O Azores Burning Summer regressa à Praia dos Moinhos, no Porto Formoso, e, entre concertos, encontros e o mar como cenário permanente, volta a reservar um lugar para o cinema. Este ano, porém, a programação divide-se em dois gestos distintos. O Cinema na Praia prolonga um ciclo que se foi afirmando ao longo das últimas edições, enquanto o Cinema da Autonomia, concebido para assinalar os 50 anos da autonomia dos Açores, leva as sessões a oito freguesias da Ribeira Grande, deslocando o ecrã para fora dos centros habituais e aproximando-o do território que procura interrogar.
A programação percorre memórias de terramotos, processos de reconstrução, escritores e romances transgressivos a tempos e legados musicais, mas acaba por revelar um fio menos evidente: a insularidade como espaço de pertença, resistência e transmissão de memória. Quatro dias (4 – 7 de Agosto), quatro filmes, quatro geografias e diferentes formas de olhar para a comunidade, a identidade e a relação entre cultura e lugar.
Filipe Tavares, programador do festival e realizador de “A Viagem Autonómica“, é o principal responsável por esta componente cinematográfica. O Cinematograficamente Falando … falou com ele, sobre a curadoria, o regresso do filme de 2013 e a forma como o cinema pode ocupar um lugar de encontro, memória e descentralização cultural nos Açores.
Este ano há dois ciclos de cinema no festival a decorrer em paralelo, o Cinema na Praia e o Cinema da Autonomia. Como se distinguem?
O Cinema na Praia é o ciclo que fazemos anualmente há quatro ou cinco anos. São quatro exibições ao ar livre na Praia dos Moinhos, com o mar como pano de fundo, num cenário muito bonito. Este ano decorre de 4 a 7 de Agosto.
Já o Cinema da Autonomia é diferente, trata-se de um projecto específico para as comemorações dos 50 anos da autonomia e consiste na exibição itinerante de “A Viagem Autonómica”, filme realizado por mim, em oito freguesias da Ribeira Grande, incluindo lugares mais remotos da ilha. A ideia passa por descentralizar a oferta cultural e levar o cinema a locais que normalmente não têm fácil acesso a este tipo de programação. Mesmo dentro da ilha existe algum centralismo, e com esta iniciativa queremos contrariá-lo.
Pode falar-me um pouco de “A Viagem Autonómica”? É um filme de 2013, certo? Como chegou a esta ideia e por que razão decidiu reactivá-lo agora?
O filme nasceu de uma vontade comum minha e do Nuno Costa Santos. Ambos vivíamos em Lisboa na altura e a nossa relação com os Açores era muito intensa, através da Casa dos Açores, daquilo que partilhávamos das nossas juventudes e também das discussões políticas. A questão da região autónoma despertava-nos interesse porque percebemos que não conhecíamos verdadeiramente o enquadramento da autonomia dos Açores e da Madeira, nem as razões que levaram à sua conquista, as lutas travadas ou os problemas do centralismo e da soberania. Existe também a questão da autonomia individual, do distanciamento das ilhas em relação ao continente e da tripla periferia, já que há igualmente uma distância entre as próprias ilhas. Mas há algo em comum: o sentimento de que viver nos Açores é verdadeiramente especial e único. Isso ninguém nos tira. Apesar de persistirem alguns desconhecimentos por parte do governo central sobre o que significa viver em ilhas mais isoladas, ao nível dos percursos universitários, das oportunidades de negócio ou da saúde, em que grande parte do acompanhamento médico continua a ser feito no continente.

