De todos os adjetivos que possamos usar para qualificar Christopher Nolan, um ser a esta altura quase mítico por uma certa comunidade de “film bros”, há um que podemos arranjar um certo consenso: ambicioso. Foi essa ambição que o não fez ficar satisfeito a filmar a criação da bomba atómica para agora explodir para o território da epopeia, ao decidir filmar “A Odisseia” de Homero. E desde logo, haja um ponto positivo: onde outros cineastas se vergariam aos estúdios para recortar este épico em dois ou três filmes (cof cof), Nolan decide contar tudo num só filme de 3 horas de duração. 

Sinto que preciso de reforçar este texto com o que é uma visão minoritária: o melhor Nolan dos últimos 10 anos para mim foi “Tenet” (e não “Dunkirk” ou “Oppenheimer“). Dito isto, vim com expectativas baixíssimas para este novo projeto, e sim, foram de certo modo cumpridas. Navegando por entre as múltiplas aventuras que Ulisses e companhia enfrentam, enquanto tentam regressar a Ítaca, o filme permite recuperar uma tradição de “conto oral” passado de personagem a personagem – isto é, não é só um narrador; apesar de nunca termos dúvidas de quem é o protagonista aqui, claro. Alguns contos operam melhor que outros (o de Circe e o de Cyclops são particularmente impactantes, uma semana após o visionamento; já o das sereias parece desperdiçado). Há até aqui passagens que de certo modo remetem para uma poesia visual de um Terrence Malick

Claro que sendo um filme deste cineasta, e aqui também me costumo insurgir contra a maioria, o tratamento do som e da banda sonora continua excessivo, logo o espectador pode agradecer alguma cera que tenha nos ouvidos. Há sequências, como as da guerra de Tróia, em que a percussão dos tambores é tão forte que ameaça tombar para a paródia (eu lembrei-me imediatamente da personagem de Adam Sandler em “The Hot Chick”). Também uma marca dele, os diálogos e as transições cada vez mais rápidas por vezes dão a impressão de estarmos ainda a ver um trailer – apesar de não com a incidência tão óbvia de obras anteriores. 

A mim parece-me que Nolan é um cineasta com grande conhecimento das técnicas, e dos formatos de projeção, e da história da sétima arte no geral. Alegadamente ermita, no sentido de recusar ter um smartphone em 2026, e logo conseguiu até agora evitar e-mails e redes sociais (“mandam-me alguns e-mails impressos por correio” confessou ao programa “60 Minutes“), o seu aparente conservadorismo também tem aqui uns “twists” interessantes para irritar a ala direita. Se por vezes a sua ambição em colocar o espectador dentro do filme, evitando que este seja um mero elemento passivo, tome contornos forçados (no som envolvente, na montagem frenética que faz parecer que estamos ainda a ver um trailer), há nesta obra pelo menos indicações de uma certa resistência face ao cinema de pastilha atual produzido em Hollywood, de mascar, chutar para o lixo, e esquecer no dia seguinte. Por isso, sim, merece ser visto no maior dos ecrãs. . 

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