Antes sequer de o filme começar, uma voz faz questão de nos alertar: “Um Coração Incendiário” é um projecto de 2015, recusado pelo ICA por um júri (sublinha-se: composto inteiramente por homens), que argumentou tratar-se de um filme demasiado imaturo. Com isto, ficamos esclarecidos de forma a não estranhar que o actor-fetiche João Arrais ainda detém o imaculado estado dos seus “verdes anos”, e Anabela Moreira de igual modo, por isso não fiquem pasmados por, em pleno 2026, dois dos actores mais recorrentes do cinema português e da carreira de Carlos Conceição surgirem nós como consumidores do elixir da juventude algures.

Mas voltemos ao projecto, porque, nele, com poucos minutos subtraídos à sua designação oficial de longa-metragem (o realizador sempre brincou nos limites dessas categorizações, basta espreitar “O Fio de Baba Escarlate”), encontramos um recitar das constelações e das notas recorrentemente pontuadas no seu cinema, neste caso o desejo, o corpo, a pulsão e a violência latente contra a ordem social estabelecida. O erotismo surge como força desorganizadora, uma energia que desafia convenções, moralidades e hierarquias aliando-se à  carnalidade, ao tabu e à libido angariada e reprimida por uma estética que enfatiza as fantasias mais escondidas. 

Há uma dimensão queer no seu visual, ou na forma como o corpo de João Arrais se apresenta, em contraste com o despojamento com que é captado a sua parceira do pecado, Inês Costa. Contudo, é um filme de impulsos heteronormativos, de uma sensualidade ímpar, remetendo-nos para as longínquas paragens de “Coelho Mau”, curta essa (também com Arrais e uma ainda “menina” Júlia Palha) que parece ter encontrado aqui a sua sequela espiritual. Mas, longe dos trabalhos mais profundos de Conceição, “Um Coração Incendiário” tem qualquer ‘coisa’ de piada estrambólica, de como o sexo, a vontade e a consumação animal lançam o caos na lógica amorosa, e de como os maiores feitos, como aquele deus ex machina em que o tempo se torna uma questão de regulação, são fruto do mais elementar facto de “querermos foder”.

Imaturo ou não, segundo o paladar dos júris da época, a verdade é que o Sexo e as suas vicissitudes podem traduzir todas as origens do Mundo, sejam naturais, sociais (aqui, as classes surgem subtilmente como um fosso entre o ‘amantes’, e a criação disso mesmo status) ou até políticas (porque tudo é político, até a posição sexual é um acto desse meio).

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