Os seus ombros carregam as preocupações do mundo, não do estratosfericamente composto, mas do seu: íntimo, familiar, memorial. Rita Cabaço chega ao Alentejo, ou melhor, regressa, necessitando de encontrar razão junto dos “latifundiários” que tiveram a sua mãe ao serviço como mulher-a-dias e de noites também. Mas a sofredora personagem que a actriz – dos palcos teatrais ao sucesso televisivo (o meme vivo em que se converteu graças a Bruno Nogueira e ao seu “Ruído”), com algumas metragens pelo meio dessas constelações – interpreta decide escapar, ou escapar-se por entre o drama imposto pela ficção que integra.
Num ‘tasco’ à sua medida, “sequestra” as colunas e, ao som da doce e melodiosa voz de Sara Tavares (“Diz-me coisas bunitas, sussurradas no ouvido”), a “voz amiga” de que tanto precisava para aquelas andanças desacostumadas, Cabaço apodera-se do espaço, balança, movimenta-se coreograficamente, torna-se rainha daquele instante. O seu corpo de trabalho, de mártir, oscila entre o libertador (sexual e socialmente): aquele corpo não pertence a ninguém, nem a extracto social nem sequer matrimonial.
Livre no seu vestido verde, a imagem de alguém a dançar sozinha (e com o filme a colocar-se ao serviço desse momento) torna-se exemplo máximo de liberdade cinematográfica: deixar as personagens transformarem o cenário na sua própria pista de dança. “Dance with Myself”: Billy Idol conquistou popularmente as radiofonias de todo o mundo; como é bom bailar com o nosso espírito, com o nosso eu. Contudo, a imagem conduz-nos a outra, de geografia distinta, não um espelho, mas uma consolidação dessa liberdade: Maribel Verdú em “Y Tu Mamá También” (2001), o filme-sensação de Alfonso Cuarón, onde também, dona da playlist, dançava como prova da sua emancipação, mensagem ao mundo (igualmente pequeno na sua dimensão): “este corpo pertence-me”, não o disse, mas a linguagem corporal citou.


Voltando ao ‘português, “18 Buracos para o Paraíso”, alusão à composição de um campo de golfe, apresenta-nos o destino, esse tão discutido, de uma herdade no fim do seu ciclo: vender para esses propósitos ou preservar as estruturas “latifundiárias”. A família herdeira reúne-se e discute os planos de venda; uns opõem-se, outros apontam o progresso como inevitável, enquanto alguns lamentam a perda identitária de um eventual brasão familiar. Entretanto, um incêndio alastra nas redondezas; acredita-se que será facilmente dominado pelos bombeiros, mas, dia após dia, o inferno conquista o tão proclamado paraíso. Narrado em três perspectivas, com três personagens centrais (as duas primeiras pertencentes a esta família burguesa, interpretadas por Margarida Marinho e Beatriz Batarda), o filme distribui os seus olhares: a primeira entregue a um certo vitimismo egoísta; a segunda em repúdio da miserabilidade, com a sensorialidade a ocupar lugar na sua narração; e, em terceiro, como referido, Rita Cabaço, voz dos ‘operários’ e das classes exploradas, suplicando pela sensibilidade dos ricos.
João Nunes Pinto (com o argumento de Fernanda Polacow) não tem mãos a medir no tratamento dessa “burguesia que fede”: são caricaturas, meus senhores, em consonância com certas tendências actuais onde… já percebemos! Introduz-se a sátira dos estatutos fragilizados e dos privilégios desencantados, mas talvez devamos questionar esse retrato e o modo como se impõe na contemporaneidade, num tempo em que as redes sociais dominadoras da nossa atenção nos atribuem uma falsa sensação de proximidade e equivalência, a de classes diluídas, a ilusão do século XXI e do seu capitalismo esfomeado. Retalhando essas perspectivas, algures entre a desconstrução de uma telenovela da TVI (pequenos-almoços requintados ou negócios em família enquanto se janta), é no olhar de Rita Cabaço, o derradeiro tomo, que o realizador regressa ao seu habitat natural … é nos desprovidos, nos desprivilegiados e, sobretudo, nos desesperados que o seu cinema encontra vingança e razão (nos anteriores “América” e “Mosquito”, a perspectiva esteve sempre nesse desfavorecimento).
É aí que a crítica faz sentido, e onde aqueles ‘bonecos’ a fazer-se de ricos são abalroados na inquisição do filme. No final, com tanta mistura e classes em confronto, quando lhes são retiradas as características e um inimigo comum os rodeia, incinerando posses e propriedades, aí, em jeito de “Guernica”, de Picasso, Nunes Pinto realiza a sua obra-mestra, só que o processo que a antecede tem mais pinceladas em falso do que verdadeiramente certeiras.

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