Abrem-se as portas do Âmbito Cultural do Corte Inglês [Lisboa]. As cadeiras já estão montadas, a tela preparada ao fundo da sala de congressos e, à margem dessa formatura de assentos, um pequeno bar improvisado na extremidade: copos em igual formação, garrafas de vinho branco a refrescar em baldes de gelo. Tudo a postos! Será um duplo lançamento daqui a meia hora, e os primeiros visitantes, em passos tímidos, penetram no espaço, escolhendo os lugares centrais, de vista privilegiada, num misto de hesitação e desdém, para disfarçar, como se cometessem um crime miúdo e o flagrante delito fosse motivo de vergonha geracional.
Fui um desses curiosos, mas com intenções que ultrapassavam a mera curiosidade: vinha encontrar-me com Filipa Martins antes do seu devido momento sob os holofotes, o lançamento do novo livro (curiosamente no Dia Internacional do Livro) e a apresentação de uma curta realizada por si, “The Reminder”, sob o apoio da Leopardo Filmes, ou, melhor dito nestas andanças, “uma produção de Paulo Branco”. Ainda assim, foi indirectamente através do produtor que este encontro se proporcionou.
Não há muito tempo estreara “O Barqueiro”, a segunda longa-metragem de Simão Cayatte (“Vadio”), um filme de travessias por rios humanistas, com um navegador em busca da sua redenção. A argumentista, neste caso, a nossa escritora, explicará melhor a obra escrita a seis mãos, recorrendo ao universo jornalístico onde começou e à prosa que fez palco. Recordar que palavras suas já geraram obras, quer para o grande ecrã (“Bem Bom”, “KM 224”), quer para o pequeno ecrã (“3 Mulheres”, “Mulheres, às Armas”). Agora, ali, entre o trabalho lírico e as imagens, ensaia um novo alfabeto que experimenta, degusta, saboreia, e cujo apetite dificilmente se dará por saciado.
Mas avancemos menos. De regresso à retaguarda da narrativa, Filipa entra no espaço. Ainda restam alguns minutos antes do início da sessão. Digo-lhe que venho falar de “O Barqueiro”, mas, pelos vistos, a personagem de Romeu Runa levou-me a outras paragens: “The Reminder” e “No Meu Fim Está o Meu Começo”, o novo romance [editado pela Quetzal], ponte entre mãe e filha, com a demência como antagonista e um Portugal esquecido, “branqueado” por revisionismos trazidos por novas forças políticas.

Será uma conversa breve, prometo [risos] e como arranque gostaria que me falasse sobre a sua envolvência no “O Barqueiro”. Co-escrito por si, Vasco Gato e Simão Cayatte.
Sim… bem, a história de “O Barqueiro” surgiu como um desafio, um convite que me foi feito pelo Paulo Branco. Era uma história que queria muito ver contada, esta ideia de um homem que está há muito tempo na prisão e de como é que ele se consegue … ou não … reintegrar na sociedade. Era um projeto sobre os “transparentes”, os invisíveis, um tema que me interessa muito e que, de certa forma, também dialoga com o livro que agora publico. O desafio era tão abrangente quanto isso.
Comecei a escrever com o Vasco e fizemos trabalho de pesquisa, falámos com reclusos, com ex-reclusos, e tentámos perceber qual é o caminho, feito de várias tentativas, que alguém com uma pena longa tem de atravessar. Neste caso, o Joaquim esteve mais de 15 anos na prisão. O que é que ele precisa de ‘atravessar’ para conseguir reintegrar-se.
Atravessar … gosto da palavra, adequada para esta jornada …
Sim, sim, claro. Era muito esta ideia de reencontro, de voltar à família, de reencontrar alguém que deixou há 15 anos. Neste caso, a filha, que era praticamente um bebé quando ele foi preso. Perceber que, para além de todos os condicionamentos da própria sociedade (que continua a olhar para estas pessoas com estigma, mesmo depois de cumprirem a pena) existem também muitos bloqueios internos.
