O bielorrusso Sergei Loznitsa volta, mais uma vez, a escavar o passado recente dos tempos soviéticos com os olhos postos no presente. Os seus filmes, divididos entre o documentário e a ficção, afirmam esse estado de oscilação temporal, mesmo que, no caso das ficções, esses ensaios acabem por girar em torno da própria miserabilidade das personagens: seres ora proactivos, ora determinados por grandezas ou por pequenos gestos, sempre traídos por um sistema que lhes bate nas costas com uma falsa sensação de conforto. Foi assim com “A Gentle Creature” (2017), que termina com a queda do seu “animal dócil”, e é agora retomado em “Two Prosecutors”, onde se revelam as intimidades foucaultianas de um regime que tudo observa e rapidamente actua contra qualquer “anomalia” na sua circulação.

No centro desta nova história está o actor Aleksandr Kuznetsov, enquanto procurador que, na sua tentativa de altruísmo e na ingenuidade de querer “mudar o mundo”, acaba por cair num beco que desconhecia por completo. A leitura pode apontar tanto para Estaline e a sua União Soviética como, em paralelo, para Putin e a sua Rússia contemporânea. O Cinematograficamente Falando… falou com o protagonista.

Como chegou a este projecto? Conhecia o trabalho do Loznitsa?

Para ser honesto, não o conhecia. Tinha ouvido falar dele porque é um realizador icónico na Ucrânia e na Rússia, mas infelizmente não tinha visto nenhum dos seus filmes. Ele abordou-me no Festival de Cannes (na rua ou na cerimónia de encerramento, já não me lembro bem, com a sua produtora) para se apresentar, porque tinha visto alguns dos meus trabalhos. Trocámos umas palavras e esqueci-me depois do assunto. 

Depois fui fazer a minha pesquisa, vi os seus filmes, eram de facto extraordinários, e um ano mais tarde, lá estava o email deles a oferecer um papel. O guião tinha 39 páginas … era muito pequeno. Perguntei se podia fazer uma audição. Responderam: “para quê? Já te escolhemos, só tens de interpretar o papel”. Fiquei ansioso e insisti: audiciona-me, talvez eu esteja errado para o papel. Tentei convencê-los de que estava errado para o papel. Ele não me audicionou e pronto, por sua persistência acabei por aceitar [risos]. Fizemos o filme. Tornámo-nos amigos apenas durante as filmagens; antes disso mal nos conhecíamos.

E fizeste alguma pesquisa ou preparação para este papel?

Pouca, honestamente. Como dizia várias vezes: um actor português precisaria de fazer pesquisa porque não conhece os detalhes do que aconteceu ali. Mas sendo da Europa de Leste, cresci a ouvir essas histórias todos os dias. É como para ti conheceres o PREC ou os fadistas e para nós, prisioneiros políticos, o Gulag, a NKVD, é informação comum. Está no sangue, no ADN. Sem contar que cem anos depois, mais ou menos, as mesmas situações continuam a estar presentes nas ruas da Rússia. Alguns amigos meus estão presos. Toda a gente tem um receio ligeiro de dizer qualquer coisa que possa ser lida como anti-russa. Há muita censura. Portanto, não precisas de fazer pesquisa: basta abrir os olhos e perceber que o que se passa nas ruas hoje é o mesmo de há 90 anos. Já sabia tudo isso.

É isso que encontro nos filmes de Loznitsa. Há sempre um regresso ao passado, a histórias de outras épocas, mas também uma conversa permanente com o presente. Teve a sensação de que, neste filme, está igualmente a dialogar o nosso tempo?

Cem por cento … e qualquer filme tem de falar do agora. A não ser que sejas um entusiasta de armaduras medievais que vai a recriações históricas por prazer, mas se fazes um filme sobre cavaleiros medievais, o filme tem de falar do presente. Se fazes um filme sobre o 25 de Abril, tem de ser um filme sobre agora, de alguma forma. Essa é a ideia de realizar qualquer filme: porquê agora? Porquê vemos algo que aconteceu há cem anos? Não é um documentário onde se listam factos, é um convite à reflexão sobre o que acontece hoje.

O Loznitsa fez o que tinha de fazer: reflectiu sobre algo que foi ignorado durante anos, porque as prisões políticas são uma coisa enorme na Rússia e milhões de pessoas morreram ali. Ele quer trazer o mundo (sobretudo europeu, inglês e americano) a ver que a União Soviética não foi um bom sistema. Não romantizem isso! Foi muito, muito mau. E o filme está agora a ter muito sucesso nos Estados Unidos, provavelmente porque estão a viver preocupações semelhantes com Trump. O mundo anda mesmo em espirais.

Pensamos que dois mil anos de história nos tornaram diferentes, de todo. As pessoas fazem as mesmas coisas durante séculos.

