-lo novamente nesta nova forma, porque a primeira vez que o vi foi, como dizia, uma experiência inesquecível. Vi-o na sala pequena da Cinemateca [Sala Luís Pina], o que auferiu ao filme uma certa de aura de “desenterrado”, uma gruta de imagens esquecidas …
Bem, a forma como o viste foi como olhar para um esboço, certo?
Se o Merhige diz …
E agora, quando to mostrar, será como finalmente veres a pintura com todos os seus acabamentos e pinceladas. Está completo!

Mas frisando, não é propriamente uma restauração apesar do anúncio em 4K. É mais como um novo filme, uma nova versão do filme?
Uma conclusão. Sim. O filme original foi o primeiro sopro, de acordo com a intenção original.
Por isso, não é… Isto sempre esteve destinado a acontecer. Não é algo novo. Não é uma ideia nova. Simplesmente consegui concretizá-la. Consegui alcançar os mesmos objectivos através da tecnologia digital 4K, mas trabalhando a partir do negativo original.
Voltando ao início de tudo, ao filme iniciado em ‘89. Numa entrevista sua recordo ter afirmado que, actualmente, muitos realizadores ignoram o poder da imagem como narrativa, ou as relegam para, não, segundo, mas terceiro plano. É curioso, porque, em “Begotten”, a narrativa surge inteiramente através das próprias imagens … e do obscuro que elas trazem.
Sim …
As imagens falam por si e cada pessoa pode dar-lhes a sua própria interpretação.
Percebo. “Begotten” é uma teologia sem doutrina. Ao invés de palavras, em vez de diálogos, tens imagens a contar uma história antiga, ou talvez não uma história antiga, uma fábula moderna quem sabe. Talvez seja uma história para os dias de hoje. Não quero dizer ao espectador o que deve ver ou aquilo em que deve pensar, sabes? Mas o que gostarias exactamente de saber?
Quero saber como surgiu a ideia para o filme, ou melhor, estas imagens, a sua origem. Sei que o processo de realização foi muito longo. Creio que o filmou, ou fotografou, em 16mm, e depois voltou a (re)fotografá-lo.
Certo. Depois dividi essa fotografia em quatro fotografias e juntei-as. Foi isso que acabei de fazer.
Mas, quanto à origem do filme, o que surgiu primeiro? A ideia, o conceito visual ou o próprio processo? O que veio primeiro?
Diria a ideia. Após isso fui à procura da imagem. Experimentei diferentes películas. Experimentei diferentes câmaras, diferentes objectivas. Finalmente, tive de construir a minha própria criação para fotografar aquilo que já tinha fotografado, de modo a criar a imagem final.
Gosto do uso da palavra “criação”, porque “Begotten” é tanto sobre a criação como sobre a destruição dessa mesma criação. Até digo mais parece um “filme parido”, com resto de placenta ainda grudado nele.
Sim, exactamente.
Creio que nas notas de imprensa desta nova versão refere Nietzsche como influência. O filme começa, evidentemente, com a morte de um Deus e o nascimento daquilo que creio ser o “Filho da Terra”. Para depois a própria humanidade o destruir. Como se fosse também um comentário transponível sobre aquilo que acontece ao mundo. A descrença na Terra e dos seus recursos naturais.
Sim. Penso que a visão original surgiu de uma fissura na unidade original da divindade ou da inteligência, seja lá o que lhe quiseres chamar. Essa fissura permitiu a Deus arrancar, de certa forma, todos os seus órgãos, todo o seu sangue. E essas mesmas vísceras transformaram-se na lama, nas criaturas, nos desertos, no mundo que vemos em “Begotten”. Portanto, a unidade estilhaça-se nesta multiplicidade e essa multiplicidade transforma-se nesta jornada da matéria a sofrer através da sua forma.
E quanto à sua interpretação, sei que não pretendeu com “Begotten” oferecer uma interpretação definitiva, deixando isso à mercê de cada espectador. Mas acredito que disse numa entrevista, creio, que encontra constantemente coisas novas neste filme em cada vez que o vês. Por isso, vou colocar a pergunta desta forma, embora seja bastante abstracta: onde é que termina o significado do filme enquanto pertença do realizador?
A relação que tenho com “Begotten” é que, apesar de ser o seu criador, continuo sem o compreender totalmente, porque estou sempre a retirar algo de novo do filme, uma camada mais profunda que não tinha visto antes.
Por isso, diria que foi uma obra verdadeiramente visionária, algo vindo de outra dimensão, de outra, sabes, frequência de existência, passou através de mim, e o meu corpo e o meu talento souberam o que fazer para encontrar a imagem e trazê-la para este mundo. E foi simplesmente isso que fiz. Fui o trabalhador, e ao mesmo tempo o arquitecto que construiu algo de outro mundo para este mundo, mas isso não me pertence. Não é uma invenção minha. Já existia.