Por vezes, até em gestos muito simples: comer com talheres de metal, pegar num copo de vidro… coisas absolutamente banais do dia a dia, mas que ganham outra dimensão quando se está 15 anos sem acesso a elas. E este homem, quando sai, vive muito nesse limbo entre sentir-se arrependido ou redimido. Questiona-se se tem direito a regressar (à família, à casa) e a interferir naquele pequeno ecossistema que, na verdade, continuou sem ele. Por vergonha, acaba por nunca se aproximar totalmente. Fica ali, numa espécie de vigilância à distância, enquanto tenta, de alguma forma, preparar esse reencontro. Faz isso através de um gesto muito simbólico, quase infantil, que é a compra de um piano branco: a tal promessa que tinha feito à filha.
Cria-se aqui um paralelismo entre este homem, que se sente à margem, e tantos outros homens e mulheres que vivem à margem todos os dias. Neste caso, os trabalhadores da apanha ilegal de amêijoa no estuário do Tejo. E ele funciona quase como uma espécie de… faz lembrar um pouco aquele barqueiro que levava as almas…
O caronte?
Exacto! Aquele que levava as almas para o céu ou para o inferno, no fundo. Este barqueiro de almas perdidas, que tem essa dupla função.
Ao mesmo tempo que é carcereiro, é também uma espécie de salvador. Há aqui esta ideia de violência cíclica: se alguém que esteve muito tempo na prisão por causa de um gesto violento, ao sair, consegue libertar-se desse vórtice de violência… e, ao mesmo tempo, se a própria sociedade é capaz de o reabilitar.
E ao mesmo tempo, toda essa travessia e a constante travessia que ele faz com os imigrantes … estou a supor que são mesmo imigrantes, aqueles que vemos no filme?
Sim, são realmente imigrantes … não-atores.
Com excepção da Jani Zhao.
Exactamente!
Todas essas travessias são obstáculos para reencontro da humanidade desta personagem, até porque, e muito graças ao desempenho de Romeu Runa, temos um protagonista indesejado, marginalizado, soturno e de alguma forma muito oprimido.
… e muito inadaptada, acrescento. No fundo é isso mesmo.
Isto acaba por ser um teste sobre a sua própria humanidade. Queria só apontar isso e sublinhar essa vertente que estava-me a explicar, a da pesquisa, que vai muito ao encontro da sua ligação com o jornalismo.
Sim, a minha formação de base é em jornalismo, e um dos papéis da imprensa, do jornalismo em geral, é precisamente pôr uma lupa sobre essas zonas escondidas, essas zonas de sombra, e trazê-las à luz. São histórias pelas quais nós passamos todos os dias. Acho que muitos de nós já vimos (e até encontrámos alguma beleza) naqueles “pirilampos” no estuário do Tejo, quando atravessamos a Ponte Vasco da Gama, sem nos questionarmos sobre o que está por trás daquelas luzes.

Esta ideia de vozes que não têm lugar (muitas vezes por dificuldades com a língua, ou por não terem acesso ao espaço público) interessa-me muito. Este conjunto de “transparentes”, sejam reclusos, imigrantes, ou até mulheres em certos contextos, é uma área de trabalho que me mobiliza. Porque, hoje em dia, apesar de termos mais ferramentas de comunicação, os discursos estão cada vez mais padronizados. Há um afunilamento, não uma verdadeira expansão da diversidade, e, portanto, trazer estas pessoas e estas histórias para o grande ecrã foi algo que me seduziu logo no convite do Paulo Branco.
O Simão entrou numa fase posterior, mas já tinha um interesse muito grande por esta realidade. Era algo que ele já vinha a estudar há bastante tempo, e, no fundo, estas duas dimensões acabaram por se fundir. Por um lado, esta história de um homem que sai da prisão e não consegue regressar à família, não se consegue reintegrar, nem sequer percebe bem a linguagem e os códigos daquilo que é “integrar-se”. Há uma cena em que ele tenta fazer o currículo…
Está tudo tão formatado que ele parece um puzzle com peças que não encaixam. Ele não consegue entrar nesta lógica burocrática, que vê processos e não vê pessoas. Nesse sentido, o lugar dele aproxima-se muito do de um imigrante que chega a Portugal sem papéis, ou através de redes ilegais, e que fica sujeito à continuação da violência sobre si.
Esses dois universos acabam por se cruzar quando o Simão se junta à escrita e, no fundo, o filme nasce dessa fusão, muito também a partir da visão dele enquanto realizador.
