Perdido na cidade, entre malandros disfarçados sob o cheiro a sexo, São Paulo transforma-se numa capital queer em “Labirinto dos Garotos Perdidos”, filme que se revela através do abstracto da própria violência, dos corpos que fornicam e de um género de terror que sempre funcionou como via de escape para a homossexualidade no seio do mainstream (não é por acaso que “Psycho”, “Caligari” ou os giallo à la Argento surgem aqui mastigados e entregues aos néones de autores como Yann Gonzalez ou Bertrand Mandico), fazendo da sexualidade não apenas um tema, mas o verdadeiro motor existencial destas personagens.

Olhamos para as referências e para a estética daí derivada, por vezes previsíveis nestas andanças, e caímos, quais “tordos”, na toca do coelho branco, rumo aos recantos mais obscuros deste País das Maravilhas. Mas, falando de escapismos ou subliminaridades trazidas pelo género, “Labirinto dos Garotos Perdidos” não vive dessa subtileza. A fabulação dos encontros, entre os devaneios gays das personagens, conduz antes a uma literalidade dos corpos e do explícito (numa narrativa de direcção do desejo e estagnação do mesmo). O realizador Matheus Marchetti não nos engana: trata-se de uma viagem assumidamente queer, onde as mulheres praticamente não têm lugar. As poucas que surgem são ridicularizadas, relegadas ao papel de mães ultra-protectoras ou de companheiras traídas e histéricas, lançando ameaças infernais depois de apanharem o companheiro em pleno golden shower.

Sim, é uma viagem carnal, por vezes trocista com a própria solenidade do sexo (como parte da obra do realizador). Desfilam figuras díspares: o protagonista, Giuliano Garutti (também figura de cartaz de “O Bosque dos Sonâmbulos”, outra obra de Marchetti estreada no ano corrente), movido por uma libido aparentemente inesgotável; um gato de Cheshire de sorriso alucinogénico (“As pessoas vêm aqui para transar ou para matar. Que porta escolhes? A ou B?”); um chapeleiro louco; e outras personagens histriônicas ou extravagantes que orbitam a ameaça de um possível serial killer. É o doutor, ou melhor, a “lagarta”, seguindo a cartilha de Lewis Carroll, quem nos deixa o aviso.

No fundo, “Labirinto dos Garotos Perdidos” é um ‘filme-brincadeira’: um júbilo formal, cuidado e fascinado pelas interacções sexuais das suas personagens, mas que dificilmente ultrapassa essa condição, nem sequer enquanto desconstrução do género se afirma com particular vigor, ou seja, demasiado centrado em si próprio. Uma punheta de filme é o que é!

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