“Que saudades que eu já tinha da minha alegre casinha” … “O Pecado Mora em Cima”, alusão e distorção localizada do título português do clássico de Billy Wilder, “O Pecado Mora ao Lado” (“The Seven Year Itch”, 1955), no qual Tom Ewell tem devaneios erótico-fantasiosos com a nova vizinha, interpretada por ninguém menos do que Marilyn Monroe, enquanto se coça incessantemente, numa manifestação da crise dos sete anos, esse mal-estar que se instala entre casamentos e casais felizes. Aqui, o estabelecimento e a comichão são outros. Não se trata de sete anos, mas de uns admiráveis períodos na vida de um casal em constante distância afectiva, que convida os vizinhos de cima como quem acolhe uma novidade, pimenta sonhadora para as suas vidas entediantes.

Não é propriamente uma novidade e a produção de Sónia Resende, com Rui Pedro Sousa (“A Revolução (Sem) Sangue”) na realização, insere-se na rarefeita linhagem dos remakes portugueses de filmes estrangeiros. Não é um gesto vulgar, reconheçamos, e o “alvo” foi a sensação assinada por Cesc Gay, “Sentimental”, que tem contagiado o mundo e motivado várias releituras geográficas (a recordar o fenómeno de “Perfetti sconosciuti” e o malfadado “Miracle in Cell No. 7”). Ao espectador menos atento poderá ainda ocorrer o recente “The Invite”, de Olivia Wilde, que se assume como uma revisitação pouco próxima deste material.

Torna-se, portanto, difícil não olhar para esta nova versão através das diferentes tonalidades dos seus primos, sendo evidente a opção por se esgueirar para o registo mais cómico do original dos “nuestros hermanos“, em detrimento da versão americana, que encontrou espaço numa dimensão mais trágica. É, porém, neste nosso artefacto que o casal interpretado por Miguel Falabella e Marisa Orth encontra o seu lado mais interessante. Dois brasileiros que fogem do bolsonarismo e procuram em Portugal uma espécie de refúgio, apenas para descobrirem, perante a realidade da emigração, uma nova forma de desencanto. Há aqui matéria que ultrapassa o mecanismo cómico da premissa: a desilusão de quem atravessa um oceano à procura de melhores condições e acaba confrontado com a distância entre o país imaginado e aquele que efectivamente o recebe.

Na rodagem de “O Pecado Mora em Cima” (2026)

É particularmente feliz a ideia de um professor brasileiro a ensinar Camões num liceu português. Não apenas pela ironia implícita numa personagem vinda do outro lado do Atlântico para transmitir aos mais novos um dos nomes maiores da literatura portuguesa, mas também pela possibilidade de pensar a língua como património cultural que já não pertence exclusivamente aos seus falantes de origem. Há algo de curioso, até contraditório, na defesa de Camões por quem, aos olhos de uma certa ortodoxia identitária, poderia ser visto como um intruso. Afinal, a língua portuguesa há muito deixou de caber nas fronteiras que lhe deram origem, e talvez sejam precisamente os seus falantes ditos “colonizados” aqueles que melhor nos recordam a dimensão partilhada deste património. Não é apenas Camões enquanto figura histórica, mas aquilo que a sua obra representa no interior de uma língua em permanente transformação.

Também a entrada de “Fado Tropical”, de Chico Buarque e Ruy Guerra, me parece um gesto igualmente acertado. A canção transporta consigo essa mesma ironia inscrita na história colonial e a ambiguidade de uma relação cultural feita de afectos, feridas e contradições. Num filme que aproxima duas nacionalidades tantas vezes reduzidas a estereótipos recíprocos, há aqui a consciência de que, entre Portugal e Brasil, aquilo que nos une nem sempre é menos complexo do que o que nos separa.

Falabella e Orth têm ritmo, presença e uma capacidade de preencher o espaço cómico sem esforço aparente, mas o problema reside, curiosamente, naquilo que deveria sustentar emocionalmente o filme: a relação entre as duas personagens. Custa-nos acreditar inteiramente naquele casal como um em ruptura, embrulhado no cansaço, na desilusão e na fragmentação de uma vida a dois aparentemente privada de horizonte. Os actores são encantadores, com uma química que evidencia a cumplicidade profissional de anos e anos, entre palcos e telas partilhados, mas essa proximidade não chega a tornar verdadeiramente credível o desgaste que o filme pretende fazer emanar daquele elo.

Contudo, vamos por partes e para lá da dupla, que talvez resida aí o motivo para esta versão existir … “O Pecado Mora em Cima” é, sobretudo, cinema português de vocação comercial, na sua natureza empreendedora. Por outras palavras, não se faz refém das alarvidades vendidas em nome do “cinema nacional para grande público”, aquelas que Leonel Vieira, em modo de prostituta, ou Hugo Diogo nos concedem em anos lunares. O filme possui uma arquitectura narrativa reconhecível e uma linguagem cinematográfica que o afasta desse mesmo território, o do televisivo-travesti (ser televisão em grande ecrã), para sermos modestos, talvez como “a casinha” cantarolada, “tão modesta como eu”. Há uma construção do espaço, uma organização das personagens e uma intenção formal que merecem ser reconhecidas, mesmo quando o resultado não convence por inteiro (a banda sonora é demasiado intrusiva e, em comparação com o filme de Olivia Wilde, uma versão melhor que o original, sem dúvida mais conservador e optimista, com Camões a ser agradecido, sem antes recorrer ao poeta Olavo Bilac, já que poucos agradecimentos recebe neste nosso pueblo).

Com isto… não se trata de exigir ao cinema português que seja outra coisa, nem de lhe pedir que abdique do grande público para conquistar uma qualquer legitimidade cinéfila. Pelo contrário, que continue a chegar às salas (mesmo os ‘Santo Antónios’ desta vida), a encontrar espectadores e a provar que o cinema nacional também pode ocupar esse espaço sem pedir licença. Se há algo que desejamos a “O Pecado Mora em Cima”, e a todos os que contribuíram para a sua existência, é precisamente isso: que as pessoas vão ao cinema. E, se pelo caminho escolherem um filme português, tanto melhor.

“Foste o beijo melhor da minha vida,

ou talvez o pior…Glória e tormento,

contigo à luz subi do firmamento,

contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:

queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,

e do teu gosto amargo me alimento,

e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,

batismo e extrema-unção, naquele instante

por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,

beijo divino! e anseio delirante,

na perpétua saudade de um minuto….”

Olavo Bilac, Poesias

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