Assumindo um certo tom de filme de cerco, “Confidante” constrói-se a partir de um dispositivo clássico nestas andanças da contemporaneidade: uma chamada telefónica, reduzindo o espaço à voz e deixando nas mãos de um único intérprete todas as possibilidades dramáticas trazidas por esse engenho. Procuremos a ‘voz humana’ encenada por Jean Cocteau, adquirindo peso nas adaptações cinematográficas de Rossellini, Ted Kotcheff, Peter Medak, e, mais recentemente, de Almodóvar [em 2020], e, por outro lado, o utensílio encontrado no género de terror, desde “When a Stranger Calls” (Fred Walton, 1979) até ao já formulaíco gag no franchiseScream“. Pelo meio, havia um “Pillow Talk” (Michael Gordon, 1959), comédia algo screwball tardio com Doris Day e Rock Hudson, a fazer das chamadas cruzadas o acidental encontro entre amantes.

Porém, “Confidant” não consegue ser Cocteau nem os referidos descendentes dessa ideia, porque joga com demasiadas personagens, entrelaçadas num retalho na vida de Sabiha (Saadet Işıl Aksoy), uma mulher que trabalha sob o pseudónimo de “Arzur” numa linha de chamadas eróticas (pormenor curioso: Arzur significa desejo em turco), e é aí envolvida, ora num episódio de corrupção política, ora num terramoto que devasta as orlas de Istambul (relativo ao verdadeiro evento catastrófico de 1999, o que oferece ao filme o seu contexto temporal datado), mantendo entretanto contacto com uma vítima encurralada nos escombros.

Dirigido pelo casal franco-turco Çagla Zencirci & Guillaume Giovanetti, o filme remete-nos para a ideia de um thriller encurralado, incentivando a imaginação do espectador, como fizera produções de tecidos próximos como “Buried” de Rodrigo Cortés, “Guilty”, do dinamarquês Gustav Möller, que muitos conhecerão (indevidamente) através do remake americano com Jake Gyllenhaal, ou “The Call“, de Brad Anderson, com Halle Berry, que, como tantos outros exemplos, dissipa na irrequietude da indústria a que pertence (os americanos julgam que os seus espectadores têm défice de atenção).

Já “Confidant” nunca responde exactamente ao tempo real em que muitos destes ensaios se apoiam a seu favor. É igualmente convulso, atirar-nos para as promessas de um filme cenicamente limitado, sim, mas verdadeiramente moralista, explorando uma denuncia latente, mas nunca subtil, do patriarcado e dos “homens opressores” da sociedade (dilacerando o suspense que por momentos tece). Talvez seja esse o seu grande “feito”: querer subir ao púlpito e assinalar a sua virtude enquanto deixa de lado a actriz que tem na sua posse. Isto, claro, se contarmos com uma obra que, ora se fica pelo seu quadrante narrativo, ora abandona completamente o mesmo, ao invés disso, permanece num limbo, sem seguir à risca as suas regras nem fugir a sete pés das mesmas. Um thriller passageiro.

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