A tremida do sobrenatural como clara alusão aos planos político-sociais não é uma tendência “moderna”, por mais que assim o lamentem os dengosos; é um utensílio narrativo desde os mitos gregos e as suas alegorias. Por outro lado, na arte, funciona como atalho ou cortina para deixar transparecer temas e provocações codificadas ao comum dos mortais. No cinema, o sobrenatural, mais do que o terror (género com o qual também se conjuga… e do qual se grita, do outro lado da bancada, ser hoje o mais político no cinema contemporâneo), é a alavanca primordial para, como cavalo de Troia, insinuar-se na consciência do espectador e, quem sabe, provocar uma discussão incidental.

Carol Rodrigues aproveita as brechas da sua realidade; é um “Turn the Screw”, de Henry James, com a domesticidade e a negritude (ou ‘colorismo’) como palco … o “As Horas que Ela Volta” tem fantasmas que dialogam através das suas manifestações previsíveis. “Criadas”, longe do terror e dos rodriguinhos do género, é um filme mal-assombrado sobre o confronto entre classes sociais, famílias projectadas mas nunca realizadas, e desses “demónios coloniais” que distorcem narrativas em deterioramento a pessoas negras e a sua História. Contudo, embora parta dessa ideia e dessas intenções para trazer os temas pretendidos e jogar com as perspectivas como numa partida ilusória, nunca consegue encaixar-se plenamente na sua própria demanda.

O que o impede? Claramente, o tempo investido e a sua gestão, que trava a fluidez narrativa e, ao mesmo tempo, cede em excesso às tais manifestações espectrais (realismo mágico como muitos baptizam, e cunham para lá do Oceano Atlântico), relegando as personagens para segundo plano. Pouco lhes concede para desenvolver ou habitar os seus traumas (por exemplo, o intervalo entre a procura de trabalho de uma das personagens e a sua estabilização, leia-se promoção, dentro da empresa que a contratou decorre num ápice quase imperceptível). Isto aproxima o filme de um tom quase coloquial, de trabalho escolar, ainda inexperiente (sim, sabemos que é uma primeira longa-metragem).

As Criadas” vive dessa companhia para lá da memória, mas não sobrevive nos seus próprios termos fílmicos.

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