tuk-tuks, cafeterias estandardizadas com menus com “abacates em tudo”, “aqui em Lisboa todos sabemos falar francês”, informa alguém, influencers ao molho, nómadas digitais ao metro quadrado, turistas em demasia, a “timeoutização” da cidade alfacinha, Lisboa, a tal menina e moça com os seus problemas de gentrificação, agarra-se às suas tradições com a força que lhe falta, neste caso, As Noivas de Santo António, a iniciativa das festas juninas ameaçada pela “invasão bárbara” da turistificação em massa.

Ruben Alves pode ter adquirido os seus holofotes no gosto popular com “Gaiola Dourada”, comédia francesa a fazer-se portuguesa (erradamente equivocada por vários meios) sobre emigrantes da nossa praça em França e a saudade lusitana. Conquistou corações e dinheiro e, a partir daí, com alguns “feel goods” mal conseguidos pelo caminho [“Miss”], regressa ao colo de Rita Blanco e Joaquim de Almeida (as suas anteriores estrelas), para uma comédia com postura de sátira social, cuja malapata é, previamente e posteriormente, adocicada com açúcar em pleno. Aliás, açúcar branco do mais processado possível, evidência dessa globalização tão criticada, mas assumida no deleite da sua “comédia”.

Vejamos: filmado como se de publicidade se tratasse (e com drones com fartura), uma estética em confronto com o seu discurso de apelo tradicional e de resgate da cidade ora perdida nas políticas (sem fim à vista) de dependência turística. O que fazer quando um filme é aquilo que tanto comenta pejorativamente? Uma farsa, não no bom sentido da palavra… Ou, na procura de uma melhor, uma burla nestes tempos de crises habitacionais e inflação imposta por taxas e tachinhas, “Lisboa à venda”, com etiqueta de preçário e tudo, e todas as capelinhas ali estendidas em fileira para não deixar nenhuma por abordar (para agradar todas as massas, sem sobrar alguma para a representação).

Santo António, O Casamenteiro” exibe fraqueza em toda a linha, e nota-se tal no desperdício de figuras como Joaquim Monchique e Maria Rueff, ou na caricatura estrambólica trazida por Albano Jerónimo, que passa rapidamente de José Sócrates a Carlos Moedas, num malabarismo de maneirismos sem a devida troça. Apenas Rita Blanco, caminhando nas ruas de Lisboa pós-coito, em noites silenciosas, com música diegética de fundo, cigarro na boca e casaco na mão… familiar? Sim, João César Monteiro num passeio com “Johnny Guitar”, a relembrar aquela Lisboa tão patusca, tão bruta, tão nossa… Esses mesmos momentos, completamente apartados do restante tom (ou tons… sem esquecer o ‘product placement’ à descarada), enchem-nos com alguma saudade. Esse sentimento tão português, até.

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