Ao ver o filme, fiquei com a sensação de que ele desenha um círculo vicioso do próprio sistema. A sua personagem tenta ajudar um prisioneiro e, sem revelar demasiado, acaba por ser engolida pela mesma engrenagem que procurava contrariar. Nesse sentido, o filme apresenta o sistema como um espaço profundamente kafkiano, onde os indivíduos se vêem aprisionados por mecanismos maiores do que eles próprios. Há uma melancolia muito forte que atravessa toda a narrativa, e a sua personagem parece carregar esse sentimento de forma particularmente intensa. Concorda com essa leitura?

Diria que é directamente pessimista, nem sequer apontaria para o melancólico. E como disse antes, alguns filmes têm de ser pessimistas. Não há nada de bom no que aconteceu ali em 1937. Era uma época assustadora. Isso não quer dizer que digamos que não há saída, que tudo é negro e escuro. Dizemos que há cem anos fizemos isto, isto e aquilo, estava terrivelmente errado e levou a estas consequências. Sem esquecer que há imenso humor. Para mim este filme é uma comédia negra, um Wes Anderson para pervertidos, diria. Especialmente se és russo (vês aquelas pinturas nas paredes, os pequenos detalhes dos figurinos) são coisas muito engraçadas. 

O Loznitsa é um pequeno génio obcecado com detalhes, mas o filme não te dá instruções sobre o que fazer. Não é o “Braveheart” com o Mel Gibson, onde ele combate os ingleses e inspira a Escócia a lutar. Este filme diz: “sim, foi isto que aconteceu. E vocês não acham que estamos a fazer o mesmo agora? É um espelho da sociedade de hoje.” O Navalny volta à Rússia, vai preso e é morto. 

Durante todo o filme esperas que algo mude. Esperas um twist. A ideia central é que não existe tal ‘coisa’. Sabes o que vai acontecer … ele vai ser morto. Só que aprecia a viagem. Vê como tudo acontece. É necessário mostrar às pessoas algo pessimista às vezes, porque precisam de reflectir por si próprias.

É curioso falar desse sucesso nos Estados Unidos, até porque muitos poderão ver no filme um reflexo do clima político associado aos anos Trump. Hoje, quando pensamos em cinema político, parece que estamos mais habituados à sátira, à ironia e até à caricatura do que a obras marcadas pelo pessimismo e pela desilusão. Como explica o impacto de um filme como este, tão sombrio e pouco conciliador, numa altura em que as abordagens satíricas parecem dominar a discussão?

No nosso caso, o humor não é aberto, está todo nas entrelinhas, e isso é muito russo, porque durante séculos tivemos presidentes e czares totalitários. Não podes fazer arte de forma aberta. Não podes fazer um filme na Rússia a dizer que Putin é uma merda, automaticamente vais preso. Na América ainda podes dizer que Trump é uma merda sem seres cancelado. Por isso desenvolvemos este sistema à Tarkovsky, onde se fala de coisas profundas nas entrelinhas, fingindo que é apenas uma situação à Tchékhov. A situação à Tchékhov é pessoas a beber chá enquanto alguém está a morrer, a falar sobre a morte. É algo muito russo, muito da Europa de Leste, e os americanos, ao ver este filme, conseguem distanciar-se do que vêem. Para os russos, ver “Two Prosecutors” é uma experiência diferente, reconhecemos tudo, está demasiado perto. 

Nos Estados Unidos, sente-se como algo distante, e por isso conseguem conectar-se ainda mais. É como com “Parasite”: é um tema muito próximo para os sul-coreanos, mas o mundo todo ficou louco com o filme, porque ao mesmo tempo é uma metáfora que todos traduzimos para a nossa sociedade. É um instrumento teatral: quando fazes algo muito claro, como uma animação, por exemplo (quando vês “Ratatouille”, não pensas que és um rato), de alguma forma traduzes essas ideias para a tua vida, porque estás seguro de não te identificares demasiado. 

Se fizer um filme sobre os portugueses, podes ficar demasiado na defensiva. Mas se virem um filme sobre islandeses, sentem-se mais seguros para admitir que esses sentimentos existem. Talvez seja isso.

Muito certeiro no que diz sobre os retratos estrangeiros de nós [portugueses], somos muito protectores sobre como os outros nos retratam. [risos]

Toda a gente é assim, os russos também. Por isso é importante que os russos façam filmes sobre russos, que os americanos assistam, e que encontrem algo para si. E é também por isso que é muito interessante ver filmes feitos por portugueses para portugueses, por islandeses para islandeses, e então nós, como russos ou portugueses, vemos e reconhecemos coisas noutras culturas.

Continuando nesta senda dos retratos. Antes deste filme, esteve envolvido em algumas produções internacionais como “Fantastic Beasts: The Secrets of Dumbledore”, baseada no universo de J.K. Rowling. Queria ligar essa experiência à sua própria identidade enquanto actor russo nascido na Ucrânia. Com esse contexto e tudo o que tem acontecido nos últimos anos, sente que a sua forma de olhar para a identidade, para a memória e para a representação mudou? O facto de ser um actor ucraniano influencia a forma como aborda certas personagens, como esta?

