Mentes inquietas, imagens irrequietas. É num enredo embrulhado em ficção científica que deparamos com esta citação de “La Jetée”, de Chris Marker, se os seus fotogramas tivessem sido coquinados e resolvidos numa ‘maliquice’ febril. A história de um homem, de quem apenas sabemos tratar-se de X (o artista multifacetado e cantautor Negro Leo, um dos realizadores da obra), cuja identidade é um puzzle por decifrar, após ser recrutado por uma empresa chamada ProLife, que promete introspecções e uma vida melhor … pelo menos, as suas dores poderão ter um fim, ou quem sabe a sua humanidade seja uma patologia, sinónimo de sofrimento, esse produto exclusivo da existência.

Ver “Aquele que Viu o Abismo” é ‘agarrar-se à cadeira’ e deixar-se abanar pelo que vemos, positiva e negativamente. Ou melhor, a assinatura em dupla de Gregorio Gananian & Leo revela-nos uma experiência acima da convencionalidade, remexendo-se pelos sentidos platónicos e pelas formulações aristotélicas. O tempo aqui, tal como a premissa, é uma fragmentação, é incumprido. Porém, é aí que entramos no ponto negativo: a ambição de ser invulgar. Contudo, e bem verdade, vivemos numa época de saturação das fórmulas e, consequentemente, das imagens e das suas estéticas. Isso dificulta-nos a contemplação do diamante bruto que a contemporaneidade acelerada e imediata poderá ocasionalmente (ou intensivamente) gerar. Os culpados são vários, mas um deles vem da internet, essa entidade que o filme deseja, sob a voz angustiante de X, relegar ao “anuário das espécies extintas”. O que nem é preciso, porque a ideia-base da World Wide Web é hoje, indiscutivelmente, uma miragem, apenas cimento, enquanto novas arquitecturas, a AI, as redes sociais e os seus algoritmos, manifestam-se nos nossos traços sociais, com isto, de alguma forma já a devolvemos à tal lista de extinção. Vemos a evolução, ou, no pior dos casos, a variação mutante.

Enquanto isso, perante o delírio das imagens em constante movimento, não esclarecidas, entre cortes rápidos constantes (ou golpes, talvez uns 400), “Aquele que Viu o Abismo” torna-se um produto da sua própria “modernidade”. Mesmo no seu cerne exista um discurso pelo simplismo e do manual, o desejo de “tocar piano” do seu protagonista valida essa intenção. Mas, como Cassandra dos mitos gregos, perante a visão da catástrofe (aqui talvez o fim da nossa Humanidade), tenta alertar-nos para a eventualidade. Berra e esperneia. O espectador, já domesticado no seu lar, permanece imutável.

Depois do filme, The End, sem o clássico The End, devolvemos os nossos sentidos às tentações virtuais desta neo-sociedade. Valerá a pena, ou não?

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