Apenas limitei-me a recriar o corpo fotográfico daquilo a que chamamos o filme “Begotten”. Iria mais longe, diria até que sou mais um espectador do filme do que propriamente o seu criador, sabes? Quer dizer, posso ser as duas coisas. Fiz o filme, mas também… sinto sempre, quando o revejo, que estou no sopé da montanha e que o cume está lá em cima, onde tudo pode ser visto. É aí que o filme está, mas nunca chego verdadeiramente lá.
Consigo imaginar como seria estar lá, no cume, no topo. Só que nunca estou realmente lá. Estou quase lá. Não sei se isto faz algum sentido o que estou a dizer?
Num sentido um pouco abstracto, sim, mas compreendo. É algo que vem das entranhas, e ao mesmo tempo, tens o propósito, a missão, de completar este filme.
Exacto!
Ou seja, ouviu o chamamento. Foi o filme que o chamou e não o contrário.
Sim, exactamente. De alguma forma, sei aquilo de que o filme precisa para viver neste mundo. Sou o seu guardião. Estou aqui para garantir que está saudável e que se exprime plenamente, tanto nos domínios sonoros como nos visuais.

Noutro sentido, é evidente que quero tocar neste tema, porque este filme adquiriu culto ao longo dos anos graças ao elogio de Susan Sontag e ao seu empenho em fazer com que o filme circulasse. E creio que lhe prestou uma homenagem com uma curta chamada “Din of Celestial Birds” (2006).
Absolutamente. Ela foi a primeira. Viu o filme porque Tom Luddy e Peter Scarlet lho mostraram em São Francisco. Clamou-lhes que era uma obra-prima. De seguida, telefonou-me e perguntou-me se podia mostrar o filme em 16mm, na sala de estar dela, aos seus amigos. Essa foi a primeira projecção pública de “Begotten” em Nova Iorque [risos].
… depois foi o “passa-palavra”.
Sim, mas o filme foi passando de mão em mão. Chris Marker, Werner Herzog, Francis Ford Coppola, August Coppola, que era irmão de Francis e compositor … quer dizer, estas pessoas apoiaram verdadeiramente o filme. Foi assim que o filme chegou ao mundo. Não foi por minha causa.
O filme encontrou o seu próprio caminho, passando de mão em mão, até chegar a alguém como tu. Alguém interessado que me está a telefonar do outro lado do oceano para falar comigo sobre um filme de ‘89. Isso porque te importas com ele e tens vontade de falar sobre “Begotten”, não apenas comigo, mas com outras pessoas. Foi assim que o filme sobreviveu.
Sabes, e agora, pela primeira vez, tem um distribuidor para salas de cinema, a Kino Lorber, nos Estados Unidos. E de que país estás a ligar?
Portugal.
Por isso, espero que encontremos um distribuidor em Portugal, para que também possas apresentar o filme aí. Mas agora está vivo, sabes? É como se tivesse estado a dormir e a circular secretamente, como um aperto de mão secreto que passava de pessoa para pessoa, de mim para ti e de ti para mim. Pela primeira vez podemos mostrá-lo numa sala de cinema, em grande escala, num grande ecrã, e ele tem um impacto profundamente transformador no espectador.
Já o vi acontecer. Tive três projecções: uma em Telluride, outra em Los Angeles e outra ontem à noite [01 de Outubro], e posso dizer-te que o filme já não está, sabes, como que incapacitado. Agora está completamente saudável, completamente vivo … e consegues ver isso no rosto das pessoas que viram o filme no YouTube ou numa cópia pirata, em VHS ou DVD. E agora vêem-no pela primeira vez e…
Percebem, a um nível muito mais profundo, aquilo que o filme realmente é e a forma como as está a afectar nesse nível mais profundo.
Agora que o abordou, nunca tinha pensado nisso. É a primeira vez que o filme vai ser distribuído nos cinemas!?
Exactamente!
E foi graças a este filme, a todo o culto que se criou à sua volta, que entrou na indústria?
Digamos que sim! Na verdade, foi uma cópia pirata em VHS que Crispin Glover, o actor, deu a Nicolas Cage. E ele contou-me mais tarde que não conseguiu pensar noutra coisa durante três dias depois de ver aquela cópia pirata de “Begotten” em VHS. E foi então que criou uma produtora e começou a falar comigo sobre “The Shadow of the Vampire“ (2000).
O teu filme mais popular. Com Willem Dafoe como Max Schreck.
Sim, mas… Sabes, o Willem Dafoe entrevistou-me para o Telluride Film Watch, e revelou que adora “Begotten”. Viu-o muito cedo. Eu nem sabia disso, mas de acordo com o que disse, viu-o em 1990, numa sala de cinema. E depois viu o restauro. Adorou-a. Foi muito… Mas devias mesmo ler essa entrevista, porque acho que, especificamente, vais ter muito interesse nessa conversa também.
Obrigado pela recomendação. Voltando … passaste de “The Shadow of the Vampire“, que te valeu duas nomeações para os Óscares, para o thriller “Suspect Zero”. E depois dedicaste a curtas-metragens e a videoclipes, mas nada mais no formato de longa. Ficaste desinteressado pela indústria ou foi a indústria que perdeu o interesse em si?
