O Cinematograficamente Falando … em conjunto com Aníbal Santiago (do blog “Rick’s Cinema”) falou com Cavi Borges, aquele que é visto como um dos mais prolíficos produtores e realizadores do actual panorama cinematográfico brasileiro. Sob um tom descontraído, uma enorme afabilidade e paixão pela Sétima Arte, Cavi Borges vive o cinema e contagia-nos com o entusiasmo com que apresenta o seu trabalho.
Em 2010 esteve no Festival de Cannes com a curta “A Distração de Ivan”. A presença em Cannes permitiu-lhe abrir novas portas e maiores apoios?
Fui duas vezes ao Festival de Cannes, uma delas com “A Distração de Ivan”, uma curta-metragem que estava a competir na Semaine de la Critique. Para mim, o Festival de Cannes foi inspirador. Não sabia o que esperar, sentia-me uma “formiguinha”. Milhões de pessoas, de filmes, tudo lotado. Comecei a tentar entender como funcionava todo esse mercado do cinema de arte, não é igual a Hollywood, mas é bastante movimentado. Também sou produtor, por isso comecei a perceber como poderia promover o meu filme fora do Brasil, vendê-lo a canais de televisão de outros países. Foi a minha primeira experiência fora do Brasil.
Quando se entra em Cannes, toda a gente quer ver o seu filme. “A Distração de Ivan” já passou em mais de sessenta países, incluindo no Líbano. Nem sei como chegou lá. A partir daí, comecei a pensar em tentar levar os filmes para fora do Brasil, embora seja complicado.
Uma das razões para ter vindo a Portugal, em particular a Lisboa, é tentar fazer essa ponte, procurar exibir mais os nossos filmes e levar filmes portugueses para o Brasil. Estive na Cinemateca para tentar organizar uma mostra de Luiz Rosemberg Filho. Aproveitei também para deixar filmes da Cavídeo na loja, para venderem. Levei filmes portugueses para o Brasil, encontrei-me com um produtor português. Temos de fazer dinheiro. Quanto mais gente vê os filmes, quanto mais estes passam noutros países, melhor.
Os filmes transformam-se em várias obras cinematográficas de acordo com as pessoas dos diferentes países: têm uma leitura diferente, as sensibilidades e as referências são distintas. Quero muito que o filme rode o mundo inteiro. E aí há um trabalho de fundo que tenho de fazer: conhecer, contactar os produtores, os curadores, dar os DVDs, fazer lobby.
Essa visão empreendedora do negócio vem desde os tempos em que abriu o clube de vídeo?
Não, vem desde os tempos do judo. Fui atleta profissional de judo, mas no Brasil é algo que não é apoiado. Tinha de vender camisolas, ser DJ, fazia qualquer coisa para pagar as minhas viagens e competir fora do Brasil, sempre tive de aprender a arranjar um meio para me desenrascar (vender coisas, DVDs). Digo que sou um “camelô”, mas sou mesmo [risos]. Fazia mostras de filmes lá na Cobal, onde tenho o meu clube de vídeo, e depois tinha os VHS para vender. Há muita gente que me critica quando falo do filme como um produto. Há muito cinéfilo que fica lixado e pergunta: “Como é que você trata o filme como um produto?”
No Brasil, principalmente, se quiseres ser só artista, ou apenas realizador, filmar e continuar a fazer carreira, tens de ser um pouco produtor. No teatro também é assim. O realizador é o produtor, por vezes a actriz é a produtora.
Um dos casos mais curiosos com que me deparei a ler sobre si foi também a procura em trabalhar com Luiz Rosemberg Filho, um cineasta algo “ostracizado”. Como foi essa experiência de produzir e colaborar com Rosemberg?
O Luiz Rosemberg Filho era considerado impossível de produzir. Era visto como demasiado radical, por exemplo, durante o processo de casting, fomos chamar uma actriz. Ela disse que tinha gostado, mas ela pediu para mudar algo no argumento. “Mudar o meu argumento? Não! Não serve.”
Até disse à Patrícia Niedermeier: “Se não gostares do argumento, não fales nisso num primeiro momento. Durante as filmagens podes propor algo, tentar mudar.” Ele é radical. No início tinha medo, depois, revelou-se o realizador mais fácil de produzir. Antes de começar a filmar, era difícil. Difícil para escolher os actores, para ensaiar, mas, quando começámos a filmar, mostrou-se um dos realizadores mais generosos com quem trabalhei. Aceitava opiniões do fotógrafo, muito mais jovem do que ele. Tem mais de cinquenta anos de carreira e aceitava opiniões de um fotógrafo que não conhecia, com apenas vinte e três anos! A Patrícia propôs uma cena em que dança. Como vinha da dança, ele aceitou. Foi um trabalho bastante colectivo.

