Será que mudamos de cor nos nossos sonhos?”, questiona a jovem Akame (Arisa Sasaki), agora intitulando-se Deep Sea, estudante de um colégio interno japonês especializado em “criar” sereias, atracções de aquário ou, melhor dizendo, em “Titanic Ocean”, da grega Konstantina Kotzamani (“Electric Swan“), uma prolongação da fantasia quase disneyana desses seres mitológicos, outrora devoradores de marujos e náufragos, mas que um dia Hans Christian Andersen reinventou como par romântico. Séculos depois, a Disney cristalizou essa imagem no seu sucesso de animação e, com isso, a ideia da “sereia boa” sobrepôs-se à ultrapassada figura da carnívora marinha.

Mas regressando a “Titanic Ocean” (o título alude à criação de um novo oceano): esta Deep Sea vive num constante dilema identitário, procurando uma voz encantada (quase como emanação desse imaginário do estúdio americano) que encaminha este coming of age para territórios de realismo mágico. Submetido a uma estética pop, o filme acaba por se assumir como uma fabulação sobre a juventude e a sua resistência em permanecer inocente; e dificilmente haverá fonte mais propícia para essa inocência do que uma adolescente intensificar a sua transformação em sereia. Se, por um lado, se sente uma certa infantilização dos adultos (desde logo pela preservação desse “mundo fantástico”), por outro surge o capitalismo como providenciador desses mesmos “sonhos húmidos”. Kotzamani brinca com os teores do real para confundir o espectador na sua percepção quanto à realidade e, nesse processo, desafiá-lo a acreditar ou desacreditar das intenções dos envolvidos. Há aqui uma pureza falseada, tingida por uma sexualização incisiva, embora nunca plenamente esclarecida quanto à imagem de desejo projectada por estas sereias.

Enquanto formato coming of age, talvez mais comprometido com a sua própria descrença, “Blue My Mind”, por exemplo (a primeira longa-metragem da suíça Lisa Brühlmann), detinha essa ambição; “Titanic Ocean”, pelo contrário, acaba por se perder no seu próprio emolduramento.

Filme visualizado no âmbito da secção Un Certain Regard do Festival de Cannes 2026

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