Duas mulheres, geografias distintas, estratos sociais diferentes, à procura não de uma identidade, mas de um recomeço (a redenção, a segunda oportunidade, a esperança no horizonte, como quiserem)… e nesse mote, a “fera” pressiona as suas dianteiras. “The Lion at My Back”, da cipriota Toni Mischia (segunda longa-metragem e segundo a realizadora, segundo tomo de uma eventual trilogia iniciado com o seu “Pause” em 2018), procura nessa metáfora da bestialidade a construção do desespero, mas o resultado é um filme de realismo tímido, empenhado em erguer uma história de miserabilismo e, através dele, a sua superação.
Portanto, não procurem outra razão de existência senão o serviço às “mulheres fortes” (ambas “refugiadas” à sua maneira, directa ou indirecta) da vida, dissecando neorrealismos e atirando ao ar detalhes emprestados dessas mesmas personagens, sobre as quais pouco ou nada sabemos. Mas isso não interessa: a obra não discute o contexto, apenas o propósito, o desfecho, a pretensão, aquele fim conjugado na sororidade. Infelizmente, todos os caminhos que “The Lion at My Back” teria para oferecer são defraudados por uma teimosia vincada, que despreza o seu naipe de actrizes e as possibilidades da sua história. Ferve em pouca água, deixa o espectador “às aranhas”, perde tempo na sexualização de uma das suas actrizes, Elena Kallinikou (que é sim um achado!), num momento em que o realismo seco parece dar lugar ao bondage neon. Para que serve essa cena em travelling contemplativo? Nos provocar com um golden shower?
De resto, tudo calculado, sensibilidades beliscadas, eis o filme, o teaser dramatúrgico… Supostamente, havia um “leão” nos encostados, uma pressão, uma ânsia de sobreviver, as famílias forçadas pelas vicissitudes da vida. Ficou-se por isso. O filme, esse, fica para outras ocasiões, para outras ideias.
Filme visualizado no âmbito do Festival Internacional de Karlovy Vary

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