Como produtor, não sou um produtor normal, daqueles que ficam apenas a pensar no dinheiro. Sou bastante participativo. Gosto de estar junto. Estou na edição, nas filmagens. Costumam dizer que o produtor não é um artista, algo de que não gosto… não concordo com isso. Até comecei a realizar, em parte, por causa disso. Sou um produtor-artista, que opina [risos]. Não vou interferir, mas vou propor. Se ele gostar ou não, por mim está bem, aceito. É a opinião do realizador, mas vou propor.
A minha forma de produção não passa por essa coisa dura de apenas colocar o dinheiro. Quero que o filme aconteça, que o projecto ande, que fique o melhor possível para toda a gente. Se for preciso empurrar o carrinho, se for preciso bater a claquete, bato directamente.
Na entrevista ao site Usina salienta que a “Cavídeo” é o samba do crioulo doido. Pode falar-nos um pouco dessa diversidade da Cavídeo a nível de produções cinematográficas?
A Cavídeo tem muitos filmes. Qual é a marca da Cavídeo? Vejo a Cavídeo como um lugar de diversidade, de multiplicidade. As pessoas com quem trabalho vão desde Luiz Rosemberg Filho até ao indivíduo que está a começar a carreira e nunca fez filmes. O realizador tanto pode ser rico como pobre, tanto pode querer fazer cinema mais comercial como mais radical. Acho isso muito rico, enquanto produtor e realizador, aprendo muito com estas pessoas. Quando produzo um filme do Rosemberg, é quase uma aula para mim. Por exemplo, no caso de “Um Filme Francês”, aprendi muito com elas [Patrícia Niedermeier e Juliana Terra] sobre como dirigir actores. Sempre chamava um director de elenco para fazer os filmes comigo. “Um Filme Francês” é quase uma co-realização, elas são quase co-realizadoras do filme.
Considero-me ainda um iniciante, um indivíduo com muito para aprender. Tenho os meus defeitos, os meus pontos fracos, e estou a tentar trabalhar e aprender. Ficava sempre a pensar nos planos, na fotografia, no enquadramento, na edição. No caso dos actores, chamava sempre alguém. O trabalho com eles assentou muito no diálogo, na conversa, na utilização de referências, os nossos ensaios eram, muitas vezes, feitos a ver filmes. Por exemplo, víamos as obras de John Cassavetes.
Realizava os filmes utilizando, muitas vezes, outras obras cinematográficas. Produzia muitas pessoas. Aí perguntaram-me porque é que não realizava filmes. Dizia que não tinha câmara, que não sabia mexer nela. Disseram-me que não era preciso saber operar a câmara, porque tinha o director de fotografia. Os meus amigos quase me convenceram de que não era preciso saber nada antes de realizar a minha primeira curta-metragem.
Então, antes de iniciarmos as filmagens, perguntaram-me: “E a decupagem? Onde é que a câmara vai ficar posicionada?” E fiquei: “Não pensei nisso.”
Fui para o meu clube de vídeo e comecei a ver tudo o que havia de filmes com pessoas a correr: “Run, Lola Run”, “Duel”, do Spielberg, entre outros… procurei inspirar-me nos planos desses filmes. Sou muito cinéfilo, por isso muitas das minhas referências vêm dos filmes que vi.
O Jean-Luc Godard foi uma das grandes referências para “Um Filme Francês”?
Total! O Jean-Luc Godard foi mais do que uma referência, foi quase uma proposição. Sei que muitos críticos não vão gostar, mas a ideia era tentar inserir no argumento situações semelhantes de alguns filmes do Godard que não parecessem gratuitas mas que funcionassem na história. Foi mais do que uma reprodução, foi uma espécie de homenagem.

Disse há pouco que a sua escola de cinema foi ver filmes. Tem uma opinião sobre as escolas de cinema?
Formei-me em Economia [risos]. Aí, abri um videoclube. Posteriormente, comecei a fazer filmes, aliás, comecei a fazê-los antes de estudar cinema. A determinada altura, achei importante estudar e fazia cinema como hobbie, por brincadeira. Quando decidi que queria ser cineasta, optei por entrar na faculdade.
Foi muito bom. Descobri muitas pessoas, muitos artistas, muitos cineastas, a História do Cinema… mas sentia uma enorme vontade de fazer. A faculdade tem uma burocracia muito grande: “Não se pode usar a câmara aqui, não se pode filmar mais de uma hora”. A faculdade foi muito boa, conheci muita gente porreira, mas não conseguia fazer filme nenhum. Na altura, cheguei a estudar com o Ian, da Porta dos Fundos.
