O romantismo da poesia pela janela fora: Simón Mesa Soto (“Amparo”) traz-nos um poeta, mas não a sua visão do mundo, antes a sua tragédia. Óscar Restrepo (a estreia de Ubeimar Ríos nos cinemas), antiga promessa da sua arte em Medellín [Colômbia], encontra-se agora reduzido à sua forma miserável: “borracho”, divorciado, desempregado, falido, ainda residindo com a mãe, sem reconhecimento algum, no fundo, uma vida que pede um abanão e não quadras.
Perante os avisos e ultimatos da família, aceita o cargo de professor numa escola secundária e, na sua turma, depara-se com uma revelação: uma das suas alunas (Rebeca Andrade) tem potencial para se tornar uma grande poeta. Depressa, Óscar engendra um plano para exaltar o talento da jovem, procurando colocá-la num conceituado Festival de Poesia. Contudo, as peripécias começam a acumular-se e o nosso poeta, perdido nas glórias nunca vividas, confronta-se com o humor sádico da sua própria existência.
Há quem veja “Um Poeta” como um apedrejamento à visão romântica das artes ( nomeadamente da poesia) ou como uma crítica à obsolescência desse vínculo no contemporâneo, contudo, foras as interpretações, o filme tem gerado um culto global que o tem feito angariar prémios em todo o mundo. Apresentado na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes 2025, onde recebeu distinção (Prémio de Júri), chega agora aos cinemas portugueses sob o fantasma de um eventual remake norte-americano.
A Colômbia surge aqui como um poço de poetas decadentes, ou algo próximo disso, e o Cinematograficamente Falando… conversou com o realizador sobre as nuances deste retrato de um “loser” e a sua deriva poética no âmago da própria queda.
“Un Poeta” é um filme sobre um poeta, mas a poesia aqui, representada no seu “universo”, não apresenta nenhum sinal de romantismo. É uma comédia sobre o fracasso, e ao mesmo tempo uma tragédia com o trágico senso disso.
Não me interessava idealizar nem romantizar a poesia enquanto arte, e sim o poeta enquanto personagem. Através do universo dos poetas aqui em Medellín, pretendi retratar os dilemas próprios da criação, da beleza que se encontra em todas as artes. É um tema difícil, a frustração, o fracasso, a da ideia de um reconhecimento sequer, mas talvez por isso seja uma comédia: para dar alguma luz a esses temas. Apesar do fracasso, queria que o filme fosse reconfortante, não encaminhar tudo para o abismo, mas encontrar a luz nessa escuridão que às vezes habita o processo criativo.

Sim, porque, como disse, este é um filme sobre o fracasso, sobre alguém que falhou na vida, ou melhor, na expectativa da sua ambição. De certa forma, também consigo ver na personagem do poeta, Oscar Restrepo, uma alusão à poesia contemporânea …
Para mim, a poesia, como te disse, está em todo o lado, na vida de qualquer pessoa, nessa procura dessa poesia ou dessa beleza no conjunto das coisas. Quanto à poesia enquanto arte, sinto que é uma arte do passado, que teve o seu auge numa determinada época (talvez no século passado, ou antes) quando a poesia tinha um peso muito forte na sociedade. Era até uma arte muito mais popular.
Para mim, a figura do poeta é como alguém que se agarra ao passado. Se olhares para o universo dos poetas em Lisboa como em Medellín, são pequenos nichos fechados de pessoas que habitam um universo mais ligado a uma ideia de passado, a uma nostalgia nunca vivida. Refiro-me especificamente a poetas como o Óscar. Porque, claro, existe uma poesia muito mais moderna, mas também muito mais pequena, que é a poesia das novas gerações. Mas essa não me interessava tanto; não me sentia tão atraído por ela, porque me revia mais nessa ideia do poeta boémio de outros tempos. Porque, digamos, revejo-me nessa figura, como se talvez o meu destino fosse ser um poeta boémio do passado [risos], um homem que já não é jovem, mas que também já é adulto.
Em Medellín, a figura do boémio é muito forte, não apenas a do poeta, mas também a do intelectual, do artista proveniente de uma geração anterior, aquele que está na casa dos 60 anos e que se agarra ao que foi. Acontece também um pouco com o cinema, que vive hoje um dilema em relação ao que representa. O cinema de autor, inclusive, parece cada vez mais uma arte que está a ficar para trás, porque as salas de cinema enfrentam dificuldades e existem plataformas que consomem um outro tipo de cinema. Então parece que o cinema também retrata essa nostalgia do passado, tal como acontece com a figura do poeta.
