O cearense Karim Aïnouz está num ping pong geográfico, nada contra, mas quanto à identidade? Pois bem, depois de “Firebrand” (2023), essa primeira tentativa assumidamente internacional com Jude Law e Alicia Vikander, une-se a um exquisite argumentista, Efthimis Filippou, para dar uma lavagem “lanthimótica” a “I pugni in tasca”, primeira longa-metragem de Marco Bellocchio, em que um jovem epiléptico planeia secretamente matar a sua família. No caso deste “Rosebush Pruning”, criando paralelismo do seio familiar com um roseiral, daí a sua poda ser necessária, é quase um degredo pasoliniano, em que o conceito do “Teorema” vai ainda mais a fundo na sua perversão e ruptura familiar, visto que este mesmo, representado por ‘super-ricos’ quasi-parasitas, são eles próprios más índoles dignas dos nove círculos infernais e, ao mesmo tempo, caricaturas grotescas dos seus arquétipos e consanguinidades.

Aïnouz parece estar refém dessa provocação fácil, começando pela sua própria disrupção dos dogmas narrativos, a falta de um protagonista por quem o espectador possa torcer, mesmo que o narrador, Callum Turner, tenha a consciência da sua própria inutilidade existencial, mirando a Grécia como seu recomeço / redenção (será a autognose do argumentista em perceber que o seu lugar seria naquela vaga weirdo que se expandiu globalmente?), ou “criando” ditados seus sem qualquer significado aparente (o título deste texto é da sua “autoria”). Contudo, a flor murcha rapidamente, tudo emplastro!

Mas não fiquemos a apedrejar filmes por não sermos cativados pelas suas personagens; saberíamos à partida que não estávamos em frente de um Saint-Exupéry. Só que esta abjecção, amoralidade e até nojeira de hábitos revela-nos uma tendência corrente nos diferentes medias, a de colocar os aristocratas desta espécie em “maus lençóis” ou em reflexos monstruosos. Infelizmente, o efeito “White Lotus” só espelha desejo / cobiça: o da diferenciação, o do Poder, e, nessa recolha, não corresponder às leis, sejam civilizacionais ou até morais. Resultado: a quantidade que hoje pavoneia nas diferentes plataformas, desgraçados sociais que revelam devoção e admiração pelos bilionários do seu tempo, estes já “sem vergonha na cara”, não afectando a percepção e a empatia (fraqueza do Ocidente, segundo um dito cujo trilionário).

Portanto, ver “Rosebush Pruning”, acreditando que o propósito daqueles gags escatológicos de duvidosa lavagem de dentes (entre muitos), ou o refazer de “Canino”, de Lanthimos, sem os estudos semióticos, a abjecção por abjecção, o pior tipo de abjecção. Karim Aïnouz quis o céu internacional, pulou e deu cá um trambolhão! Se era para ser Lanthimos, mais vale ficarmos com o original.

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