Na minha opinião, se queremos fazer cinema, apenas fazemos. O resultado pode não ser o melhor, mas é na prática que vai aprender. Filmar é isso. Dou cursos de cinema e costumo dizer que, mais importante do que a faculdade, é ver filmes, é preciso ter bagagem, ter referências, prepará-las. Muitas vezes, nem nos lembramos, nem percebemos as influências que utilizamos, está dentro de nós, nem damos por isso. Quanto mais filmes vemos, mais vamos aprendendo.
Foi através do clube de vídeo que começou a desenvolver a sua cinefilia ou pelo menos esta instigou a uma maior investigação para poder aconselhar os clientes?
Antes de abrir o clube de vídeo, não entendia nada de cinema, só via filmes do Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger e afins por causa do judo. O lugar onde fica o meu clube de vídeo é muito frequentado por artistas. É uma zona central do Rio de Janeiro. Então, as pessoas passavam pelo clube e perguntavam se tinha filmes do Tarkovski, do Cassavetes, e eu ficava sem saber, mas ia anotando e pesquisando posteriormente. E comecei a ver esses filmes. Lembro-me da primeira vez que vi um filme de Jean-Luc Godard. Achei o filme insuportável, muito ruim, mesmo chato [risos]. Depois, vês de novo, vais lendo, ouvindo e pensando. Hoje sou um apaixonado.
Mas é normal! Quando não conhecemos alguma coisa, tendemos a rejeitá-la, por exemplo, se a minha filha vir ali um prato que nunca provou, vai dizer que não gosta. Se abrirmos a cabeça e começarmos a experimentar, começamos a gostar. Estamos habituados ao ritmo dos filmes americanos e da televisão, e quando vemos um filme de François Truffaut, com um ritmo mais lento, estranhamos. O Godard era aquela coisa meio louca. Primeiro, estranha-se, depois começa-se a ver de novo e começa-se a gostar.
Foi por isso que o Cavi disse que tinha receio de ver os filmes do Ingmar Bergman?
[Risos] Tinha medo do Bergman! Achava que tinha de ser muito cinéfilo para gostar de Bergman. Tinha os filmes dele no meu clube de vídeo e ficava a olhar para eles. Passaram dez anos até achar que estava na hora. Então decidi ver os filmes de Ingmar Bergman e simplesmente adorei. Não era tão inacessível como a ideia que tinha criado. Vi tudo o que pude ao longo de um mês.
Tinha a ideia de que os filmes de Bergman eram algo muito intelectual, que era necessário saber de psicanálise. Quando fui ver, reparei que havia ali muita coisa interessante. Já devia ter visto há muito tempo. Hoje adoro Ingmar Bergman. É um dos meus realizadores de eleição!
Outro dos seus filmes que se encontra no FESTin é “Setenta”, embora realizado por Emília Silveira. Li que é um produtor activo. Qual foi o seu papel no desenvolvimento do filme?
A Emília é realizadora da Rede Globo, uma realizadora de televisão, portanto, nunca tinha feito cinema. Estava há dez anos a tentar fazer este filme. Chegou a ser prisioneira durante a ditadura e, anteriormente, foi casada com dois militantes, conhecia vários elementos da Globo, mas não conseguiu desenvolver o projecto. Disseram-lhe então para falar com o Cavi [risos].

Falei com os meus contactos, aqui e ali e conseguimos fazer o filme. Depois ela mostrou-o à Globo e o indivíduo da Globo Filmes apreciou muito. A Globo não costumava investir em documentários, por isso “Setenta” e “Tim Lopes” foram alguns dos primeiros documentários apoiados pela estação. Inclusive, a Rede Globo, no canal aberto, nunca emite documentários, apenas são transmitidos na GloboNews, o canal por cabo. A Globo entrou no projecto por causa da Emília, fez anúncios, pagou imensa publicidade. A Emília participou em diversos programas de cinema. O filme esteve um mês em cartaz e alcançou apenas mil espectadores no Brasil. As pessoas pensam que o facto de a Globo anunciar vai garantir um milhão de espectadores. Alcançou praticamente o mesmo público do filme do Lula Buarque na abertura deste FESTin, [“O Vendedor de Passados”]. Não basta apenas ter o apoio da Globo. O sucesso é fruto de vários factores.
