O Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela prossegue! O CineEco faz-se ouvir na sua 32ª edição, assumindo-se como um espaço de consciências, sensibilidades e, sobretudo, de empatia. O cinema é o veículo e a arma necessária.
Quem nos garante é Cláudia Marques Santos, uma das programadoras do festival, que sentou-se à conversa com o Cinematograficamente Falando … para abordar a longevidade, o legado e os desafios de um CineEco que não teme a política e procura na imagem em movimento não apenas o retrato da catástrofe, mas também a possibilidade de resistência e, sobretudo, de esperança. Tudo isto contrariando os tempos incertos e as Cassandras geradas pela inquietação e pelo testemunho impotente. Entre o lítio e a água, o negacionismo e a educação, os filmes do presente e as imagens do passado, a Serra da Estrela, lá do alto do território continental, será o palco maior destas cinematografias.
Arranco com o constatar de duas competições, a Internacional e a Nacional. Por isso, começo por perguntar quais os critérios, para além do tema comum do ambientalismo e da ecologia, que um filme tem de cumprir para ter o selo do CineEco?
Além dessa ligação, obviamente, à questão ambiental, e aqui convém referir que a questão ambiental é vasta. Portanto, o ambiente pensa as problemáticas inerentes à questão da ecologia, mas não só. Pensa também, por exemplo, as questões do território. Os nossos critérios são, obviamente, sempre os de qualidade. Claro que, idealmente, para nós seria sempre mais vantajoso ter uma diversidade de subtemáticas dentro do ambiente, mas não vamos abdicar de um excelente filme porque já temos uma temática parecida. Portanto, se isso for necessário, temáticas semelhantes entrarão.
Depois, tem de cumprir sempre o critério (e esse é um critério formal, digamos assim), das condições de participação, que tem a ver com o ano em que os filmes foram produzidos e que é sempre o ano anterior à edição que decorre.
Falava de temáticas parecidas. De certa forma, não pude deixar de notar que há um tema que parece sobressair na programação deste ano, que é a água. Não só o filme “Black Water”, de Natxo Leuza, mas também outros, como “Água Mãe” de Hiroatsu Suzuki e Rossana Torres, ou a curta “Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de Um Rio” de Daniel Soares. Ou seja, num período de secura, calor e seca, a água vai começar a ser o tema principal dentro do festival, e não só dentro do cinema em geral?
Sim, não é um tema novo. No ano passado também já tivemos filmes que tratavam a questão da água, mas este ano, de facto, temos aqui várias abordagens. Que água? E que qualidade de água? Ou se nem sequer temos acesso à água.
Referiste, por exemplo e bem, ao “Black Water“, uma produção alemã, de um realizador alemão, mas que se passa no Bangladesh que aborda a subida das águas e da qualidade da mesma, cada vez mais poluída. Depois temos o “Materia Prima”, de Jens Schanze, também alemão, mas que trata a exploração de grandes depósitos de lítio e aquilo que isso implica também para o consumo das reservas de água, por exemplo.

Passando então para uma questão um pouco pertinente: normalmente, quando falamos de ecologia e ambientalismo, especialmente nos tempos que decorrem, estamos sempre associados a um lado político, a um lado politizado dessas próprias lutas e causas. Falou-me há pouco das reservas de lítio que me fez recordar da situação de Covas do Barroso, a constante resistência da população contra a Savanna Resources, uma luta que, para além do ambiental, também é política. E com isto faço esta pergunta: o CineEco não tem medo de ser político, tendo em conta que, não só por ser um festival de cinema ecológico, mas também porque, cada vez mais, está aí contra uma contracorrente que parece ser este negacionismo ambiental?
Percebemos que, com a polarização que existe nos dias que correm, há o lado das pessoas que têm plena consciência da crise ambiental que vivemos e depois o outro lado da barricada, em que, de facto, os negacionistas acham que o problema ambiental é uma falácia. Quando existem tantas imagens gravadas de catástrofes que vemos cada vez mais, de forma sazonal, entre, por exemplo, cheias e fogos, o oposto. A dimensão que ganham já não é a de um pequeno fogo, já não é a de uma pequena enchente ou de uma pequena cheia. São verdadeiras catástrofes.
Mas, respondendo à questão do político, claro que, falando sobre todas estas preocupações que temos… e aqui queria fazer apenas um parêntese, porque este festival tem um lado bastante interessante, que é o facto de apresentar essas preocupações e haver filmes que nos deixam de coração apertado perante os perigos e aquilo que nos espera se nada fizermos, mas, por outro lado, também filmes que apresentam soluções. Não só soluções a fazer, mas soluções que já estão a ser conseguidas. Portanto, também há esse lado da esperança, não é?
Isto, no fundo, é essencial à vida. Forças negativas e positivas que, de certa forma, se vão equilibrando. Há vários filmes, por exemplo, com temáticas relativas à defesa de territórios, não só indígenas, mas também populações rurais na Europa, na América do Sul, etc. E, portanto, essa questão do político é necessariamente política porque estamos a dar consciência política às pessoas daquilo que pode ser feito e que devia estar a ser feito por parte dos nossos governantes. Mas, atenção: ser político não é ser ideológico. Portanto, não é ser partidário, não é tomar partidos, não é estar a fazer uma pressão política num sentido mais restrito da palavra.
Político no sentido lato de dar consciência e mobilizar, obviamente, as pessoas, porque só tendo consciência é que as pessoas sabem que podem exigir mais e melhor perante a sociedade e quem nos governa na sociedade em que estamos inseridos.
E esta aproximação às escolas e aos mais jovens, com a tentativa de sensibilizar e com as várias formações que tentam dar esse contributo. Mas pergunto, com isto, estão mais preocupados nestas formações em dar o lado ambiental ou o lado cinematográfico e, com isto, quero estender à formação deste ano “Filosofia com Cinema”, que vai ser ministrado pela Elsa Cerqueira.
Então, aqui o público jovem é fundamental e faz parte da preocupação do CineEco desde sempre. Portanto, mobilizar as escolas e haver sessões durante a manhã específicas para as escolas, que vão desde os mais pequeninos aos mais velhos, até ao secundário, inclusive.
Isto mobiliza porquê? Porque essa consciência que se traz, como costuma dizer-se, “de pequenino se torce o pepino”. E não só, como se incutem “lá em casa”, junto dos pais, se calhar, atitudes e comportamentos que se calhar se viram reflectidos em algum dos filmes e que, portanto, podem alargar essa influência a quem está em casa, familiares ou amigos, por exemplo. A educação é fundamental.
Há dois lados aqui, até porque há workshops que ensinam aos mais novos pequenos meandros, o que é o cinema e como é que ele, em essência, funciona. Portanto, referiu muito bem esta preocupação dupla, não só com a questão da ecologia, mas também com a questão do cinema. O que é o cinema enquanto disciplina artística, com o seu formato próprio. É diferente da televisão, é diferente da videoarte, que nós temos também numa exposição específica de videoarte, porque, de facto, já eram tantos os filmes com um pendor mais ensaístico, mais poético, etc., que fizemos uma das três exposições, e já não é o primeiro ano que o fazemos, sobre estas questões da videoarte, que têm sempre resultado muito bem.

