Já viste bem!! Estão aqui quatro estrelas para o Carlos Paião!

Sérgio folheia o jornal até chegar à secção do cartaz, aos horários dos cinemas e das sessões, e, no meio daquelas listas e números, encontra uma tabela amarelada com os três críticos da “casa” e as respectivas pontuações. Aponta com o dedo indicador, desliza o jornal na minha direcção, como se estivesse a constatar a veracidade de uma suposta “história mirabolante”.

Vês!! Pá, foi o Vasco Câmara!! O que achas disto?”, pressionou a minha atenção naquele insólito do mundo da crítica.

O quê? Do filme?

Sim, seria o quê…

Antes de responder, fomos interrompidos. A empregada do bar pergunta pelo “nosso veneno”, sem desfazer o sorriso dos lábios.

Para mim pode ser um chá de cevada.” Nome de código para cerveja, este bar já se tornou demasiado familiar na minha rotina para permitir este tipo de confiança. “Para o meu amigo será um…?

Um panaché, se faz favor.

Um panaché?!” Fiquei admirado com o pedido. “Sim, está um calor infernal, queria algo… não sei, com sabor a limão, talvez, é refrescante!”, justificou.

Muito bem, uma cerveja e um panaché.” Garanti a pronunciação da palavra “panaché” com uma certa reprovação. Enquanto as bebidas eram preparadas, reiniciámos a pequena tertúlia.

Vá, conta. O que achas do filme? Para me chamares novamente, é porque a coisa não correu bem, não é?

Sim e não. Sei que tínhamos uma conversa pendente. Sim, seria sobre este filme, e não sobre ‘Memórias de um Cárcere’, por motivos que bem conhecemos.

Mas este filme, ‘Playback’, não justificaria uma crítica convencional?” Entretanto, as bebidas chegam à mesa. Um brinde. “A quê?

À vida. L’chaim.” O gole inaugural. “Bem… respondendo à tua questão, penso que a convencionalidade está datada. Ou melhor, há que procurar novos métodos e estilos de escrita, não para agradar ao leitor, mas para tornar este processo mais entusiasmante. Escrever sobre filmes vazios exige muita imaginação e alguma indignação. Daí ‘Soares é Fixe’ e ‘O Camarada Cunhal terem sido perfeitos para esta estrutura de autoficção.

Quer dizer que ‘Playback’, a tal biopic de Carlos Paião, é um ‘filme vazio’?

Sim e não…

Mau… estás demasiado críptico hoje!” Enquanto isso, dobrava o jornal e encostava-o à borda da mesa.

É um filme sobre o qual posso falar bastante em relação às decisões estéticas, formais e narrativas da vida de Carlos Paião. Nesse sentido, não é um filme vazio. Mas é-o enquanto biopic… deixa-me explicar.” Noto impaciência da parte do Sérgio. “Lembras-te do filme das Doces?

O ‘Bem Bom, da Sequeira?

Sim, esse. Da Patrícia, caso estejas indeciso com a Luísa Sequeira. Hehehe, não confundas.”

Sérgio Graciano dirige Rafael Ferreira na rodagem de “Playback” / Foto.: Filipe Feio/NOS Audiovisuais

Sim, vi. O que tem?

Bem, deves recordar-te de ser um filme em que se notava a limitação dos recursos.

Sim, cheirava a barato… o ‘Playback’ também cheira?

Sim, não o neguemos. Mas no ‘Bem Bom’ havia uma tese que articulava o lado biográfico do filme. Todas as cenas, por mais precárias que parecessem, continham uma ideia, no seu caso a exposição do sistema patriarcal ou, se quiseres, de um país ainda preso aos vícios conservadores do pós-25 de Abril, espelhados no percurso das Doces, da ascensão ao estrelato e, digamos, à queda. ‘Playback’, pelo contrário, não concentra nada de suculento na sua barateza. As cenas existem apenas para narrar a vida e a carreira de Carlos Paião, nada mais. Não há um olhar crítico, político ou social sobre o país onde o artista se insere.

Mas isso acontece com quase todos os biopics produzidos por aí, não é? Não me parece justo o ‘Playback’ levar na cabeça por esse mal comum.

Certo. Daí eu o destacar acima dos ‘bichos’ que mencionei. Soares e Cunhal poderiam ter funcionado como filmes políticos, só que o resultado, para além do barato e despachado, era completamente amorfo. Então o do Cunhal… foi doentio!

