Mais um ano, mais um Curtas Vila do Conde, festival de um formato que cresceu como uma paragem obrigatória na cinefilia portuguesa, fazendo, assim, do curto tempo numa das mais experimentais e ousadas plataformas. Contudo, em pleno 2026, não se resume a uma montra de trabalhos neste círculo; há outras metragens para nos condizer, longas, meias e até antologias. O que interessa é o que está dentro delas, num forte diálogo com outros tempos, a trindade temporal: presente, passado e futuro.
Na sua 34.ª edição (17 – 26 de julho), somos levados pela mão ao encontro do “new great thing” do cinema português (quem sabe?), ou das múltiplas linguagens trazidas por cineastas novos e de verdes anos, e passeando na experiência de um calejado como Todd Haynes, aqui fazendo parte da montra e num especial lugar sentado. Por outro lado, o Irão via por um canudo, ao sabor do zeitgeist, do momento, este e agora, com um dos mais agressivos dos seus realizadores “malditos”, mas igualmente premiados no Ocidente, Mohammad Rasoulof (“The Seed of the Sacred Fig“). O passeio está agendado, mas não se percam com tantas propostas e promessas. Nuno Rodrigues, programador, estará aqui para nos guiar neste trilho, sob o desafio do Cinematograficamente Falando…
Em 2020 (claramente uma edição marcada pelo contexto pandémico), foi referido que o Curtas Vila do Conde poderia funcionar como um termómetro do estado do mundo. Passados seis anos, continua a rever esta ideia? Ou o festival é também um olhar para o passado e para o futuro?
Penso que isso é algo que está sempre no festival e na programação. Presente, passado e futuro, ou os três em simultâneo. Se falamos do presente: nas competições nacionais, internacionais e experimentais, com ficção, documentário e animação, há inevitavelmente um olhar atento ao que está a ser feito de novo no mundo e no país. Os filmes que escolhemos (pelas narrativas, pelas temáticas, pela linguagem) remetem para as questões do momento. Eis o presente e o estado do mundo na nossa programação.
O futuro tem várias dimensões. Em secções como o Take One, e também nas competições, há sempre essa ideia de lançar jovens cineastas que surgem aqui pela primeira vez e que depois… Isso é trabalhar o futuro numa perspectiva. Mas há um outro futuro ainda: o trabalho que fazemos com o público, através das Curtinhas, do My Generation, um trabalho próximo de outras faixas etárias. Ao desenvolver estas iniciativas, estamos a falar do futuro público do amanhã. E já aconteceu, se olharmos para trás: pessoas vieram ao Curtinhas em criança e regressaram anos depois como cineastas. Recordo o João Gonzalez a mencionar que começou a vir ao Curtas como pai, para assistir ao Curtinhas, e o papel que o festival acabou por ter na sua formação.

O passado está nas secções Cinema Revisitado e In Focus, que trabalham a história do cinema e a preservação. Este ano temos três focos especiais sobre autores com histórias longas e consistentes, estamos a trabalhar a memória de obras feitas há dez, vinte, trinta anos. A ligação à história e à memória é permanente.
Ainda nessa linha e nesse diálogo de 2020: o Curtas sempre foi mais do que uma montra de curtas-metragens, dando espaço para outros formatos. Queria perguntar sobre os focos de Todd Haynes e de Mohammad Rasoulof, mas também sobre um caso concreto na Competição Nacional: o novo filme do Carlos Conceição [“Um Coração Incendiário”] tem 59 minutos, o que o coloca mesmo na fronteira entre curta e longa.
São duas questões diferentes de facto! A questão dos 59 minutos: nós tomámos uma decisão, há muitos anos, de respeito à nossa história e à definição do formato. Em termos históricos, existe essa convenção de até 59 minutos e 59 segundos, e o filme do Carlos enquadra-se aí. Somos dos poucos festivais no mundo (e felizmente, digo eu) que apostam neste formato intermédio, com filmes de 40, 50 ou perto de 60 minutos. Esses filmes têm mais dificuldades de serem programados: como há muito poucos festivais que apostam nestas durações, damos essa possibilidade também a este tipo de formato menos usual, tanto na nacional como na internacional ou na experimental.
Quanto aos focos, este ano há uma aposta forte em dois nomes do grande público: Todd Haynes e Mohammad Rasoulof. O Todd é um realizador do cinema independente americano, mas também enraizado nalgumas das suas obras a uma reflexão sobre o próprio cinema. O seu início de carreira e alguns momentos do seu percurso são extremamente subversivos, muito diferenciados da lógica mainstream. Vamos dar a conhecer curtas desconhecidas do Todd (produzidas pela Christine Vachon, que foi a sua produtora ao longo de todo o percurso, e que estará presente no festival) e isso é o que um festival proporciona: dar a conhecer não apenas o lado mais visível e conhecido de um cineasta, como também o outro, o menos visto.
No caso do Rasoulof, há claramente a questão do presente de que falávamos. Um autor que esteve preso pelo regime iraniano, que foi perseguido, que está exilado, e que trabalha numa perspectiva fora do país onde nasceu e fez parte da sua carreira. É um modo de o aproximar de públicos que vão conhecer melhor essa realidade e o seu cinema. Ele é extremamente crítico em relação ao regime e procura dar a conhecer os problemas da sociedade, da família, porque esses “territórios” estão interligados entre si. Quando falamos do Irão e daquilo que estamos a viver no mundo, a presença dele é uma questão do presente.