No Brasil, as pessoas já não vão às salas de cinema ver documentários, simplesmente esperam para os ver na televisão. Por isso, tendo em conta que vou lançar “Cidade de Deus: 10 Anos Depois” no cinema, não tenho grandes expectativas quanto à sua adesão. Dizem que vai bombar, que vai ser um sucesso, mas não acredito.
Por um lado, exibir os filmes nas salas é bom, quanto mais divulgação, melhor, mas “Setenta” mostrou que o público não vai ao cinema para ver documentários.
O streaming não será uma boa opção?
O “Cidade de Deus: Dez Anos Depois”, por exemplo, já está disponível no iTunes em setenta países. Acredito que vou alcançar mais pessoas lá do que no cinema. Como é que vou conseguir lançar o filme no Japão, na Austrália, no Vietname? O “cara” compra e está lá, pode ver. Sim, acredito que o futuro de algum tipo de filmes esteja na internet, nomeadamente o cinema de autor. Podem ser exibidos em festivais, mostras, cineclubes, cinematecas, mas acredito que seja cada vez mais difícil lançá-los comercialmente em sala. O cinema mais comercial, em 3D, é o que acaba por ser distribuído para a grande tela. A televisão e o Video on Demand vão ter relevância na divulgação do cinema de autor.
Por isso é que acho bizarro homenagear os setenta anos da Globo. A Globo é que tem de homenagear o FESTin, no entanto, acho que esta parceria entre o cinema e a televisão é muito importante. A televisão tem interesse nos filmes. Nós temos interesse na televisão e na visibilidade que ela proporciona. Sabemos que a televisão acabou com o cinema. Falo como produtor, é claro. No Brasil, os cineastas independentes tendem a odiar a televisão e a Rede Globo: “O cinema é bom, a televisão é ruim”. Com “Setenta”, a Rede Globo não interferiu em nada, apenas ajudou, se quiserem apostar em nós, por mim está tudo bem, desde que deixem desenvolver aquilo que pretendemos fazer.
Se oferecessem dinheiro para vocês escreverem um livro, iam recusar? Vejo a televisão como uma grande parceira. Posso garantir que o pouco dinheiro que “Um Filme Francês” teve foi graças ao Canal Brasil.
Ou seja, trabalham com orçamentos bastante baixos?
Esse filme tem o preço de uma curta-metragem. Custou cerca de quinze mil euros. Estou a leccionar um curso no Brasil sobre como produzir com baixo orçamento, e manter uma equipa reduzida (ao invés de termos setenta pessoas, temos quatro ou cinco, no máximo). É muito mais rápido. No cinema, tempo é dinheiro. Filmávamos uma vez por semana, num total de onze dias. No caso de “Um Filme Francês”, muitas vezes foi filmado como aparece representado na personagem interpretada pela Patrícia. É assim o nosso cinema.
No Brasil, muitas vezes é proibido filmar na rua, em locais como aeroportos, é preciso autorização para quase tudo. No caso do aeroporto, pensam que é necessário ter gruas e afins, mas eu colocava a câmara, filmava e as pessoas nem percebiam que estávamos a filmar. Passam e nem sabem se estamos a fotografar ou a filmar. Estava aqui a ler que o Pedro Costa passou a utilizar um sistema muito mais simples. Quero fazer esse tipo de filmes, mesmo se tiver muito dinheiro para fazer uma obra cinematográfica, quero continuar a fazer filmes pequenos. Quero estabelecer colaborações duradouras, nas quais os actores e as actrizes já saibam aquilo que pretendo.
Visto que Jean-Luc Godard foi uma grande referência para “Um Filme Francês”, gostava de saber o que pensa realmente sobre os filmes actuais do Godard?
Godard antes de entrar na fase mais política, do grupo Dziga Vertov, é a referência (“À Bout de Souffle”, “Une Femme Mariée”, “Vivre Sa Vie”). Até admiro essa nova fase e acho-a interessante, mas não serviu de base para o argumento do filme. Já o Luiz Rosemberg Filho e aquelas colagens dele têm muito a ver com Godard.

Mesmo com mais de oitenta anos, Godard continua a inovar, a procurar coisas novas. É famoso, se quisesse poderia continuar a fazer o mesmo tipo de filmes. Ignora o Festival de Cannes, não aparece por lá. É um indivíduo velho de idade, mas não de mente.
Regressando ao filme [“Um Filme Francês”]. Como avalia o trabalho com do elenco; Patrícia Niedermeier, a Juliana Terra e o Erom Cordeiro?
