Há diversas modalidades de Estado: os estados socialistas, os estados corporativos e o estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos. De maneira que quem quiser, vem comigo para Lisboa e acabamos com isto. Quem é voluntário sai e forma. Quem não quiser vir não é obrigado e fica aqui.

São dois, os momentos que retenho nesta minha experiência com “Salgueiro Maia – O Implicado”. A primeira, após o aviso de Miguel Borges que faz da refeição uma ocasião sagrada digna do silêncio, a câmara de Sérgio Graciano, pacientemente, aguarda e respeita esse mesmo tempo de comunhão, cinco minutos que em jeito abstrato poderiam traduzir os tempos amedrontados do Estado Novo (se Joaquim Pinto conserva-se em 11 horas, nem é por meros minutos que o “gato vai às filhoses”). A segunda sequência resulta na decorrência numas das “missões” ultramarinas, quando uma das praças do pelotão sob o comando de Maia pisa acidentalmente uma mina. A câmara, mais uma vez, reforça o seu papel expressivo, mapeando um quadro de três pessoas – a aflição, a salvação e a consciência – numa cena que responde com sugestão e nessa “invisibilidade” consegue captar um pânico de difícil descrição.

Duas cenas, foram essas as que consegui reter nesta cinebiografia, mais que convencional, de um dos grandes heróis da Nação, o nosso “capitão de Abril” por excelência (pelo menos, o mais consensual e apolitizado). “Salgueiro Maia – O Implicado” é um protótipo de um filme, um teaser para uma possível série televisiva (pelos vistos é esse o plano). O porquê de dizer isto? Pela sua narrativa descosturada por vinhetas biográficas, saltitando narrativamente sem se aperceber que desta maneira sacrifica o ritmo (aliás, tem sido o grande “calcanhar de Aquiles” de Graciano neste seu percurso cinematográfico) e a própria dimensão da personagem (Tomás Alves, que vimos em grande plano ao serviço de Mário Barroso em “Um Amor de Perdição”, é mais que competente no seu papel, diria mesmo, heróico), sem referir à quantidade de elenco reduzido a meras passagens (Catarina Wallenstein, João Nunes Pinto, Diogo Martins, José Raposo, etc). 

Esta postura kamikaze resultou numa mera lição de História, pedagógica nos seus costumes e telenovelesca na sua postura, invadida por uma banda-sonora onipresente de José de Castro (que havia trabalhado com Graciano em “O Som que Desce na Terra” e o infame “As Linhas de Sangue”) que com uma assertiva disciplina tenta invocar a emoção ausente nas imagens deste “Salgueiro Maia – O Implicado”. Resumindo e concluindo, pouco cinema e mais televisão por estas andanças. 

Depois disto, “Capitães de Abril” de Maria Medeiros (com o ator italiano Stefano Accorsi, e dobrado por João Reis, como Maia) deverá ser promovido a “obra-prima”.

3 respostas a “As Revoluções não acontecem apenas com intenções …”

  1. […] pior das hipóteses, aos 5.000 espectadores, apenas arrecadou 1.719. Melhor posicionado esteve “Salgueiro Maia: O Implicado” de Sérgio Graciano [16.777], o qual convém referir a importância ainda memorial da sua […]

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  2. […] sociopolítico da época em que pudéssemos acreditar. É o mesmo problema que teve em ‘Salgueiro Maia: O Implicado‘, apesar de este ter tentado ser um biopic nos termos mais convencionais e com a intenção […]

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  3. […] o é. Aliás, novamente tocando na televisão: isto é produzido pela Skydreams… os de “Salgueiro Maia” e “Soares é Fixe” … e lembro-me bem, na altura, de uma entrevista de um dos […]

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