“If I’m reclaiming my history, why wouldn’t I be smiling?”. Bird Rowe (Alisha Wainwright, “Palmer”) posa em indumentárias de escrava do século XIX diante de uma plantação em vias de ser reabilitada para fins turísticos, parte de um plano algo perverso dos novos vizinhos da sua mãe (Christine Lahti, “…And Justice For All”), hippie narcisista e desequilibrada. Deve salientar-se que Bird havia regressado “às suas raízes” em busca do paradeiro do pai ausente, nessa procura do tom que faltava à cor da sua pele, até porque a sua “mestiçagem” se revela também no mote dessa procura identitária.
A dita Bird não é apenas fruto máximo da ficção, mas também uma representação da sua realizadora e argumentista, Melody C. Roscher, uma das produtoras da Borderline (a “casa” igualmente gerida por Antonio Campos e Sean Durkin, de onde vieram obras como “Martha Marcy May Marlene”, “Christine” ou “James White”), que, tal como a protagonista desta sua primeira longa-metragem, lida com os seus próprios dilemas raciais, ou de miscigenação, entenda-se. Portanto, “Bird in Hand” é isso mesmo: a busca das raízes, ora transfiguradas nesta imagem parola de uma escravatura deslavada para fotografias de marketing, na cena anteriormente descrita; ora na procura da protagonista pelo ente paternal esquivo; ora, ainda, na relação turbulenta com a progenitora. É a “despertença” e a conformidade perante essa mesma condição, o retrato de gerações moldadas pela falência dos vínculos, primeiro familiares, depois sociais.
É na relação mãe-filha que “Bird in Hand” encontra o seu nervo: o colapso da herança familiar. Bird procura no pai ausente e na mãe instável um mapa para a sua identidade, mas encontra duas formas de abandono. Herda não uma identidade, mas a impossibilidade de a receber, e entra o factor narcisista, sintoma de um tempo que decorre (política, artes, relações afectivas, quotidiano), os adultos também o contraem, ocupados com as suas próprias feridas e guerras de baixa escala, e a criança, essa, que se amanhe. Já não é o centro do cuidado, mas uma peça na negociação emocional dos pais, a quem ainda cabe compreender os seus “traumas”.
Há uma sequência que leva metaforicamente essa ideia, uma falsa epifania em que Bird caminha de mão dada com a mãe em direcção à “luz”, como se, finalmente, se abrisse uma qualquer saída. Só que o corpo maternal desfaz-se, transforma-se em névoa e desaparece … kaboom … a nossa menina fica entregue à sua mercê. Aquilo que parecia ser o último reduto familiar revela-se, afinal, numa miragem. Há que voar sozinha … talvez Bird do nome [pássaro] assuma uma metáfora ao extremo da sua materialização do seu estado (saída dos ninhos, orfãs voluntárias com o restante que a vida lhes coloca).
A crise identitária da tal protagonista nasce precisamente desta dupla ausência: um pai que precisa de ser encontrado e uma mãe que, apesar de presente, não consegue ocupar o lugar de mãe, e isto está representado no tom da sua pele, como tatuagem tribal. É uma personagem sem chão familiar, obrigada a montar a sua própria pertença com os restos que os outros lhe deixaram. E talvez seja essa a verdadeira tragédia cómica de “Bird in Hand”: numa época cada vez mais obcecada com o indivíduo, há quem fique sem ninguém para lhe transmitir sequer de onde veio.
Um drama cómico sobre a reacção de um Mundo para connosco, e com uma protagonista [Wainwright] com todo o sarcasmo que esta demanda exige.

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