Quero voltar depois à questão do cinema e das salas de exibição, mas fiquei com a ideia de que apresenta a poesia quase como algo do passado, e a figura do Óscar como alguém que representa a ideia dos poetas já não terem utilidade nos dias de hoje. E falando nessa obsolescência, existe uma cena muito curiosa em que o tio da rapariga-promessa tenta vender enciclopédias (um objecto do passado) ao poeta. Vejo ali um paralelismo entre essa poesia passada e o formato enciclopédico, como coisas que já perderam a sua utilidade. Nesse termo acha que a poesia ainda tem utilidade?
Tem, mas a poesia enquanto arte (o acto de ler poesia) traduz-se hoje noutras formas. O hip hop, por exemplo, é para mim a poesia mais forte da actualidade. Quanto às enciclopédias: o que acontece na Colômbia é que o país parece viver alguns anos atrás. Em Medellín coexistem dois universos: o do subdesenvolvimento e o da tentativa de ancoragem no primeiro mundo. Há um jogo estranho, até há muito pouco tempo havia pessoas a vender enciclopédias … isso não era ficção para mim, era algo que via constantemente. Não pensei nas enciclopédias como símbolo do passado, para mim eram simplesmente naturais. São parte da cultura de Medellín.
Quanto às salas de cinema, como disse, o seu filme tem um detalhe muito interessante: as margens dos planos aparecem rasgadas, com fissuras, imperfeições. É como se o filme fosse feito de postais, ou fotografias de outras eras, como se fosse encontrado no meio do pó, uma espécie de found footage. Será que vemos nesta opção estética uma especificidade própria que o justifique ver numa sala de cinema, distanciar-se dessas produções de streaming?
Não estava necessariamente a pensar na sala de cinema quando pensava nas margens da imagem. Pensava muito mais no conceito global do filme, que remete para a personagem, a de alguém que vive no passado. Apesar de o filme decorrer no presente, a personagem vive daquilo que foi, do seu espectro. Continua a repeti-lo como figura, como ideia de memória, de nostalgia, de saudade de “tempos melhores” … portanto, para mim, toda a estética tinha de procurar aproximar-nos da natureza da personagem, fazer-nos sentir essa nostalgia que ela transporta. Isso acontece através da estética da película de 16 mm, mas também através dessas margens. Foi algo que acabámos por encontrar na pós-produção, mas já estava pensado desde o início. Quando vimos o material bruto, depois das filmagens, percebemos que podíamos optar por não o restaurar. Pareceu-nos estranho, só que no bom sentido. Interessava-nos essa … exacto … estranheza.
A ideia de fazer algo que não tivesse referências directas, que parecesse não existir ainda, ou procurar uma linguagem que não remetesse para algo já existente, para uma fórmula, para nada de reconhecível. Talvez a câmara seja tão instável, tão inquieta, porque sentíamos que isso também tinha relação com a loucura do Oscar, com a sua cabeça cheia de confusão e obsessões.
Como também queríamos evitar aproximarmo-nos demasiado de um cinema contemporâneo muito formal, muito previsível. Por isso procurávamos tudo aquilo que parecesse errado, ou melhor, “não errado”, mas tudo aquilo que não seguisse uma linha de referência previsível, que fosse uma decisão contrária ao que normalmente se esperaria.

Onde encontrou o actor principal, Ubeimar Rios? Porque ele é perfeito no papel.
É verdade! Começámos o casting muito antes das filmagens, porque sabíamos que estas personagens traziam muitos desafios (havia muitos diálogos, muitas acções, muitas nuances) e quisemos trabalhar isso com bastante antecedência. No início, queria que a personagem principal fosse interpretada por um actor profissional. Então procurámos, fizemos testes com muitos reconhecidos e profissionais na Colômbia, esta busca demorou meses. Em paralelo, fizemos também um casting com pessoas reais ligadas ao universo boêmio colombiano, seja da área da poesia e de outras artes presentes em Medellín, pessoas que, de alguma forma, se aproximavam às características do nosso protagonista. Porque queríamos criar uma mistura entre actores profissionais e poetas reais, para que o filme tivesse uma estética muito realista, até mesmo quase documental, e numa dessas buscas, um amigo meu enviou-me o perfil de Facebook do tio dele, que era o Ubeimar.
A minha primeira impressão não foi positiva, para ser sincero não o via como o meu poeta. Porque sinto que, quando comecei a escrever o argumento, a personagem era mais próxima de mim, mais pessoal, e à medida que fui escrevendo, foi-se afastando dessa percepção … porque as personagens ganham vida dentro do argumento e começam a seguir o seu próprio caminho. Mesmo assim, continuava a imaginar uma pessoa mais séria, mais formal. Por isso, quando apareceu o Ubeimar, a minha reacção inicial foi: “não é ele, não corresponde aquilo que procuro”.
Porém, à medida que comecei a observá-lo melhor, percebi que tinha uma forma muito única de estar e praticamente roubou-me a personagem. Ou melhor, transformou-a. Deu-lhe uma dimensão cómica, mas também uma empatia que o faz aproximar do público. Porque, no argumento, acho que esta personagem não gerava assim tanta empatia nem sequer afecto … era mais séria, mais seco. O Ubeimar trouxe-lhe a fragilidade, e com isso a humanidade.
