Listen!

Será um filme de Steven Spielberg ainda um acontecimento capaz de fazer mudar o agendamento dos noticiários? As bilheteiras confirmarão logo o binário sucesso/fracasso, mas se nos quisermos libertar da escravidão dos números e dos binarismos associados, podemos pelo menos atestar que o mestre norte-americano de 79 anos, que praticamente cunhou o termo “blockbuster” depois do êxito de “Tubarão” de 1975, continua a explorar os temas que sempre o definiram, com as nuances atuais que tanto nos marcam no dia-a-dia e com um “savoir faire” ímpar, se comparado com os seus pares e descendentes na linhagem.

Em “Disclosure Day – Dia da Revelação“, a invasão alienígena já passou ao contrário dos filmes de desastre do género (incluindo alguns do próprio Spielberg)… de uma forma curiosa, o cerne da narrativa, que confere o clímax titular, é divulgar ou não estas imagens, num mundo que já não sabe em que acreditar – e não falamos só em Divindades religiosas, claro, mas o verdadeiro vs falso são conceitos cada vez mais plásticos e maleáveis como opiniões na era da Inteligência Artificial, onde vídeos podem ser criados de raíz sem qualquer base “terrena”.

O olhar do espectador mudou assim, de uma crença na magia do cinema e dos seus efeitos para uma descrença constante sobre tudo o que vê. É irónico que um CGI (ou AI?) mais fake aqui esteja associado ao tratamento dos animais que servem como ponte para os alienígenas poderem comunicar connosco. E talvez, quiçá, intencional que os seus corpos não sejam renderizados exatamente ao nível do restante mundo à sua volta.

Spielberg, geração boomer, ainda acredita Numa Verdade que seja pelo menos um mínimo denominador comum que nos consiga unir em torno de um propósito. Esse romantismo completamente anacrónico pode chocar com o nosso cinismo, e logo aqui cria divisões (saudáveis) no confronto com esta obra; mas se formos a partir a mensagem deste seu último testamento, é muito simples ou não fosse este para todos os efeitos o regresso ao blockbuster de verão: o ser humano, enquanto não recuperar a empatia da espécie, e consequentemente uma visão de comunidade planetária, está condenado à (auto)destruição. Nada de novo, dirão os outros velhos. Talvez, mas então desafio a que me mostrem um exemplo recente, de um blockbuster de verão ou um filme de inverno, de qualquer geografia, ou usando a própria filmografia de Spielberg, que termine de forma tão ousada com uma simples palavra de ordem.

Ouçam! Spielberg não quer criar uma nova religião com este seu tratado, não – diz até explicitamente através da personagem Margaret Fairchild (uma brilhante Emily Blunt, num provável pico de carreira): “I will not be anyone’s religion” (Eu não serei a religião de ninguém). Apesar da sua fé judaica, e apesar da revelação trazer em si uma verdade através de uma compilação de imagens de arquivo das forças militares de defesa, ele parece perceber também as limitações dogmáticas de cada Credo, porque ultimamente o que fazem todas as religiões organizadas é fechar o indivíduo, em vez de o fazer questionar, qual Ciência, sobre a nossa existência em confronto com outras. E é precisamente este apelo final à escuta, ao desligar de narrativas pré-concebidas, incluindo as nossas fés endoutrinadas por Bíblias, para depois sim reconectar, que aparece como um dos gestos mais punk de 2026.

Estaremos prontos?

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