A minha mãe é russa, o meu pai é ucraniano, e os retratos que os americanos fazem de russos em grandes produções? Terrivelmente errados. É tudo cartoon. Por isso é extraordinário ver Yura Borisov em “Anora”. É verdadeiramente russo e um dos melhores actores russos, e o Sean Baker, sendo americano numa produção americana, retrata aquele matulão russo como um ser humano real, muito concreto, e o mundo ficou: “uau, que fantástico!” É o que devíamos fazer com cada nação e cada papel nacional. Se há uma personagem portuguesa num filme do Yorgos Lanthimos, acredito verdadeiramente que tem de ser interpretada por um actor português. Os filmes estão a caminhar nessa direcção (actores coreanos a interpretar coreanos, japoneses a interpretar japoneses). Não quer dizer que não possa interpretar um britânico ou um americano, mas não pode ser regra que americanos interpretem todos os papéis russos como acontecia há cinquenta anos, com o Arnold Schwarzenegger a fazer de soldado russo.

Falou no Yura Borisov … também o vi em “Compartment No. 6”, um papel extraordinário!

Sim, sem dúvida.

Quanto aos realizadores, trabalhou com o Loznitsa, que é bielorrusso-ucraniano, e também com o russo Kirill Serebrennikov (“Leto”). São ambos nomes agora na lista negra do regime russo. Pensa trabalhar com realizadores russos que não estejam nessa lista?

Não me importa isso, não é importante para mim. Não sou aquele ucraniano radical que só trabalha com russos na lista negra máxima, mas também não trabalharia com russos pró-Putin. Não por princípio, é simplesmente porque não encontraríamos terreno comum. Como podemos fazer um filme juntos se acreditamos em coisas fundamentalmente diferentes?

Agora, se há um realizador russo que não está na lista negra, mas que é uma pessoa decente, que vive na Rússia mas é contra a guerra, que não fala publicamente porque há milhares de razões para ter medo de emigrar como fiz, trabalharia com ele sem problema. Não aconselho ninguém a destruir a carreira e emigrar como eu. Foi uma necessidade para mim. Não tenho problemas em voltar à Rússia, se fosse possível. Simplesmente não é, iria automaticamente ser preso. Mas não acho que precisas de te radicalizar para fazer grande arte. Só precisas de ser humano e não apoiar a guerra. Se não apoias a guerra, estou pronto a trabalhar contigo.

Leto

O Serebrennikov está na lista negra, claro, mas é também um grande realizador. E há quase uma ligação directa: os grandes artistas russos não conseguiram não falar. O Zvyagintsev, que ganhou um prémio em Cannes este ano com “Minotaur”, o Serebrennikov, o Loznitsa, são grandes artistas e vêem a ligação directa entre ficar na Rússia, ceder ao centro, e perder-se como artistas. Não é sobre ser boa pessoa, é sobre a arte não conseguir existir quando o centro de poder é tão forte. 

Saí da Rússia não só porque sou pró-ucraniano e contra o Putin. Saí porque não há zero hipótese de fazer bons filmes lá, todos são patrióticos, ou contos de fadas, ou propaganda, ou telenovelas estúpidas, porque não podes falar sobre conflitos, sobre matérias complicadas. Toda a gente tem medo. Se não houvesse esse centro de poder, se a Rússia fosse como a América onde se pode reflectir sobre temas difíceis, ficaria lá e protestaria contra a guerra por dentro. Mas o país é muito radical. Ou fazes coisas de propaganda, ou vais-te embora. É assim.

E com isto chegamos a novos projectos?

Estou a acabar um filme chamado “Young Stalin”, uma grande produção sobre o jovem Estaline, baseado num livro. Era um ‘tipo’ bastante interessante quando era novo: andava a assaltar bancos e comboios de ouro, era como o Tommy Shelby de “Peaky Blinders”. Filmámos metade e agora vamos a Riga fazer a segunda metade. O Cosmo Jarvis (“Shôgun”) faz o Estaline, eu faço um papel que ainda não posso revelar. Acredito que será um filme extraordinário, e esperamos que vá a Cannes ou Veneza, julgo ter hipóteses para isso. É sobre o Estaline mas não é político: é sobre um jovem rebelde georgiano ao serviço de uma boa causa que lentamente se vai perdendo, tornando-se o psicopata que o Estaline viria a ser. 

Tenho mais alguns projectos dos quais não posso falar, e no final deste ano começo o meu primeiro filme como realizador, que eu próprio escrevi, para rodar em Londres. Estou a fazer a transição para a realização. Estudei como realizador, acabei por me tornar actor por acidente durante quinze anos, e agora regresso às origens. 

A minha ambição é ser realizador. Sou um realizador que sabe actuar. Os actores têm de ter aquela vontade absoluta de encarnar alguém, não sinto tanto isso. Sinto muito mais prazer em criar o mundo, a criar significados, ligações, e a traduzi-los para o ecrã. Estou a perder a paixão pela pura representação. Se actuo, quero actuar em algo com significado. No entanto, e sobretudo, é dirigir que mais ambiciono.

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