Penso que existe um profundo respeito por mim por parte da indústria, mas não sabem como me utilizar, se isso fizer algum sentido. Sinto que as ideias que quero expressar precisam de pessoas muito específicas para trabalhar comigo. Por isso, neste momento, estou a reunir um grupo de pessoas muito interessante para o meu próximo filme.
Sabes, estou a trabalhar com a indústria, mas estou a fazê-lo de uma maneira muito particular. E é estranho, porque as pessoas que me admiram e as pessoas que admiro, como Nicolas Cage, Crispin Glover e Tom Cruise… É estranho quando pessoas que parecem estar do lado oposto da indústria, na verdade, gostam de ti.

Essa tem sido a minha experiência: existem pessoas que sentem realmente que aquilo que estou a fazer é importante e que querem apoiá-lo. Mas, sabes, estou a trabalhar em alguns argumentos e tenho algumas ideias interessantes. Não sei, talvez uma dessas ideias se encaixe numa indústria mais tradicional, embora não seja uma história tradicional. É uma história muito estranha, mas muito fantástica.
Consigo imaginar uma estrela de cinema a querer fazer parte dela. E, infelizmente, é assim que a nossa indústria funciona. É assim que Hollywood funciona: financias um filme com base em quem participa nele, e não com base na ideia ou na história.
Para mim, isso é muito estranho, porque quando olhas para a Nouvelle Vague francesa, para os neo-realistas italianos e para os grandes filmes que surgiram de realizadores como Tarkovsky, Parajanov e outros… Eram filmes conduzidos pelos realizadores, pelas suas visões. Não eram conduzidos pelos actores que neles participavam. Não pensas nos actores de “Stalker”, por exemplo, ou de “Andrei Rublev”. Pensas no filme e na beleza brilhante do seu conjunto, não apenas na estrela de cinema, não apenas nessas coisas.
Por isso, não sei. Há algo de muito belo em simplesmente querermos contar uma história e depois sairmos e contá-la. Vi recentemente o meu primeiro filme antes de “Begotten”, um filme de guerra de 48 minutos chamado “Implosion” (1983). Vi-o pela primeira vez desde que tinha 18 anos, há cerca de três semanas atrás. Inicialmente, tinha medo de o ver, porque pensei que ia ser uma porcaria completa. Honestamente, não é perfeito, mas é bonito. É tão original e tão… feroz. A linguagem visual que está a construir é realmente, penso eu, muito estimulante.
Por isso, fiquei feliz por o rever. Percebi que, desde muito jovem, desde a adolescência, já estava a trabalhar a um nível muito elevado na construção de linguagens visuais para o cinema.
Talvez esta seja a última pergunta. Recordo de ter dito novamente em outra entrevista, que viu o “The Seventh Seal”, de Bergman, muito jovem e que desde então nunca o esqueceu. Talvez consiga encontrar algo muito próximo dessa influência em “Begotten”.
Mas deixa-me contar-te como vi “The Seventh Seal”.
Um amigo meu era um actor infantil brilhante. Era o meu melhor amigo e esteve três vezes na Broadway em grandes peças, um quando tinha nove anos, outro com onze e depois mais uma quando tinha catorze. Na altura, tinha exactamente essa idade, e ele disse-me: “Anda daí, vou levar-te e a ver este filme. Tens que o ver.”
E fomos até à 42nd Street. Nesse tempo era um lugar muito perigoso em Nova Iorque, mesmo durante o dia, vendia-se heroína e havia prostituição, não era um lugar para um miúdo de 14 anos. O meu amigo agarrou-me e entrámos no coração da rua. Levou-me a uma sala de cinema que tinha duas salas. Numa delas passava um filme pornográfico e na outra, um filme europeu de arte. E nesse dia o filme europeu era “The Seventh Seal”. Comprámos dois bilhetes e entrámos para o ver.
Recordo que havia uma parede muito fina a separar as duas salas. E eu conseguia ouvir aquilo que parecia ser gente a ser assassinada na outra sala, porque gritavam. Havia sons muito altos. E, para um miúdo de 14 anos, eu não fazia ideia do que estava a acontecer. Parecia que alguém estava a ser morto, mas era sexo vindo do porno da outra sala. Era aterrador. E, de repente, aquele filme a preto e branco aparece no ecrã e vemos Max von Sydow, como o cavaleiro medieval, sentado a jogar xadrez com a Morte, na costa do mar Báltico. Os primeiros dez minutos de “The Seventh Seal” são silenciosos, então imagina: estou a ver aquelas imagens belíssimas filmadas por Bergman, mas a banda sonora vem da sala ao lado, onde está a passar o filme pornográfico. Por isso, aquelas duas experiências contrastantes estão a acontecer simultaneamente na minha jovem mente adolescente.
Achei que era uma experiência absolutamente brilhante. Voltei a ver “The Seventh Seal” noutra sala, noutras circunstâncias é claro. Percebi que, quando olho para um grande Goya ou para Francis Bacon, há sempre sujidade e algo de aterrador e imundo colocado ao lado de algo belo. O sublime e o magnífico.
Isto interessa-me muito. É por isso que te conto toda esta história.

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