You killed him!” 

No, I did not. I gave him life.” 

Tal citação assenta como “pontapé de saída” para os acordes re-imaginados de “Psycho” (não sendo esta a única homenagem assumida a Hitchcock, os créditos iniciais utilizam a grafia de “Vertigo”), e é desta maneira que arranca “Re-Animator”, o culto instantâneo dirigido por Stuart Gordon que literalmente “brinca aos médicos legistas”. Filmado e produzido em Itália de forma a conseguir uma produção barata, o filme tem atendido como encorajadora referência para outros realizadores que combinaram o horror físico com rasgos de comédia propositada. 

Nesta legião de seguidores que consolidaram a base deste comedy horror deparamos com Sam Raimi, que dois anos depois aposta na sequela delirante de “Evil Dead”, e Peter Jackson, anos antes de aventurar-se na Terra Média o qual tenta ultrapassar uma fase loucamente gore. “Re-Animator” leva-nos a Herbert West, interpretado por Jeffrey Combs, um arquétipo do cientista louco sob os contornos de um psicopata doutorado (muito de Norman Bates na sua composição, novamente “Psycho”, e novamente Hitchcock em mais uma alusão). Ele tem o poder de ressuscitar os mortos, tudo graças a um soro “milagroso” que o próprio desenvolveu mas que, acima de tudo, continua a testar clandestinamente os seus efeitos secundários. 

Perante o horror proveniente deste “sonho de Lazarus“, existe quem deseja sobretudo apoderar-se desta invenção incontornável. Livremente baseado num homónimo conto de H.P. Lovecraft, o realizador Stuart Gordon e o produtor Brian Yuzna foram claros nesta sua adaptação, o de satirizar um outro clássico literário – “Frankenstein”, de Mary Shelley – numa combinação de body horror com contornos cómico-trágicos de requinte. Tudo parece um jogo de “medicina macabra”! Como é regra nos filmes de Gordon, “Re-Animator” é uma profanação sexual, o despertar das fantasias luxuriosas impensáveis e demasiadas perversas para ser faladas em público, neste caso existe uma tendência ostentada à necrofilia. Mas atenção, o profundo choque não é consistido no enredo, até porque nela existe uma subliminar paródia [sexo oral dos mortos]. 

Aliás, foi no aspecto de spoof que Gordon aceitou interceptar os macabros relatos de Lovecraft – “Who’s going to believe a talking head? Get a job in a sideshow” – e desviar da penosa tragédia que abateu produções como a de “The Brain That Wouldn’t Die” (Joseph Green, 1962) que também acarretou com as “culpas” na base fílmica deste “Re-Animator”. Fica a nota para Barbara Crampton, uma actriz terrivelmente dedicada ao cinema do realizador, expondo o seu corpo ao manifesto de criaturas hediondas.

2 respostas a “Talking Heads”

  1. […] Yuzna a auto-promover-se de produtor a realizador, eis a sequela do êxito de 1985 (“Re-Animator“). Nesta continuação e seguindo a fórmula do seu antecessor, ou seja, como Gordon havia […]

    Gostar

  2. […] que aprendi na área da produção foi graças a essa colaboração. Sem ela não teria nascido “Re-Animator”, “From Beyond”, “Dolls” nem “Dagon”, que surgiu anos mais tarde. Depois seguiu-se o […]

    Gostar

Deixe um comentário

Outras leituras