Há um programa desta edição que achei particularmente interessante no seu conceito: que é o ciclo dos filmes antológicos. De que forma se encaixam numa programação de um festival de curtas?
Com um festival como o nosso, havia aqui uma oportunidade única. Apresentamos, numa perspectiva histórica, um olhar sobre estes filmes de antologia, com exemplos que vão de Agnès Varda, Woody Allen, Martin Scorsese, Fellini, vários nomes conhecidos da História do Cinema.
O que são os filmes de antologia? São, do ponto de vista histórico, uma forma que produtores e distribuidores criaram (desde os anos 40, diria, até aos nossos dias) de ter quase curtas numa sala de cinema. O formato teve diferentes variantes: por vezes era um tema, convidavam-se três ou quatro cineastas para trabalharem à volta dele. Foi algo muito forte nos anos 70 em Itália e em França, com os grandes nomes do cinema desses países. Nos anos 2000’, há inúmeros encontros entre cineastas asiáticos e europeus a trabalhar temas e questões em conjunto. Nunca foi uma fórmula de grande sucesso porque o público não estava preparado para o formato da curta em sala, mas há exemplos superinteressantes.
O que acontecia muitas vezes: as pessoas entravam, viam três filmes de três cineastas diferentes e saíam com os seus preferidos: “gostei muito do de tal e este outro nem tanto”. Vai ser possível revisitar agora, vinte ou trinta anos depois, algumas destas tentativas da distribuição de acoplar curtas dentro de um formato longa. Sim, porque estes filmes de antologia são longas-metragens!
Sobre a secção New Voices, este ano surge o Guillermo Galoe — um nome com quem o Curtas já tem história.
Sim, o Guillermo Galoe já esteve no Curtas antes e apresentou um filme em competição e outro noutro contexto. Ele tem curtas e longas, está numa fase relativamente inicial de carreira. O New Voices é isso mesmo: dar a conhecer cineastas ainda no início do percurso, com a primeira ou a segunda longa, que é o caso do Guilherme, que consideramos um nome importante do cinema espanhol contemporâneo. Trabalha muito à volta de uma com unidade que lhe é cara, de um meio, e trabalha com actores ou não-actores dentro desse território. Vai ser a oportunidade de conhecer melhor este cineasta e de ver um filme que estreou no ano passado em competição em Cannes ( Ciudad sin sueño), com direcção de fotografia do português Rui Poças. Será a primeira oportunidade do público português de ver este filme, uma vez que não estreou em salas em Portugal.
Sobre a competição nacional: encontro neste trabalho muitas estreias absolutas, a par de filmes que já passaram em festivais internacionais, como é o caso do Daniel Soares [“Algumas coisas que acontecem ao lado de um rio”], que marcou presença em Cannes. Quais são os critérios de selecção para uma curta digna da vossa mostra nacional?
É sempre um olhar sobre o cinema português contemporâneo. Os realizadores e produtores sabem que, para estar aqui em competição, o filme tem que estar em estreia nacional, tem de ser visto pela primeira vez em sala, em Portugal, no Curtas. Está a acontecer um fenómeno, diria recente, em que alguns destes filmes têm primeiro uma estreia internacional e depois chegam ao Curtas. O caso do Daniel Soares, com a estreia muito recente em Cannes, é um exemplo.

Mas quando falamos do Daniel ou até do Carlos Conceição, temos que ter em conta que já são nomes com outra dimensão (o Daniel já com mais do que uma curta realizada, o Carlos com um percurso mais desenvolvido entre curtas e longas, pela idade e pelos diferentes trabalhos ao longo dos anos), há depois esse outro lado (entre documentário, ficção e animação) em que o festival procura descobrir novos autores. Esse tem sido o nosso papel ao longo dos anos: dentro dos três géneros, descobrir e dar a conhecer novas vozes. É também essa a natureza a nossa competição nacional.
Uma pergunta inevitável neste nosso zeitgeist: a inteligência artificial. Alguns festivais estão a fechar as portas, outros a abri-las, e alguns a deixar entreabertas. Reconhece-se, por exemplo, que já há festivais de animação, cujo trabalho gerado por AI tem penetrado nas secções [olhando para o caso recente da Annecy]. Por isso pergunto, qual é a vossa posição?
A AI é algo que está a surgir de diferentes formas em toda a sociedade e, obviamente, também no cinema. Inclusive em longas-metragens com Oscars existem recursos a essa ferramenta. Portanto é algo com que temos que viver.
No nosso caso, se olharmos para o que o festival tem em competição, certamente existem três, quatro, cinco filmes que têm elementos trabalhados com AI a vários níveis. O que pedimos é que essa informação seja colocada na inscrição, se o filme utiliza ou trabalha com ela, e de que modo, apenas para reflectir sobre que uso é feito dessa ferramenta. Nada mais. Isso não vai ditar que o filme fique ou deixe de ficar seleccionado. Estamos atentos, não negamos. Somos um festival ligado à linguagem e à história do cinema, e a AI é algo sobre o qual podemos reflectir e criar pensamento, mas não é algo em relação ao qual estejamos focados de forma central.
Observamos, reflectimos, e procuramos saber: sim ou não, e o porquê.

Toda a programação poderá ser consultada aqui

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