Ele não era actor profissional, por isso foi um risco enorme, mas quando percebemos a força que tinha enquanto protagonista, decidimos avançar. Fizemos uma preparação muito longa, de cerca de dois meses, em que ele aprendeu toda a lógica de filmar um filme, de compreender aquela personagem, porque o Ubeimar e o Oscar, apesar de algumas semelhanças, são no fundo muito diferentes. O Ubeimar é uma pessoa socialmente muito funcional, feliz, não é alguém deprimido nem nada do género.
Ao longo desses dois meses, entregou-se completamente ao filme. Tornou-se actor, aprendeu os diálogos, transformou-se naquele imaginado poeta, e por isso mudou o filme. Mudou-o completamente.
Queria falar sobre a sequência no Festival de Poesia, o momento em que tentam transformar a poesia da rapariga em activismo, como isso fosse propício ao seu sucesso e ao reconhecimento imediato, além do delicioso pormenor do embate entre o poeta indígena e a poeta feminista. Sinto que o filme é muito crítico em relação a estes festivais que fazem da arte um gesto político, ou dos artistas que vivem dessa política enquanto arte.
Mais do que uma crítica, era uma espécie de libertação de mim mesmo para com este mundo do qual faço parte. Queria pôr o espelho sobre nós, não sobre os outros. Como somos neste nicho da criação artística, e sobretudo numa época em que ser uma “boa pessoa” é algo muito difuso, relaciona-se mais com projectar uma imagem do que com ser genuinamente uma “boa pessoa”. Hoje podes postar algo no Instagram e isso faz-te automaticamente uma “boa pessoa”, ou podes ser activamente político e mesmo assim ser uma má pessoa. O meu algoritmo artístico está sempre do lado dos “bons”, por assim dizer, mas estar do lado dos “bons” não te faz automaticamente uma “boa pessoa”, e isso é um dilema que me perturba.
Através da comédia podemos simplesmente jogar, ser incómodos, e tal é difícil de fazer agora, com os julgamentos tão fortes, com o medo generalizado de rir de algo que nos diz respeito. Na Colômbia é muito comum que toda a arte social se refira a um dilema social. Sempre olhamos um pouco de cima para as personagens, como num acto benfeitor. Para mim havia algo como um grito em mostrar este filme no mundo do cinema para dizer: nem todos os filmes que saem da Colômbia têm de falar dos dilemas políticos colombianos!
Está muito bem fazê-lo, mas nós também gostamos de árvores, do céu, das situações íntimas. O que estamos a fazer, e para quem?

Isso é muito curioso e pertinente, porque em muitos festivais, quando se programa cinema oriundo da América Latina, há uma expectativa muito estabelecida sobre o tipo de filme que vai aparecer. Cinema social, de guerrilha ou sobre temas fracturantes com as classes sociais de fundo, para ser mais exacto.
Exactamente! E está muito bem. O que me parece importante é a liberdade: o cinema é liberdade de fazer o que se quiser, mas sem fazer arte para agradar, porque a obra deixa de ser genuína. Podes falar de política, de problemas sociais, ou até de uma árvore, desde que venha de dentro, desde que seja livre. O problema é quando os circuitos, os mercados, os festivais nos limitam a certas formas, e a obra é feita para esses circuitos e não parte do interior.
Para fechar: queria que me falasse sobre novos projectos e o que pensa do possível remake americano de “Un Poeta”? Há quem fale de Bill Murray como protagonista!
Passei um ano completamente dedicado a promover o filme. Há alguns meses estou de regresso a casa, a escrever, a recolher imagens do que quero fazer. Há algo no universo da criação musical que me interessa muito. Estou a construir a história, ainda sem a ter encontrada, mas é um processo de que gozo muito.
Sobre o remake: na Colômbia e em outros países da América Latina o filme teve uma conexão muito forte com o público e gerou uma identidade muito … latino-americana. Quando saiu a notícia do remake, muitos rejeitaram a ideia, e faz todo o sentido esse rechaço, porque é um pouco o que Hollywood faz, o de apropriar-se sempre das histórias dos outros. Mas para mim, a película já existe. É uma obra como tal. Um remake não vai mudar a perspectiva do original. Quando nos contactaram foi algo completamente inesperado. Como também é como se a obra deixasse de ser minha e se abrisse ao mundo. Para ser sincero, tenho muita curiosidade em ver o que vão fazer com ela.
Quanto ao Bill Murray … acho que foi fruto de uma especulação de uma fã, ou de um poster fan-art. Não creio que o Bill Murray saiba sequer que o filme existe. Seria um grande actor para o papel, embora talvez demasiado velho.

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