Tempos houve em que o cineasta dinamarquês Nicolas Winding Refn era sinónimo de “cool“. Foi há 15 anos que o seu crédito atingiu um pico junto do grande público com a estreia de “Drive” que lhe garantiu um prémio de Melhor Realizador no Festival de Cannes. Foi também a partir daí que, com cada lançamento seguinte, a crítica foi espetando facadas, se não mesmo machadadas.
“Only God Forgives” e “Neon Demon” (filme que alegadamente terá dado o nome à já icónica distribuidora NEON) voltaram a Cannes para receber um misto de apupos e aplausos. E dez anos volvidos sobre a última longa metragem, e após umas aventuras bem radicais pela TV em formato streaming, eis que temos “Her Private Hell”, também apresentado no festival, mas fora de competição, o que em retrospetiva reflete sobre a qualidade da obra.
O que antes era quase sempre hipnótico, agora torna-se por vezes comatoso. Os néons estão de volta sim, assim como a violência sem filtro e a banda sonora envolvente. E os atores nunca estiveram tão bonitos sob a luz de Refn, qualquer que seja a indumentária ou ausência dela. Em “Neon Demon“, crítica ao mundo canibal da moda, levando esse conceito à literalidade, essas tomadas de ângulo, como se o filme fosse ele próprio um ensaio fotográfico, faziam pleno sentido. Aqui, tudo parece mais supérfluo, numa teima em repetir motivos, em não ligar às críticas que lhe foram atiradas nos últimos 15 anos, um gesto entre o “punk” e o birrento, aproximando-se cada vez mais do último. Claro que sim, esta sempre foi a sua identidade, e conforme uma personagem nos diz aqui, somos todos únicos – mas ironicamente, este é o primeiro momento em que poderíamos também pensar que entrou um alterno, um copiador, ou um robô para ajudar nesta película…
A “história” esqueletal aqui, desenvolvida em formato onírico, e valendo assim comparações de alguns apologistas resistentes a David Lynch, tem algo de conto de fadas em modo “giallo“. Não é por acaso que o seu conterrâneo Hans Christian Andersen e “A Rapariga de Fósforos” é mencionado. Existe um homem de cabedal fantasmagórico que está a matar raparigas, em busca de uma filha perdida, no meio de um nevoeiro. É isto, e claro, depois temos aqui várias questões nunca resolvidas, algo que completa o aspecto de sonho/pesadelo da película. Porque é que as duas personagens principais – um soldado que perdeu a filha, e uma jovem atriz que procura sempre o amor do pai em vão – parecem vir de duas épocas completamente diferentes? Este não é o filme para entrar em tais dissecações. E está longe de ser o maior dos problemas aqui.
Se Nicolas Winding Refn, ou NWR para os amigos e fãs, criou uma marca e ajudou a criar uma toca de coelho para o espectador poder cair, em “Her Private Hell” tem-se a sensação que o próprio criador, vindo de uma experiência de quase morte, caiu ele próprio na toca que construiu.
Numa nota final positiva, há que aplaudir a contratação do compositor Pino Donaggio, histórico colaborador de Brian De Palma, que assina aqui outra partitura belíssima, partilhando a banda sonora com Julian Winding, sobrinho do cineasta, numa mistura sonora mais interessante que qualquer palavra proferida aqui. Talvez se encararmos o filme como um álbum visual desta música, se nos lembrarmos o quão esta ajuda a que momentos visuais fiquem mais na retina ao ouvir simplesmente as notas de novo, talvez aí consigamos perdoar esta queda de um “brat“.

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