Recordemos por momentos a animação de Alain Ughetto (“Interdit aux chiens et aux Italiens”), esse retrato de uma família concreta (e profundamente biográfica), espelhando esses movimentos migratórios italianos pela Europa do século XX. No caso do filme de Ughetto, França era a paragem. Já em “La prodigiosa trasformazione della classe operaia in stranieri”, a bússola aponta para a Suíça, onde esse mesmo êxodo parece ter deixado marcas profundas na configuração social e política do país (mais de 40% da sua população tem origem migrante).
Com isto, mergulhamos num documento de vivências e experiências. O realizador Samir Jamal Al Din (já havia abordado temas destes e pessoais em obras anteriores como “Iraqi Odyssey“) transforma a própria biografia em matéria documental, povoando-a de imagens de arquivo, animações 3D, talking heads, filmes e muito mais, representando esse burburinho histórico que procura evidenciar.
Assim, podemos lê-lo de várias formas: primeiro, como uma espécie de testemunho na primeira pessoa, o relato de uma classe trabalhadora transformada em corpo estrangeiro, atravessada pelas sucessivas mutações da imigração ao longo das décadas; depois, como um registo cinematográfico que acompanha esses mesmos fluxos e movimentos, transformando-o num filme de múltiplas camadas, embora concentrado num único país e numa única comunidade, os italianos na Suíça, e, paralelamente, nos últimos 60 anos do Partido Social-Democrata. Desde a condição quase sub-humana que lhes era atribuída ao reconhecimento enquanto migrantes de pleno direito, enquanto novas vagas de imigração iam ocupando o lugar do outro. E, em paralelo, acompanhando a ascensão da extrema-direita, das políticas anti-imigração e da forma como estas se foram desenvolvendo, adaptando e reproduzindo ao longo do tempo (por exemplo, quase um quarto da população que habita o país permanece à margem da cidadania: gente nascida nesse território, mas privada dos direitos que definem a pertença, excluída da participação política e silenciada na construção da sociedade a que, paradoxalmente, pertence desde o nascimento).
“La prodigiosa trasformazione della classe operaia in stranieri” sofrerá inevitavelmente com a polarização actual, essa que renega o diálogo, sobretudo por via de certos ‘observadores’ (e do Observador, esse e outros jornais de indisfarçável miopia política), que o arrumarão imediatamente na prateleira dos filmes de esquerda, da classe operária e apenas para consumo interno dessa mesma. Nesse aspecto, acredito que o espectador seja um pouco mais cerebral do que isso, mais do que os cães de Pavlov desta vida (nem vale a pena interditá-los de entrar), recusando reduzir tudo a uma esquina ideológica. Felizmente, o filme exige essa disponibilidade.
Infelizmente, também tropeça nas muitas categorias que insiste em acrescentar ao seu núcleo central … e aquela animação… (ui, ui)… com um uncanny valley bastante arranhado, acaba por soar redundante perante a força do material de arquivo e, sobretudo, perante a riqueza da própria filmografia convocada. Neste último ponto reside, aliás, um baú recheado de tesouros ainda por (re)descobrir por essa nossa cinefilia.

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