Por via de pedaços de media, Jane Schoenbrun tem construído uma carreira em torno dessa extracção, não apenas içando peças de nostalgia, mas conectando-as com a identificação, a formação, a configuração ou a revelação.
À segunda longa-metragem, “I Saw the TV Glow”, mantendo a ligação com uma série televisiva nos moldes de “Buffy”, ou seja, o “monstro da semana”, confronta a personagem presa à sua própria pele, Owen (Justice Smith, talvez no seu papel mais relevante, isto numa carreira sequestrada por grandes produções e pela convencionalidade dessa tal definição de entretenimento), com as suas memórias e a sua autoconsciência, sendo que, plot twist, na figuração de uma mudança de pele, há qualquer coisa de antibinário, camaleónico e até metamórfico. Obviamente, pintar-se-ia no território trans, contudo, avançando agora para esta terceira obra, com “várias rosas atiradas ao palco”, apercebemo-nos de um tecido cuidadoso, ditado por Schoenbrun, onde, acima das intenções de uma identidade fluída e queer em que se apoia, somos feitos de matéria fílmica, televisiva, ou até videojogável (neste campo, basta recuar à primeira longa, “We’re All Going to the World’s Fair”), e, no mundo do consumismo, sendo os media parte desse exercício, somos completamente obcecados por eles, pelas suas plataformas, encontrando nelas catarses identitárias, seja na nossa redefinição, seja na construção de nós próprios.
Com “Teenage Sex and Death at Camp Miasma”, a influência segue pelo escapismo trazido pelos slasher movies dos anos 80 e pela saga que daí parte. Os créditos iniciais atentam a essa mimesis, proclamando um franchise fictício denominado “Camp Miasma”, onde o lettering à la “Friday the 13th” não deixa margens para dúvidas, e o travo transfóbico, segundo as más-línguas que anseia a sua redenção na narrativa, entra no campo (sem innuendos nessa utilização) de “Sleepaway Camp”, de Robert Hiltzik. Ou seja, se juntarmos a isso as leituras nada acidentais por detrás de “A Nightmare on Elm Street 2” (Jack Sholder, 1985), sob o título do mais “gay dos slasher movies” (existe todo um documentário sobre esse… aí está… miasma, “Scream, Queen! My Nightmare on Elm Street”), temos um cocktail sobre esta incidência no ‘pobretão’ (suposto) do terror oitentista.

Contudo, a tese de Schoenbrun é a de que existe algo para além da mera adrenalina do ‘kill go go’ que se faz soar na banda sonora do tão temido Jason Voorhees: há uma aceleração do desejo, sexual, entenda-se, incompreendido perante o lúdico, vindo libertar, aí está, a libido. Essa conexão entre violência e sexo não é um mero fetiche macabro, até porque, ao contrário do romantismo que o erotismo trouxe ao sexo per se, há nele um mecanismo animalesco, uma bestialidade requerida como natural segundo o código da procriação. Só que o Homem é demasiado a leste da mera mecânica. É dos poucos, pouquíssimos, elementos do Reino Animal a associar sexo ao prazer (além dos golfinhos e dos bonobos), mas essa definição de prazer traz sempre consigo um ser autoconsciente um sentimento de culpa, dificilmente gerido, dando origem aos vários tipos de autoritarismo, conservadorismos, repressões e castrações.
O prazer associado ao desejo, entre os muitos traços que nos separam dos restantes animais, é visto não como uma particularidade natural da nossa espécie, segundo os códigos das civilizações ocidentais, mas como uma anomalia, sendo que, o tal erotismo, essa romantização trazida pelos medias, serve para o prazer sexual mais distanciado dos critérios naturais. Fabulistas e “pudicos” ao seu jeito.
E como entra o terror nisto tudo? Parece que, por via das questões identitárias (“a identidade é produzida através da representação”, Stuart Hall), a busca pelo olhar de uma estrela do capítulo inaugural de um franchise fictício, uma espécie de Norma Desmond no seu palácio-set, em refúgio enquanto aguarda pelo seu close-up, nos oferece um atalho encontrado nestes espectáculos de violência gráfica, como metáfora das nossas parafilias ocultadas perante a convencionalidade social. Esse olhar, gaze na língua de Shakespeare, de uma realizadora triunfal de Sundance (fiquemos sem entender se o filme parodia esse registo e o conceito de “revelação-Sundance”, hoje recolhidos pelas mãos de majors que os encarregam de revitalizar os seus darlings franchises) vasculha na réstia quase amberizada da sua estrela, enquanto luta contra um estúdio que a vê como mera tarefeira. Conseguirá trazer a sua visão acima da encomenda de reboot?
A verdade é que, no fundo, é a intriga-base de um jogo de metalinguagens (meta ao sabor do ‘mestre’ Wes Craven!? Cara Jane, não desvalorizes alguém mais importante para o género do que aquilo que o valorizam, por favor!), sobre o retorno do escapismo pouco tido de um género perante uma seriedade que parece ter adquirido (“elevated horror, o meu c…”). Acreditar no avassalador poder desse acto de repetição da fórmula (a fórmula é conforto, Charlie Shackleton havia pronunciado) encontra, daí, neste estado de coma artística, o seu jeito. Talvez seja essa a luz reveladora a fazer “Teenage Sex and Death at Camp Miasma” recolher elogios rasgados e quase hiperbólicos: falar de uma tese há muito discutida pelos pares críticos e académicos, mas uma vez mais subvalorizada por quem se concentra no mero canónico.

Mas não desviemos o olhar, esse tal procurado, porque, à imagem da realizadora, o filme revela-se “algemado”: a) acorrentado à persona de quem o dirige, daí tornar-se uma espécie de pseudo-autognose; e b) preso à sua tese, demasiado cerebral e com pouco coração. Convém, porém, reafirmar o star power (se houvesse dúvidas!) de Gillian Anderson, a enzima humanizadora de toda esta rigidez estética que opera, fazendo jus ao seu nome, a miasma dos tempos (ar fétido da desconstrução e da constante sobreliteralização de tudo e mais alguma coisa).
Porém, a chico-espertice que veríamos noutros planos (penso sobretudo no sobrevalorizado “Cabin in the Woods” de Drew Goddard) tem aqui o seu foco. O slasher como despertar do nosso mais intrínseco desejo… e desse choque, da violência, dos corpos, o embate na fantasia, seja a mais cruel, criamos e tecemos o nosso lugar de pertença, e desse efeito a nossa sexualidade (não sob um registo de binarismo nem somente identitários-individualistas), mas a sua natureza, as suas vicissitudes, o seu DESEJO. Por isso … revelamo-nos, então!

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