Sim, já me contaste. Ficaste doente, uma semana a paracetamol… blá, blá, *whiskas saquetas.*

… continuando…” Um valente gole para refrescar a garganta. Sublinha-se: fazia muito calor naquela tarde à esplanada. “Em relação a este ‘Playback’, fora os momentos musicais, que assumem um lado escapista, como se cada música apresentada em ecrã fosse um número digno de um musical por direito próprio, é um filme puramente desinteressado na sua apólice. Todo o contexto mundano de Carlos Paião é insípido, parece não ter vida, e aquele retrato de Portugal, sim, liga-se ao que estava a dizer, está completamente despersonalizado. Mas podemos desculpar os baixos recursos, comuns nestas produções portuguesas, sobretudo quando se trata de reconstituir o passado. Ou chamamos o Francisco Manso e a sua miopia, adequada à televisão, ou recorremos ao artifício, como Botelho fez em ‘Os Maias’. No caso de ‘Playback’, essa pobreza franciscana, sem qualquer subtexto político ou social, não lhe garante nada além da categoria de biopic. Depois, deixa-me dizer, há um desleixo com alguns elementos que me pareciam promissores. Há um momento específico em que uma personagem de chapéu, a quem baptizei de sombra, aparece a Paião num camarim, enquanto este está inseguro, e fala-lhe das áureas artísticas. É uma motivação. Num relance, através de um movimento de câmara, desaparece. Confirma as suspeitas: é fruto da imaginação, do ego de Paião, como preferires. A câmara move-se de novo (aliás é o Graciano novamente livre, com os seus constantes movimentos de câmara e travellings à lá Antonioni) e verifica-se, numa parede, a sua sombra. Ele está presente, não no espaço terreno, mas num espaço fora dessa materialidade…

“Mas isso é bonito! O que tem de desleixado?”

É o mesmo artifício de ‘Gainsbourg: (vie héroïque’), quando Serge Gainsbourg é visitado por esse ego-criatura, visível apenas para ele, que lhe refaz a persona artística. Só que esse filme faz dessa surrealidade, podemos chamá-la assim, o cerne da destruição da esquematização do formato biopic.”

E…?

Entretanto, a mesma empregada repara nos copos vazios em cima da mesa, aproxima-se e pergunta se gostaríamos de repetir ou pedir outra coisa. Peço outra cerveja. Sérgio diz estar bem e refere ter um compromisso dali a vinte minutos. Ela retira os dois recipientes vazios.

Gainsbourg (Vie héroïque) (Joann Sfar, 2010)

E Sérgio Graciano usa esse artifício apenas duas vezes, espaçadamente. Poderia fazer dessa ‘arma de Tchekhov’ uma fuga à sua suposta convencionalidade.

Acabaste de me dizer que ‘Playback’ tem sequências musicais ao serviço desse propósito… de escapismo?

“Sim, mas parecem-me pausas publicitárias ou ‘pausas para hidratação’, usando a nomenclatura do Mundial. Só que há algo que me atormenta neste filme.”

“O quê?” A minha cerveja chega à mesa.

O filme começa com um teaser da sua morte trágica e termina com o boato em torno dela.”

Qual boato? Desculpa não saber, se calhar devia?

Nunca ouviste falar do rumor de que Paião foi enterrado vivo?Sérgio faz uma expressão de surpresa e choque. “E foi?”, pergunta.

Não, claro que não. Mas, na altura, falava-se disso, de que, quando o desenterraram, encontraram marcas de arranhadelas no interior do caixão. Cresci com esse boato. O filme prolonga esse drama, sem especificar do que se trata. Se, por um lado, pode ser respeito pela sua memória, por outro é de um extremo mau gosto. Para quê aquilo? Há qualquer coisa de necrofilia naquele epílogo.

Calma, rapaz… sei que me tinhas dito haver uma ligação especial tua ao Paião. Não leves o caso ao peito.

