Demorou, mas chegou. Já em 2016, a propósito de “Cartas da Guerra”, adaptação dos escritos de António Lobo Antunes sobre a experiência nos confrontos ultramarinos, Ivo M. Ferreira falava da ambição de levar ao grande ecrã os enredos da FP-25 de Abril.
E ei-lo: O “Projecto Global”! A história da organização armada de extrema-esquerda que operou em Portugal nos anos 80, num gesto raro de escala e ambição, o mais próximo que temos de um “blockbuster nacional”. Num tempo em que se reabrem debates sobre os ecos da Revolução e da legitimidade da democracia, o filme estreia num terreno sensível: desenterrar fantasmas que uma ala política preferia manter soterrados e que outra, a esfregar as mãos no revanchismo saudoso, se apressa a ampliar.
Há guerrilha, há ideais por cumprir, há o risco de romantização do terrorismo, mas, no centro, estão pessoas: portugueses de várias esferas que, com todos os meios que julgaram legítimos, lutaram por um país imaginado. Rosa (Jani Zhao) é uma dessas fragmentações: personagem e síntese, carne e ideia, entre o fervor e a falha.
O Cinematograficamente Falando … falou com o realizador sobre este desafio no cinema português, “agraciado”, ora pelo público indiferente do Cinema feito por cá, ora pelos ventos conturbados que sopram incessantemente.
Na anterior nossa anterior conversa, em 2016 no âmbito do “Cartas de Guerra”, quando lhe perguntei sobre este projecto [“Project Global”], disse que as pessoas à sua volta questionavam o interesse: “se os próprios que viveram isso não querem falar, para que raio quer você?” Gostava de partir dessa citação para perceber de onde vem este interesse e porque quis falar deste tema.
À partida, se formos ser directos, não é um tema … diria … sexy. Estamos a falar de um grupo armado revolucionário que surge já nos anos 80, depois do 28 de Setembro, do 11 de Março, à tal tentativa do Spinola de reverter o 25 de Abril, do 25 de Novembro, depois de toda a chamada normalização democrática. Um grupo sem carácter independentista (ao contrário da ETA ou do IRA) que cometeu erros táticos, que teve vítimas, que ninguém recorda, e de quem a memória que existe é a de o próprio povo a persegui-los e a atirar-lhes pedras. Um grupo que supostamente queria levar o povo a uma insurreição armada, e que acabou a levar com o povo em cima.
É um tema nada fácil de pitchar. Eu próprio tive que o fazer no Film Fund do Luxemburgo e a co-produtores internacionais, e garanto que não é a coisa mais simples do mundo. Mas é exactamente por isso. Tenho particular interesse por estas histórias mais azinhagas, mais cinzentas, mais lamacentas, com ambivalência moral, com dúvida, com erro. Interessam-me muito mais do que as grandes histórias vitoriosas.
Continua a ser, para mim, um tema que vale a pena, e continuo a gostar muito destas páginas omissas dos livros de história e dos silêncios da sociedade portuguesa.

Confesso que quando saí do filme, uma das primeiras sensação foi de estarmos perante, possivelmente, no primeiro blockbuster à portuguesa … no bom sentido do termo. Há aqui uma escala de produção o qual não se está habituado a ver em cinema português.
Se tiver a adesão de um blockbuster, isso já seria bom, mas infelizmente é que as pessoas não estão a ir ao cinema ver o que quer que seja. Há um efeito que percebo que te tenha conduzido a essa sensação, está relacionado ao facto da acção ser inerente às personagens e não uma coisa imposta à narrativa. Não fui fazer um filme de acção, fui fazer um filme sobre a luta armada, e as personagens passam a fazer o que eles chamavam ‘recuperações de fundos’, que consistia em assaltos a bancos. A acção veio atrás daquilo que era próprio dos personagens. Nós vamos sempre atrás deles, só que a certa altura eles começam as tiras e nós continuamos com eles. Foi assim que filmei as cenas de acção: exactamente como filmaria qualquer outra coisa.
