O vampiro de Nova Zembla conseguiu esgueirar-se para uma sessão de Disclosure Day em Helsínquia, já que a Rússia continuava fora do circuito internacional de cinema. Projetou mentalmente a sessão para alguns membros do Círculo de Leitores do Ártico que, entre a ironia e o desinteresse, chegaram a uma conclusão de rara unidade: num mundo assombrado pelo enxofre de Donald Trump — não era necessária qualquer alusão direta no filme para perceber que ele era assombrado por ele — a velha ética “spielbergiana” e das democracias liberais surgia perplexa, hesitante e a corromper a própria “mensagem” que um observador das galáxias pudesse ter sobre esse planeta convulso.

Por outras palavras, os “aliens” parecem ter vindo novamente em paz, mas aquilo que possam ter para dizer passa longe do aviso sábio aos humanos saídos das atrocidades da Segunda Guerra Mundial em O Dia em que a Terra Parou ou da comunhão positiva imaginada em Encontros Imediatos do Terceiro Grau. Se a mensagem está escrita, conforme a idealização metafísica de Galileu Galilei, em linguagem matemática, Spielberg parece estar a dizer aos humanos: “se querem safar-se, façam-se à vida“. Não chega a ser um cinismo apocalíptico, mas mostra bem o estado das coisas.

O vampiro de Svalbard, a acender o seu cachimbo imaginário e a contemplar as profundezas do céu furiosamente enevoado sobre um calhau de Spitsbergen, apontou:

Bom, ainda é um filme totalizante. Spielberg continua a pensar na humanidade inteira. Este é o seu primeiro desafio: já não existem comunidades humanas suficientemente estáveis para receber uma mensagem comum. Talvez uma invasão alienígena pudesse ligá-las durante alguns dias através dos seus smartphones. Mas depois voltariam imediatamente a separar-se.

O vampiro de Brock parecia desinteressado.

É um filme de ação, curiosamente desconjuntado. As piruetas das câmaras de Janusz Kamiński, a montagem frenética de Michael Kahn e Sarah Broshar e o argumento 40 vezes reescrito de David Koepp, dizem-nos que estamos perante uma história de conspirações, segredos revolucionários e alta tecnologia. Mas quando chega a hora da transcendência baseada nas revelações do passado da personagem de Emily Blunt, a narrativa entra num modo contemplativo. Uma espécie de Malick sem poesia.

O vampiro de Ellesmere, que também não ficou enlevado com o filme — seria um desapego vampiresco milenar perante as narrativas humanas? — acrescentou:

Os tropos estão todos lá. O trauma do passado. A criança interior ferida. A pessoa especial capaz de ouvir a mensagem. O encontro com o desconhecido. A promessa de transformação.

Fez uma pausa.

O problema é que o filme comporta-se como uma máquina de transcendência durante duas horas e depois parece esquecer-se de a entregar.

Ninguém respondeu imediatamente.

Até que Muckle, o vampiro conservador das Shetland, interrompeu o silêncio:

Talvez a transcendência seja descobrir que ninguém virá salvar os humanos.

Isso não é transcendência — respondeu Ellesmere. — É apenas administração de expectativas.

Todos concordaram.

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