É quase uma relação familiar: a Patrícia é a minha mulher, a Juliana e o Erom são meus amigos. Nós víamos muitos filmes, conversámos muito, falava o que achava nas cenas, improvisávamos. Foi um processo muito colectivo. Mudava o argumento todo o dia [risos]. Aí a actriz trazia outra ideia e mudava … Quase de co-direcção! Foi uma construção muito rica, e estava a aprender muito a partir deles. Na hora das filmagens, sempre que existia algum problema nós aproveitávamos e alterávamos.
Calculo que já conte com diversos projectos para o futuro?
Estamos num sistema muito doido por lá! Estávamos a fazer uma longa-metragem por mês. Este ano vamos fazer três. É muito caro e como faço filmes com muito pouco dinheiro, tenho muitos realizadores a procurarem-me, todos os dias aparece na Cavídeo um novo com projectos.
Tenho onze projectos para fazer … terminamos um e começamos logo outro. Quando regressar ao Brasil, já vou fazer outro. O Rosemberg vai fazer uma segunda longa-metragem comigo. Tenho mais cinco filmes prontos, outros três para editar, outros para filmar, outros para estrear. É uma fábrica! [risos]
Algum desses filmes vai ser realizado por si?
Tento realizar um filme meu por ano, e procuro produzir oito a nove nesse mesmo período. Por exemplo, terminei o “Um Filme Francês” no ano passado: realizar, editar, etc, conduz a que demore cerca de um ano para fazer uma longa-metragem, queria fazer mais, tenho várias ideias mas não existe tempo. Teria que ter um clone [risos]. Vou voltar agora para o Brasil, vou ser um jurado num edital, vou dar uma palestra em São Paulo. É isso o que eu faço para ganhar dinheiro … para pagar as minhas contas.
E o “Um Filme Francês” vai estrear comercialmente no Brasil?
Abri uma distribuidora minha. Primeiro vai estrear “Cidade de Deus – Dez Anos Depois”, e depois o “Dois Casamentos“, do Rosemberg (agora, o “Canal Brasil” quer passar logo os filmes). Temos de passar rapidamente o filme porque o Canal Brasil quer exibir já o “Um Filme Francês” no final do ano. Tenho de lançar esses filmes no cinema porque aí ganha mais atenção, artigos nos jornais, ou seja, o filme ganha valor agregado. Vou lançar em sala de cinema mais para o filme ganhar essa projeção.
Como é a reação dos críticos brasileiros em relação ao cinema brasileiro?
Lá no Brasil existem dois tipos de críticos: os críticos mainstream e os que cobrem festivais. Temos muitos mais críticos interessantes a escreverem em blogs e sites do que nos jornais. Na imprensa escrita têm um número muito limitado de caracteres. São muitas das vezes os críticos online que cobrem os festivais, que viajam, que colocam os artigos nos blogs. Conheço alguns críticos nos festivais. A crítica também ajuda a divulgar o filme.
Qual é a sua opinião sobre a crítica cinematográfica?
Sou muito amigo dos críticos lá no Brasil, inclusive, encontrei um crítico meu conhecido aqui na Cinemateca em Lisboa: Sérgio Alpendre. Admiro muito a crítica, entendo que às vezes os críticos querem aparecer mais do que o filme. Em alguns casos, por vezes tenho dificuldade em ler, não consigo compreender se ele gostou ou não do filme. Quer aparecer. Respeito, não tenho nada contra. Realizo o meu filme, sei aquilo que fiz, e ao ouvir a opinião de outras pessoas sobre o filme, de quem percebe, começo a ver outro filme a pensar em outras coisas que não tinha pensado.
Realizei uma curta que era filmada num plano-sequência de um tipo a avançar com uma arma na favela. O Kléber Mendonça Filho disse que a curta era inspirada no “Doom”, aquele jogo de computador, a verdade é que nunca o joguei! [risos] Depois comecei a pensar e percebi que a comparação fez todo o sentido, apesar do jogo não ter servido de referência. Mesmo que não gostem dos filmes, acho interessante. Por vezes penso, “dei mole“. [risos]
Para alguém ser crítico normalmente sabe sobre cinema, vê filmes, tem referências, não é um idiota qualquer que escreve qualquer coisa… aí sim, eu detesto. Acho até bastante generoso quando alguém gasta duas horas da vida dele para comentar um filme meu. Com tanta correria, alguém que pára, fica duas horas a pensar sobre o meu filme, a fazer uma análise. Adoro isso! Tenho uma boa maneira de me defender dos críticos. É normal um crítico não gostar do seu filme. Aí digo: “estou vindo com mais quatro filmes aí, algum você vai gostar” [risos].Levo isso na boa.

Deixe um comentário