Pegando nessa produção do Paulo Branco em que participou, e o facto de estarmos prestes a ver uma curta também ela com o apoio do próprio, mas acima disso é a sua estreia como realizadora. O que me pode dizer sobre “The Reminder”?
“The Reminder” surge de um projecto que tive na New York Film Academy, onde fiz um módulo de filmmaking. Como resultado desse módulo, tínhamos de criar uma curta-metragem com várias condicionantes técnicas.
Penso que, na criação, limitar é uma excelente forma de alimentar o processo criativo. Dou cursos de escrita criativa, sou romancista, e procuro sempre trabalhar com limitações (seja no número de personagens, na duração, no arco narrativo ou no espaço) porque isso ajuda a desbloquear. Ao contrário do que se pensa, muitas vezes o limite não bloqueia, antes pelo contrário: abre caminhos.
No caso do cinema, e destes workshops em particular, as limitações são sobretudo técnicas. Nós tínhamos de filmar em apenas meio dia, não podíamos usar luz artificial, nem captar som. Isso obrigou-me, por exemplo, a andar pela cidade a estudar a luz (a perceber o percurso do sol) para conseguir tirar partido dessa “grande luz” natural. Foi dentro desses condicionalismos que cheguei à história. Costumo dizer que um bom argumento pode dar um mau filme, mas não acredito num bom filme com um mau argumento (talvez ache isso porque venho da escrita). Acredito que o impacto que esta curta tem tido está muito ligado ao núcleo da história.
É a história de uma mulher (interpretada pela actriz germano-portuguesa Lia Fietz) com perda de memória de curto prazo, depois de um processo traumático, que anda pelas ruas de Nova Iorque guiada por reminders, por alarmes no telemóvel. Coisas muito simples: para onde ir, o que comer, “não ponhas açúcar no café porque és diabética”… Esses lembretes levam-na, todas as semanas, a um memorial, onde ela revive o luto e o trauma.
Esta apresentação não é exclusiva da curta “The Reminder”, estamos aqui para o lançamento do seu novo romance “No Meu Fim Está o Meu Começo”, que de alguma forma dialoga com a sua estreia no cinema.
A razão pela qual estou a mostrar esta curta aqui tem a ver com o livro, porque parte das mesmas perguntas: até que ponto é que as memórias nos condicionam? Empurram-nos para a frente ou paralisam-nos? No caso do livro, estamos a falar de uma mulher (uma enfermeira) que cuida da mãe durante um processo degenerativo de demência, ou seja, um processo de esquecimento. Há aqui um evidente paralelismo: tal como a mulher da curta se reencontra (neste caso, também com a mãe) através desses alarmes, no livro esse reencontro entre mãe e filha, que tinham uma relação difícil, quase amputada, acontece precisamente através do esquecimento. Como se essa aproximação fosse, de alguma forma, um sintoma da própria doença.

Daí a narrativa do livro ser fragmentada, indo do passado à contemporaneidade sem uma estrutura linear. Alusão a uma mente na abstracção para com sua demência?
Exactamente. No fundo, é sempre a filha que narra, mas há várias analépses e também algumas prolepses que nos vão permitindo reconstituir a história afectiva daquela mulher, com todas as suas zonas de dúvida e de esquecimento. E, por isso, sendo dois trabalhos que tocam temas muito próximos, sobretudo esta questão da memória, pareceu-me que fazia todo o sentido mostrar esta curta quase como um prolongamento afectivo do livro.
E esta experiência cinematográfica em “The Reminder” [distinguido como Melhor Realização Feminina no World Film Festival in Cannes de 2026] a agradou ao ponto de continuar? Veremos a Filipa Martins realizadora?
Sim, ou seja, este é o oitavo livro que publico, portanto já me sinto escritora … realizadora ainda não. É um processo de aprendizagem. No fundo, é como se estivesse a adquirir um novo alfabeto. Estou a aprender as letras desse alfabeto, nomeadamente o silêncio, que é uma ferramenta que, na escrita, não a tenho da mesma forma.
Num livro, o silêncio também existe, mas é sempre descrito, é construído através das palavras. No cinema, não: o silêncio é mesmo silêncio. É preenchido pelo actor, pela actriz, por um olhar, por uma presença… e abre-se a múltiplas interpretações que a escrita não permite da mesma maneira.


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