Agora, não te vou esconder que gostava imensamente que o filme pudesse fazer alguns números interessantes, até porque é importante para o cinema português em geral. Estamos neste momento com um bom exemplo, com o “Entroncamento”. Vamos ver como corre.
Uma das constantes reclamações sobre o cinema português é a forma como reconstitui o seu passado contemporâneo: o século XX. O que normalmente vemos são episódios sobre a ditadura ou o pós-25 de Abril entregues à RTP com orçamentos baixos, com uma imagem que trai os meios. O “Projecto Global” parece mostrar em ecrã o dinheiro que tem investido.
Houve um grande, grande cuidado e igualmente um grande investimento. Nada do que ali parece fácil foi realmente fácil. Pego no exemplo mais emblemático: o largo onde decorre um dos assaltos. O banco não existe, o edifício não existe. Aquele banco é uma fachada feita inteiramente em decoração, com colunas de mármore que são pintadas, construída para encaixar nos edifícios existentes naquela praça. Quando entras dentro do banco, estás dentro de um estúdio de 150 mil euros no Luxemburgo. Todo aquele largo estava abandonado, sem lojas, sem cafés, sem pessoas. Só de perucas foram 400 neste filme.
Depois tens os carros: aparecem centenas de carros de época neste filme. Imagina o que é ter um carro com 40, 50, 60 anos a fazer uma cena em Santarém, outra no Algarve, outra no Luxemburgo, em cima de outros carros, porque não voam sozinhos, e iam logo à vida. Para ter carros de época tens de ter mecânicos em permanência, e para ter os vidros a partir deles tens de ter uma equipa de efeitos especiais, e para garantir que os vidros não saltam para os olhos dos actores tens de coordenar com um coordenador de duplos, e para garantir que tudo corre em segurança e à primeira, porque não há hipótese de reset.
Cada dia era uma ficha cara, mas cada dia era uma ficha. Quando fazes uma explosão, só o reset, tirar o guarda-roupa, limpar o carro, o pó, vagar a estrada … já foste. Mas há uma grande concentração nisso, e isso é muito bom. Dizia sempre: “a má notícia é que temos sempre dois takes, o primeiro e o último.” A vantagem é que nos põe com uma atenção enorme no momento. Foi uma equipa extraordinária, que chegou ao fim toda abraçada. Alguma coisa fizemos bem.
Passando à estrutura narrativa: para que o espectador pudesse empatizar com o movimento, foi necessário criar uma personagem central através da qual entramos neste mundo. A escolha foi a Rosa, interpretada pela Jani Zhao, com quem já trabalhou antes, na série “O Americano”. Mas gostava que falasse da criação desta personagem, se tem bases na sua pesquisa, e também sobre a ousadia da escolha de casting, que certamente será alvo de críticas de um certo sector.
Escrevo personagens por muitas razões, mas há aqui uma que é honesta: o problema de um homem que abandona um filho não é, no nosso ADN dramatúrgico, o mesmo que o de uma mulher que abandona um filho. A mulher tem mais a perder neste caso específico. Como há também muito da minha experiência pessoal nesta personagem.
O filme passa-se numa comuna, num teatro. Quando era pequeno, a minha mãe, que é actriz, levava-me para aquele palco. Era o pequeno miúdo que andava ao colo de um lado para o outro. A minha mãe fez parte do Partido, tinha o teatro, tinha a política, tinha muitas questões. Os meus pais conheceram-se em Paris e vieram para Portugal (eu já nasci cá, já nasci com um erro político, porque a revolução não estava implementada tal como se provou). Nasci em Setembro de ‘75, e já se sabe o que aconteceu dois meses depois.

O meu pai ainda teve que ir à autocrítica. Há um lado em que, quando quis falar sobre este tema, me pus no papel do miúdo, o mal ser eu quando era pequenito, e a Rosa ser, de alguma forma, a minha mãe. A minha mãe não fazia parte da luta armada, que isso fique claro! [risos] Mas está lá, impregnado. É como digo: uma grande falta de imaginação. Passo a vida a recriar coisas que imagino, que vejo na rua, que me aconteceram.
Ou seja, a Rosa é, de certa forma, uma materialização da sua figura maternal?
