Sendo uma das vozes responsáveis pelo surgimento do “novo cinema queer” com apogeu na década de 90, o agora sexagenário Gregg Araki quer explicitamente o nosso sexo. Que é no fundo como dizer que quer o nosso bem.
Em “I Want Your Sex”, o cineasta queer talvez se revele menos… “expansivo” para uma geração X ou millennial que cresceu a ver filmes como “The Living End“, “Totally Fucked Up“, “Doom Generation” ou “Nowhere“. Mas no contexto destes novos loucos anos 20 – não desta vez pela rebaldaria sexual mas pelo extremo conservadorismo que tomou conta o mundo – falar tanto de “incels” como “polícia woke” soa por si só revolucionário. E se um filme é produto do seu tempo, então “I Want Your Sex” soa tão fora da sua caixa temporal, tão queer, como o quarteto de filmes mencionados anteriormente.
Sim, falamos desta vez de uma relação heterossexual entre uma patroa, uma artista pós-moderna que vive muito da ideia do sexo no seu trabalho, e o seu subordinado, um “nerd” com desejo de se encaixar entre os que não se encaixam com a maioria, logo permeável aos avanços de cima.
Olivia Wilde, envergando trajes capazes de envergonhar a equipa de “O Diabo Veste Prada 2” (haja petição e campanha apropriada para colocar este filme na categoria de Melhor Guarda-Roupa nos Oscar), brilha no papel de dominadora. E Cooper Hoffman, sim, o filho de Philip Seymour Hoffman, título que nunca lhe irá escapar, consegue aqui confirmar o talento que já tinha vingado em “Licorice Pizza” no papel de dominado.
Se a trama de contar a história de frente para trás possa ameaçar perder a certo ponto algum gás, a dinâmica entre o duo central, os diálogos hilariantes, certeiros e sem qualquer filtro de segurança entre audiências (seja qual for o espectro ideológico ou geração a que pertençam) garantem que esta hora e meia seja de facto ironicamente um “cobertor” contra os tempos caóticos atuais, conforme o realizador queria que sentíssemos. E a crítica que a geração Z está a fazer menos sexo, sobretudo vinda da pandemia COVID-19, é feita com carinho e respeito – Araki admitiu em entrevista que é graças a esta geração que continuamos a ter cinema conforme o conhecemos sempre, logo fez este “I Want Your Sex” também para esta faixa se rever, e quiçá, repensar decisões.
(“I Want Your Sex” está em exibição atualmente nos cinemas em Lisboa, Porto, Setúbal, Coimbra e Braga)

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