Se o Sombra (Pedro Ferreira), personagem que contrastava no título da sua primeira longa-metragem, “Até Ver a Luz”, tinha um lagarto-barbudo baptizado de “Jacaré”, é ziguezagueando por curtas e longas que alimentam esta família cinematográfica que chegamos a um verdadeiro crocodiliano. O título sequestra essa criatura rastejante, uma “arma de Chekhov” com um lado de running gag, porque esse mesmo réptil tem sentimentos, alerta um dos moradores do bairro, para que não haja provocações desnecessárias.
Estamos cá, novamente, na Reboleira, labiríntica nessa metragem inaugural, pouco a pouco demolida em “O Fim do Mundo”, encantada por um escapismo musical em “Manga d’Terra”, agora em modo gallows humour, como se Guy Ritchie (antes da sua industrialização), falasse crioulo e bailasse ao som de funaná. Sim, é uma comédia, com gangsters, mafiosos e personagens que surgem aqui e ali para dar corpo ao biótopo, estabelecendo contacto através da rua. Basil da Cunha conhece o seu espaço e as suas pessoas. É um dos cineastas portugueses actuais com maior noção do seu próprio know-how e, com poucos ovos, faz omeletes mais apetitosas do que muitos outros. Deixando de lado algumas arestas, o filme ocupa o território e a narrativa como poucos conseguem, não se pavoneia, não se incha como o réptil do título para parecer maior do que as suas presas, nem sequer finge estar morto. É isto e aquilo: a Reboleira em estado trágico e de humor negro.
Crónica de subúrbio, “O Jacaré” opera sobre a coexistência de duas vidas. Se, por um lado, denuncia a brutalidade policial e sugere que o fim da chamada “polícia de proximidade” abriu espaço para estes esquadrões de intervenção, por outro nunca abandona a dimensão pastiche do crime organizado, dos golpes e das artimanhas. Não há vitimismos, apenas formas de sujeição social … e sim, a cor da pele entra na equação, tal como o crioulo, assumido como nome de código, numa marginalização voluntária perante a imposição do “português correcto”. Basil da Cunha aproxima-se, como tem feito ao longo da sua obra, destas comunidades de forma paralela e, por vezes, mais lúdica do que Pedro Costa. Ambos, porém, captam as suas pessoas, transformam-nas em personagens com uma cumplicidade rara e, nesse registo contínuo, filmam a resistência de um povoado, os “índios resilientes” deste faroeste que proclama progresso “civilizado”, se quisermos enquadrá-lo num pensamento discursivo mais populista.

“O Jacaré”, em todos os sentidos, fala-nos desse medo. O rastejar do caimão reserva alegorias, figurações, fobias do exterior e dos avanços “civilizacionais”, enquanto os moradores, as dezenas de figuras aqui apresentadas, com os seus dramas e elegias embalados por uma música sempre presente, constroem fortalezas e isolamentos. No meio de tudo isto, há quem sonhe partir, num despertar adiado, com dinheiro a escorrer entre os dedos.
Basil da Cunha regressa como mestre do seu pedaço, e isso não é pouco. É precisamente essa intimidade com o território que o coloca acima do estabelecido, e ainda assim, este é talvez o filme em que mais se perde nas suas linhas encruzadas narrativas, numa linearidade pontualmente interrompida pela vontade comunitária e por alguns rasgos de exibicionismo técnico. Sabemos, Basil, que és capaz de maravilhas, de acrobacias tecnicistas feitas com poucas alavancas. “O Jacaré” é, acima de tudo, uma razão de continuidade.

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