Ah, não é especial, nem espiritual, nem nada disso. Foi… o Paião morreu no mesmo ano em que eu nasci. A música dele estava em todo o lado. Os meus pais ouviam um vinil com os maiores êxitos da sua carreira e, pelo que consta, usavam aquelas músicas para me entreter enquanto bebé. Não sei porquê, mas a primeira canção de que me lembro de cantarolar foi ‘Playback’. Talvez seja por isso que Carlos Paião tenha qualquer coisa da minha infância. Não é nostalgia, mas uma portugalidade que me foi ensinada. É música da Feira Popular, das cigarras nas noites de Verão, da pré-Expo, das velhas que vendiam milho para os pombos no Rossio, ou das noites decadentes que Lisboa conhecia, sujas, a altas horas, dos melancólicos e dos esquecidos. Sim, Carlos Paião diz-me algo, porque me remete para esse tempo, para essa cidade, para essa identidade cultural. Era um artista nosso, como o filme sublinha nas palavras de Albano Jerónimo, aqui no papel de produtor da Valentim de Carvalho: ‘vamos focar-nos em Portugal’. Portanto, ver este filme, a forma como trataram o meu menino, partiu-me o coração.”

Mas não achas este filme ao nível de ‘Variações’, por exemplo? Já que falamos de artistas do teu coração e do teu passado.

O ‘Variações’ era um filme mais certinho, é um facto, mas havia na figura de António uma espécie de revolta, e o filme, por momentos, insurgia-se contra o país que o produziu. Digamos que existia uma tese, como em ‘Bem Bom’, neste caso um Portugal demasiado conservador e pequeno para alguém tão grande como Variações. Além disso, tinhas o Sérgio Praia num desempenho de bradar aos céus, e o nosso saudoso Filipe Duarte, sempre impecável.”

Estás a dizer que o miúdo, como se chama mesmo?… não fez jus à figura do Paião?

Referes-te ao Rafael Ferreira? Não tenho grande coisa a dizer sobre ele. Simplesmente não é o meu Paião. Não o vejo como tal, lamento. Mas é energético nos momentos musicais, e isso basta para impedir que ‘Playback’ seja um ‘Soares é Fixe’, ‘O Camarada Cunhal’ ou, claro, ‘Linhas de Sangue’.

O teu Vietname.” Sérgio lança um riso curto porque, ao reparar nas horas, apercebe-se de estar no limite do tempo. Levanta-se, não sem antes dizer: “Bem, espero que esta conversa tenha sido terapêutica. Mas não te esqueças: ‘Playback’ é um filme de quatro estrelas no Público.

Fenómeno curioso. A imprensa, ou melhor, a crítica da imprensa especializada, tem-no defendido, mas a crítica independente não. Li uma crítica no site Tribuna do Cinema a arrasar o filme.”

“Mudando de assunto, sem mudar demasiado a estibordo, reencontramo-nos para discutir ‘Memórias de um Cárcere’.”

Desculpa, Sérgio, mas não. Sabes, esse filme está noutro nível. Tenho de escrever noutro formato. Não gostaria de o despachar através de um chit-chat.

Vais ceder à convencionalidade?

Não sei. Talvez sim, talvez não. Quem sabe? Posso estar bastante inspirado para o abordar de outra maneira. Espero não me arrepender. Dito isto, não te preocupes, eu pago o teu panaché”, novamente, dito sob uma certa reprovação.

“Playback” (2026)

Sérgio agradeceu e saiu de cena. Naquela esplanada, apinhada de pessoas de todas as estirpes e classes, o calor, esse amigo um tanto inoportuno, começava lentamente a dar lugar a uma pequena brisa, levemente fresca, que circulava pelo espaço exterior da Cinemateca. Sim, toda esta cena de quotidiano cinéfilo aconteceu na esplanada do Museu do Cinema, sob o holofote do Bar 39 Degraus. O product placement é escancarado, mas assumo-o, porque grande parte dos meus textos nasce precisamente neste lugar. São 19h00. Termino a minha cerveja, rapidamente transformada num caldo morno, e hesito entre procurar um lugar para comer ou ficar por aqui, fazendo tempo, como se costuma dizer, para a sessão nocturna, quando esta mesma esplanada, o convívio e os copos à mistura dão lugar a um cinema de rua, com um clássico estudado, projectado e maravilhado por olhares que o querem bem. Sim, preservado como legado do Cinema, não como passado, mas como eternidade, enquanto a Humanidade persistir nos seus erros.

Decido levantar-me, dar uma volta fora do recinto cinematográfico e espairecer até à hora marcada para o filme da noite. Cantarolo, ora impulsionado pela determinação com que aceitei o passeio, ora tomado pela melancolia da conversa passada: “Então… bate, bate coração. Louco e louco de ilusão, a idade assim não tem valor…

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