Quanto à formação deste ano, que saliento ser direccionado para o público adulto e não infanto-juvenil, obviamente que a Elsa Cerqueira será a melhor pessoa para falar sobre ele, mas esta preocupação de perceber esta especificidade daquilo que é a disciplina artística do cinema, o que é fazer cinema, o que é esta projecção em grande ecrã. O título é também bastante expressivo: filosofia através do filme. Que conceitos é que, através desta forma, deste formato tão específico, nós passamos? Podemos, por exemplo, pensar que um dos conceitos que é muito específico do cinema é o do tempo.
O tempo e a respiração do tempo no cinema são diferentes de, por exemplo, outras linguagens que possam usar também a imagem em movimento. E tudo isso será abordado neste workshop, que vai acontecer no dia 14 de Outubro, às 16h30, na Biblioteca Municipal.
Há uma exposição chamada “A Luz da Estrela” que terá como acompanhamento uma sessão que se chama “Marcas da Montanha”, de filmagens antigas, algumas cópias da Cinemateca. Pergunto se estas iniciativas surgem não só para dar este lado memorialístico da região, mas também aprofundar as conexões que o festival tem com a região em si, que é a Serra da Estrela.
Sim, sem dúvida. Porque a vida é isso mesmo. A vida é essa fluidez e não podemos passar ao futuro sem olhar para o passado. Obviamente que o passado e a memória desempenham um papel importante naquilo que é a reflexão sobre o ambiente, sobre o mundo ecológico como o temos e como o queremos ter.
Há também documentários sobre a Serra da Estrela feitos em diversas eras, décadas, e é tudo reunido numa só sessão para depois ser formulado este debate à volta do território, que é sempre também uma subtemática bastante importante e que abordamos todos os anos: essa questão do território, nomeadamente onde o próprio festival está inserido.
Devido a essa conexão com a região, gostaria um pouco abordar a ideia ou a sugestão da extensão do local e da região, e além do mais, dos desafios do CineEco no futuro próximo e se esta ideia de extensões também não é, de certa forma, quase uma perda identitária, porque o, e como bem sabemos, o CineEco é em Seia.
Pelo contrário. A ideia das extensões não acho que seja uma perda identitária. Será, pelo contrário, uma forma de expandir essa identidade, elevar essa identidade, essa peculiaridade, essa especificidade, a outros pontos, também para fora do território português. Portanto, vejo na razão inversa, que é elevar essa identidade que queremos e temos vindo sempre a trabalhar nesse sentido.
Como desafio, um festival de cinema com programação paralela que dialoga com a cidade, uma cidade como sabemos na montanha, com a floresta, com a serra, com o território, com os costumes, as tradições. Esse trabalho tem sido sempre feito, obviamente, sempre secundado pela programação paralela. Queremos muitos debates, temos, só para referir, por exemplo, espectáculos multidisciplinares, e há essa importância do diálogo com o território. Mas, claro, isto é um festival, como já deve saber, e devemos repetir isto em todas as entrevistas, mas é um dos mais antigos do mundo, de forma continuada e ininterrupta durante 32 anos. Esse conceito e essa valência que queremos manter, associado ao dispositivo específico.
Toda a programação poderá ser consultada aqui

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