Trazer Camilo Castelo Branco para junto de quem anseia pelo toque de Raul Ruiz… Quer dizer, não há mais nada a fazer: o chileno já não está entre nós (e, antes dele, Manoel de Oliveira, esse provedor de boa literatura em cinema), Carlos Saboga, saboreando as palavras de Paulo Branco antes da primeira projecção, deixou-nos aqui o seu último testemunho, em maneio camiliano. E pronto, o que nos resta? Quem poderá estar à altura de o levar novamente ao grande ecrã?

«De certeza que não precisas de mim? Quer dizer, precisaste da minha companhia em “Soares é Fixe”, “Camarada Cunhal” e “Playback”… Deixa-me, pelo menos, uma única vez não ser usado apenas para o depreciativo.»

– Agora não, Sérgio, estou no meio de um texto. Ficamos para outras lides e convívios.

«Tu é que sabes! Deixa-me então desaparecer. Peço desculpa pela invasão. Hasta!»

– Onde eu ia… Ah! …

Quem poderá adaptar Castelo Branco? O outro Branco está pronto para isso, tem Paulo como primeiro nome, não engana, mas quem o acompanhará? Sim, a sua nova coqueluche, Sérgio Graciano, e, por bem, o melhor que poderia ter acontecido ao realizador foi mesmo esta parceria. Há qualquer ‘coisa’ nela de transgressivo em relação à sua identidade, ou aos vestígios daquilo que dela nos era mostrado. Graciano já não é Graciano, é um realizador novo, descobriu pergaminhos no deserto da Namibe e abocanhou a “vida dupla”: a de um tarefeiro rápido e eficiente (mesmo que os resultados estejam longe dessa operacionalidade) e a de um possível autor. Sou ainda céptico nesse último termo, acredito mais nessa sombra de Branco (o Paulo, não o Camilo), que o restringe da sua “televisividade” e o faz querer encontrar um ritmo. Por fim, esse ritmo.

Contudo, desviamos um pouco o holofote do realizador e percorremos o filme. Mas, antes, um livro: “Memórias do Cárcere”, as “memórias” (aí está!) de um escritor, Camilo ele próprio, em 1860 (o livro foi publicado em 1862), no seu cativeiro na Cadeia da Relação do Porto como prova do seu amor e cumprimento da sua sentença: amar a mulher de outro, ela própria detida e também enclausurada. Em celas separadas, corredores e mais corredores demarcam-nos geograficamente, só os espíritos, libertos da carne ou adormecidos na subconsciência, conseguem reencontrar-se, jurar afecto e consolidar o carinho. Camilo, interpretado por Albano Jerónimo, conciso, elegante, em constantes miradas à janela da sua clausura, procura a vista de que necessita para os seus escritos. Na outra ponta, a sua amante, não de um dia só, Ana Plácido, interpretada por Maria João Bastos, de corpo e alma.

Se existe algo em que, à partida, reconhecemos a marca de Graciano, cada vez mais afagada pelos afazeres da produção de Branco (penso que já sabem a quem me refiro), é nas movimentações para dentro e para fora das celas. Os travellings adquirem a sua graciosidade ( pun not intended ), o espectador torna-se prisioneiro, tal como Camilo, tal como Ana, e procura a sua liberdade com um piscar de olhos à câmara. Aqueles apalpanços nas paredes da cadeia são os nossos passos recreativos antes de estabelecer os “pensamentos de homem livre” (Camus, esta é para ti!).

Mas o que fazer quando o tédio avança, ou se avança!? Nas prisões, a espera é uma tortura constante, e “a pior coisa num homem que passa muito tempo sozinho é não ter imaginação”, parafraseando Toni Servillo em “Le conseguenze dell’amore” (Sorrentino a reencontrar-se em 2004), e essa imaginação torna-se útil para um homem prisioneiro dos seus actos. O tal protagonista de Sorrentino deparava-se num hotel como seu cárcere, procurando nesse território de evasões e estadias curtas um método combativo ao seu aborrecimento; aqui, Camilo procura as histórias dos seus companheiros de prisão como apaziguação. São as asas da imaginação proporcionadas por esses relatos, como Sherazades passageiros ao serviço dos devaneios do escritor, o deleite e o assassínio do tempo. De resto, quase antológico, embrulhamo-nos nessas mesmas passagens, acreditamos na liberdade perdida daqueles amores através dos seus crimes, de todas as espécies e feitios.

Há quem diga que não é “Os Mistérios de Lisboa”, que lhe falta… Ruiz. Mas “Memórias do Cárcere” não quer ser Ruiz, antes outra “coisa” e, nesse sentido, é nos familiar: trata-se de uma produção de Branco (não vou entrar no jogo outra vez!). A sua marca é evidente nas alíneas e costuras, só que, desta vez, o produtor não se desleixou nem avançou de mansinho. Quis, com ambição, fazer de “Memórias do Cárcere” uma memória de um cárcere.

«Posso interromper…»

–Já interrompeste, Sérgio, mas já tinha terminado, e com punchline… creio eu!

«Isto quer dizer que gostaste do filme? Ou melhor, há a tal e esperada redenção do “realizador maldito”?»

–Se há redenção ou não, a ideia fica inconclusiva. Se gostares de finais felizes, podes acreditar que sim; se não, ficamos na mesma. Mas, apesar de sentir que não é um filme à Graciano, creio que fiquei surpreendido por o ser. Temos realizador, talvez.

«Ou seja, já não vais precisar de mim no futuro?»

–Quero acreditar que não. Sérgio, muito obrigado por tudo. Podes descansar… à vontade!

Deixe uma Resposta

Outras leituras