Sim, claro que sim. A minha mãe vai ficar furiosa com isto. Mas sim [risos].
E sobre a escolha da Jani Zhao para o papel?
Trabalhamos com cento e quarenta e oito actores e milhares de figurantes. Houve um trabalho muito sério com o elenco. O Francisco Barrão Ruivo, historiador que vai agora publicar o livro científico sobre a investigação feita para o filme [“As FP-25 e o Pós-Revolução: «Normalização» e violência política”, editora Tinta da China], deu uma palestra aos actores para contextualizar o tempo histórico e político.
Depois houve um núcleo de actores que foi vendado e levado para o Alentejo, tinham um pequeno mapa no bolso, no meio da lama, e tinham de descobrir uma casa onde estariam escondidos. Passaram três dias em personagem, a discutir política, e andaram meses com armas no bolso … réplicas coloridas, para ter a certeza de que ninguém levava um tiro a brincar às escondidas com a polícia. [risos] Para se habituarem a andar com elas, a sentar num carro, a mover-se naturalmente.
Com a Jani, tinha uma ideia muito fechada. O filme assenta muito na Rosa, se falhas esse casting, perdeste o filme. Foram três castings bastante profundos para esse papel, e havia uma energia que procurava e que ia encontrando mais na Jani. Também há uma vontade de filmar que é um acto de amor e, pontualmente, um acto de sensualidade. Queria que o filme tivesse essa sensualidade, não com ombros à mostra, mas uma sensualidade de matéria, de presença. Acabei por a convidar. Foi ela própria que me disse, num momento em que ainda estava indeciso: “Olha Ivo, se tu falhares, eu falho. O filme falha. Estamos os dois na mesma situação.” E foi aí que percebi.
Há ainda uma coisa: o filme atrasou um ano por questões de financiamento, uma plataforma internacional retirou-se à última hora com um compromisso de meio milhão de euros, e nesse ano de adiamento é que entrou “O Americano”. A actriz que estava escolhida para a filha da Rosa tinha crescido um palmo nesse ano, já parecia quase minha mãe [risos], não dava. Foi aí que a Lia, a nossa filha, entrou na equação.
Para fechar: o filme estreia num timing que parece quase calculado. Estamos a debater a Constituição, o legado do pós-25 de Abril, e há deputados a fazer afirmações falsas sobre o número de presos políticos antes e depois do 25 de Abril. O filme chega exactamente neste momento.
Há uma coisa que posso dizer: nem tudo corre mal. Mas era muito claro para mim que não queria que o filme estreasse no âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Faria mais sentido estrear no âmbito das comemorações do 25 de Novembro, por exemplo.

Detesto filmes oportunistas, detesto todas essas oportunidades. O 25 de Abril é uma data muito importante que tem de ter todo o seu respeito, não se pode pôr tudo dentro da mesma batedeira, porque o resultado é um shake de banana com sardinha. Fico feliz que o filme, apesar de ter sido desenvolvido muito antes e não ter vindo em resposta directa ao que se passa hoje, foi sempre feito em tensão com o presente, com o tempo. Não houve calculismo nenhum.
Evidentemente que estar perto do 25 de Abril ajuda editorialmente: os jornais, as reacções. Só que não está no âmbito das comemorações, e isso era importante para mim. Há também mais uma coisa que vale a pena dizer: há deputados que fizeram parte de organizações bombistas de direita, responsáveis pela morte do Padre Max e de outros, que nunca foram amnistiados nem a julgamento e que hoje estão na Assembleia da República. O CODECO [Comandos Operacionais de Defesa da Civilização Ocidental] era o braço armado bombista do CDS …
Não estou a dizer com isto que mataram menos, a FP’ teve aquele acidente em São Manços que vitimou um bebé, e cerca de 16 ou 17 vítimas, incluindo os próprios. Já os outros, esses “corretores” de outra ordem … é como se nunca tivesse existido, diluído no próprio dia em que se comemora a Constituição e ainda há quem procure, noutros planos, acusar a esquerda, ou mesmo os constitucionalistas, de integrarem redes de suspeição.

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