Será possível alcançar os limites do documentário? Existe uma matriz que o define ou uma formula mestra que nos realça a verdadeira essência equacional da sua transfiguração enquanto cinema?

Com Elena de Petra Costa, tais questões surgem e assentam na atmosfera fantasmagórica com que o documentário se funde com a poesia, quer lírica quer visual, a encenação com a realidade dos factos e a emoção técnica com a frieza da narrativa. Todos esses ingredientes contraditórios unem-se para gerar um híbrido, não no sentido abominável, mas no divino da palavra. Um filme que paira entre os diversos cantos da arte, passando pelo teatro primórdio remoto da Grécia Antiga até aos maneirismos do egocentrismo artístico tão claro na Arte Moderna.

Elena é acima de tudo uma carta de amor pública, denunciante aos lugares-comuns e às banalidades da mesma, construindo uma linguagem suportada por um visual digno de barro, inegavelmente moldável e cúmplice para com a sua autora, Petra Costa, que dedica este trabalho à sua falecida irmã, um modelo que seguiu de perto e que viu sucumbir num ápice. Contudo, nunca na sua memória, pelo que Elena (filme) remete-nos à perda e ao medo da solidão, ao espírito decadente que inflige os seus golpes numa narrativa que para além de reforçada com o seu instinto artístico é combatida pelo afecto e pela veneração de uma figura carregada de emoção. É que a autora constrói uma fita tão pessoal que chegamos a sentir-nos culpados em “invadir” este seu Mundo.

Voltando à questão inicial, é possível identificar o esgotamento da veia documental? Por enquanto não nos é permitido garantir uma resposta concreta, sendo assim, Elena demonstra o quão ínfimas são as possibilidades de trazer cinema e torná-lo em algo infinitamente diversificado. Onde muitos viram vídeos caseiros e citações poéticas, Petra Costa viu Arte na sua forma mais pessoal.

5 respostas a “Uma carta de amor pública!”

  1. […] mais belos dos últimos anos, que entra em diálogo com o mais belo produzido desta década – “Elena”, de Petra Costa. Ambos tornam-se cúmplices à melancólica derrota do desejo, o reencontro de […]

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  2. […] como a sua primeira longa-metragem, “Elena”, Costa regressa ao estilo inconformado do documentário, numa reinvenção com pé assente na […]

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  3. […] da companhia teatral francesa Théâtre du Soleil e que tinha visto o meu primeiro filme [“Elena”]. Ela havia sugerido fazer um filme comigo, então falei-lhe da ideia. A Lea gostou. Fizemos […]

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  4. […] seu cinema – intimidade. Desde a curta Olhos de Ressaca, passado pela belíssima confissão em “Elena” e até mesmo “A Democracia em Vertigem”, onde os avanços /recuos da política brasileira […]

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  5. […] e prolíferas vozes da cinematografia brasileira atual, e para isso só bastou assistir “Elena”). Mas à luz da imparcialidade, se é que isso existe, a condição do Brasil merece uma lupa […]

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