O que seria de “Damas” se Cláudia Alves (“Tales on Blindness”) se limitasse a reproduzir a sua investigação, o deambular pelo arquivo, o gesto através do qual encontrou estas histórias: jovens mulheres de certa estatura social que se voluntariaram como enfermeiras da Cruz Vermelha, partiram para França e, para além dos cuidados prestados, ajudaram a construir um hospital? Convém recordar a época, os últimos anos da década de 1910, no eclodir da Primeira Guerra Mundial, a única (até à data) em que Portugal participou directamente. A Batalha de La Lys, tantas vezes evocada no imaginário nacional pelo perfil heróico do Soldado Milhões, foi também palco de humilhação e devastação das tropas portuguesas. A 9 de Abril de 1918, as portas do dito hospital abrem-se precisamente nesse dia fatídico: as alas enchem-se de feridos, mortos e cicatrizes, marcas que uma enfermeira em particular fixará na escrita de uma crónica jornalística.
“Damas” adopta essa perspectiva — a de Maria Inez (Teresa Mello Sampayo) — cuja destreza na prosa a transforma em guia da realizadora e do seu co-argumentista (Marcelo Gomes, realizador brasileiro de obras como “Cinema, Aspirinas e Urubus” e “Paloma”) neste formato híbrido. Não apenas nas dimensões históricas, cruzando ficção e documentário através do cinéma vérité (onde vemos a própria realizadora no processo de investigação), mas também no conteúdo: um relato da guerra que revela estas mulheres, marcadas pela invisibilidade social e pelo altruísmo. Trata-se de um filme de memórias encenadas (mesmo nunca distanciando do meramente ilustrativo) que, no acto de novelização, encontra a sua narrativa e vocação pedagógica, assumindo-se como documento histórico. Já enquanto cinema, tende a ceder a algum pendor televisivo: embora a abordagem o afaste de certos vícios do pequeno ecrã — das talking heads às meras galerias de arquivo —, persiste uma suavização visual e estética em prol de maior alcance.
“Damas”, como muitos documentários portugueses que chegam às salas, revela-se por vezes mais estimulante na discussão pós-visionamento do que no próprio relato cinematográfico. Ainda assim, importa reconhecer, nenhum gesto escapa à sua dimensão política, a relevância social deste tipo de obras e destas histórias (a nossa participação na Primeira Guerra Mundial, eclipsada pela mitificação do Soldado Milhões, e o feminismo emergente em Portugal, influenciado pelos movimentos sufragistas britânicos). Há um esforço evidente de afirmação e pertinência, mesmo quando a vontade de fazer diferente se manifesta; porém, nesse caminho, sacrifica-se frequentemente parte do potencial cinematográfico em nome de uma experimentação contida e ‘domesticada’.

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