O filme tem uma componente ficcionada centrada numa personagem chamada Gonçalo Cabral, cujo nome remete para Gonçalo Velho Cabral, o primeiro Capitão do Donatário dos Açores, aqui interpretado por Frederico Amaral, um açoriano que foi estudar teatro para Lisboa. Na história, ele é também um estudante de teatro que regressa aos Açores para investigar a história da autonomia, cruzando-se com diferentes figuras envolvidas no processo autonómico pós-25 de Abril, historiadores e pessoas ligadas à vivência das várias ilhas. Quanto ao regresso do filme, 2026 assinala os 50 anos da autonomia dos Açores, da autonomia efectiva, porque já tinha existido uma autonomia administrativa no final do século XIX, mas era uma autonomia amordaçada, sem os meios necessários para governar. Ao longo do século XX, sobretudo durante o Estado Novo, a situação agravou-se. Só em 1976, com a formação do Governo e do Parlamento Regionais, a autonomia se consolidou verdadeiramente. É esse aniversário que celebramos.
O filme tem uma dimensão pedagógica, comunica facilmente com qualquer tipo de público, está traduzido em cinco línguas e teve uma boa receptividade quando estreou. As pessoas gostaram, aprenderam com ele e relembraram aspectos da história. Depois tornou-se pouco acessível. Passou na RTP, fez um circuito itinerante por cinquenta localidades das ilhas em 2014 e acabou por ficar guardado. Agora surgiu o momento certo para o fazer ressurgir neste formato de cinema ao ar livre itinerante, sendo posteriormente disponibilizado online.
Os outros três filmes que compõem o Cinema na Praia (“7.2”, de Jorge Monjardino, “José e Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes, e “Orlando Pantera”, de Catarina Alves Costa) partilham algum critério curatorial?
Apesar de apresentarem histórias e geografias diferentes, estes filmes partilham uma preocupação comum: perceber de que forma a memória ajuda a construir a comunidade.
O “7.2” preserva a memória do terramoto de 1980 na Ilha Terceira e em São Jorge e, com ela, a capacidade colectiva de reconstrução, algo intrínseco à vivência insular. Os açorianos sempre se reconstruíram depois de tempestades, furacões, desastres naturais e vulcões. Isso faz parte da nossa identidade e moldou-a profundamente. A açorianidade está intimamente ligada às catástrofes naturais e ao isolamento.
O “José e Pilar” é um filme absolutamente belo, que nos aproxima da dimensão humana e criativa de José Saramago. Entra na sua intimidade durante o período em que vivia em Lanzarote, nas Canárias, outra ilha vulcânica, o que cria uma ligação evidente. A história de amor entre Saramago e Pilar del Río, marcada pela diferença de idades, é fascinante. O filme transmite essa ideia de um amor sem barreiras, assente no respeito mútuo e na admiração, ao mesmo tempo que aborda temas profundamente contemporâneos através da voz de Saramago.

O “Orlando Pantera” vi-o muito recentemente, e o nosso festival tem uma fortíssima ligação à música cabo-verdiana, não apenas por ser uma música enérgica e muito rica, mas também porque existem cabo-verdianos espalhados por todas as ilhas dos Açores, onde encontraram um bom lugar para viver sem abandonarem o Atlântico. Orlando Pantera foi uma espécie de matriz cultural, com uma vida muito rica, embora demasiado curta. Morreu aos 37 anos, na véspera de viajar para gravar o seu primeiro álbum, mas a sua influência continua viva: Mayra Andrade, Lura, Tubarão e muitos outros pegaram na sua música e cresceram enquanto projectos artísticos. Dada a nossa proximidade com Cabo Verde e a qualidade do filme, era um título que tinha de ser exibido aqui.
No fundo, e só o percebi à posteriori, todos são filmes insulares: Cabo Verde, Canárias e Açores. Não foi uma escolha deliberada. O critério principal foi a qualidade das obras e os temas que abordam. Mas existe essa feliz coincidência de todos falarem de território, pertença, resistência, criação e transmissão da memória.
Existe uma procura deliberada de diálogo entre o cinema e o festival de música, ou são duas propostas que coexistem de forma independente?
Vejo o festival como uma oportunidade para mover pessoas e atraí-las através da força da música, mas vejo-o também como um projecto com um sentido de missão. Nas sete, oito ou nove actividades paralelas, o EcoMarket, a Feira de Veículos Eléctricos, as Letras na Areia dedicadas à literatura e ao gosto pelos livros, o Programa Comunitário VIVE, o Programa HABITAT sobre ecologia e preservação dos oceanos e o Cinema na Praia, procuramos deixar uma marca positiva. Cada filme pode existir por si só, mas também em diálogo com os restantes. Não há uma necessidade de criar ligações artificiais entre eles. Acabam por revelar uma certa tendência, neste caso a minha, para os filmes insulares. Não é intencional. O essencial é a qualidade das obras e a sua pertinência.
Que desafios vê para esta componente cinematográfica nas edições futuras?
Esta vertente do cinema não é feita com uma preocupação excessivamente densa, nem resulta de um exercício forçado. A curadoria deve surgir naturalmente. Este ano fiz alguma pesquisa, recordei alguns filmes e não tenho um interesse particular em apresentar estreias. Acredito que um bom filme merece ser revisto e, quando ainda não foi visto, deve ser exibido para chegar a mais pessoas. Os documentários entram muitas vezes em circuitos de exibição muito restritos e acabam por não alcançar o grande público. A minha intenção é levar filmes que não pertencem ao circuito mainstream a públicos que normalmente não têm acesso a esse tipo de cinema.
Não fazemos open call nem abrimos candidaturas. O programa vai surgindo durante o processo. Escolho sete, oito ou dez filmes e depois procuro perceber as relações que podem estabelecer entre si. Há uma preocupação que considero fundamental: evitar um programa composto apenas por filmes pesados. O “7.2” aborda uma catástrofe e será inevitavelmente mais intenso. Sinto necessidade de equilibrar essa carga com algo mais luminoso. Esse sentido de equilíbrio na curadoria é importante. No essencial, é isso. Tenho a certeza de que o próximo ciclo surgirá de forma muito natural.

Toda a programação poderá ser consultada aqui

Deixe um comentário