Imaginemos … por momentos, que podemos reduzir a nossa vida a uma ala numa galeria de arte: os artefactos expostos compõem a nossa existência neste Mundo. Agora imaginem que a galeria abre uma segunda ala (o nosso parceiro). Une-se à nossa, mas emancipa-se em paredes opostos; e dessa ala, é “gerada” mais uma … ou talvez duas … e porque não três. Olha só! É uma família!

No preciso momento em que inauguramos essa galeria, mesmo sem as reestruturações referidas, a nossa “vida” (leia-se: arte) está lá em exposição, pronto-a-ver a curiosos ou a eventuais compradores. Querem uma parte dela, talvez apenas aquelas que lhes interessam, e conseguem-na com fundos e mundos. “É aquele!”, apontam, indicando ao curador a seleccionada peça. E assim a levam, separando do resto da obra, da mostra. A distância traz a este mesmo elegido o seu valor ou a sua inevitável pobreza. Mas peguemos nessa DISTÂNCIA … não … não é uma erro de tipificação. As maiúsculas afastam-na do seu significado leigo; torna-se um fardo, um monstro gorduroso aqui, e é nisso que resumimos, numa palavra-chave, do que se trata. 

O realizador Hlynur Pálmason, por alturas do seu “Godland” (2022), referia com algum lamento a sua relação com a família: a “ideia de ser cineasta” cavou um buraco entre si e os seus. O encurtamento dessa distância (talvez metafórico, talvez terapêutico) acontece por via cinematográfica. Daí o porquê da existência deste “The Love That Remains”, filme que pinta a família e a expõe numa espécie de galeria, para vislumbre dos demais, a perfeição supostamente dela captada como os primeiros raios de luz ou os picos de beleza da sua modelo, isto, voltando à Islândia por cenários geladamente áridos, o oceano que banha e esculpe num gosto incriticável. 

Trata-se de uma família de cinco; o patriarca, a matriarca e os três ‘rebentos’, vivem como condição, sob as condições impostas e voluntárias impostas. Ela é uma artista em busca de uma galeria sua (julgavam que introduzi a metáfora da galeria do nada?), ele um pescador de arenque preso, às longuíssimas estadias em mar alto. Residualmente encontram-se, fornicam como consumação da saudade, tentam preencher o vazio deixado pela ausência, fingindo uma família de acessibilidades, mas algo falha, uma fissura que, a cada repercussão, abre mais e mais. Até nada mais fazer o devido sentido.

Pálmason presta-se a essa sua alegoria, contendo o seu jeito frívolo, sobressaindo o cenário, essa “terra de Deus” como algo maior do que o drama dos seus personagens e, em meio de interlúdios ora educativos, ora reveladores, exibe um improvisada mostra de artefatos e criativos objectos traduzíveis ao relacionamento nas suas diferentes fases, como videoarte, ou reels da sua entendida galeria. No fundo, é isso, um retalho da sua familiaridade, questionando ou induzido a sua satirização, sempre performatizado e perfumado. Um tropeção perante um mero acto divino. Família, funcionais ou disfuncionais, o palco de todas as tragédias inimagináveis, e em “The Love that Remains”, a imperfeição corroi todas as emolduráveis sugestões do contrário. Sempre pontuadas numa auto-depreciação crítica, sátira de longe e crueldade adocicada e um cão, um pastor islandês de nome Panda, a servir de conforto aos corações moles com a medianidade destes relacionamentos. 

É amor desejado, sem ambições de ser bigger than life a mando da bitola hollywoodiana; e a ser corrosivo sem se entregar ao mais negro dos abismos. Ficamos por aqui, como sempre no cinema de Pálmason desde a sua estreia em formato longo com “Winter Brothers” (2017), a família como alvo de destruição e da mais complexa compreensão, sempre de costas voltadas à convencionalidade.

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