Acreditamos em Ti” poderia muito bem ser o título ou as palavras de conforto dirigidas a uma união contra um sistema que parece mais empenhado em descredibilizar o testemunho da vítima do que propriamente em protegê-la, mas é desta forma que chegamos a “On vous croit”, apresentado no Festival de Berlim de 2025, mais concretamente na secção Perspectives, de onde saiu com uma menção especial, é esse retrato, no prisma do Tribunal de Protecção de Menores. À partida, poderia ser entendido como um panfleto de palanque, uma manifestação de punho erguido em que o activismo recorre ao cinema nos seus propósitos mais corajosos. Contudo, para lá desse registo de consciencialização, existe uma abordagem cuidadosa que pede tempo ao espectador: uma audiência judicial de 55 minutos, única, decorrida num só dia e em tempo real.

Somos confrontados com palavras que mapeiam uma verdade … ou várias … engrandecidas por uma actriz em perfeito estado de (des)graça… calma, não a reduzimos à sua interpretação, porque é nessa descostura emocional, no desespero transmitido pelo olhar, nos constantes toques no nariz, na pele arrasada por dias sucessivos de stress acumulado e nas olheiras, fruto de noites mal dormidas, que encontramos Alice, mãe de dois, envolvida numa batalha pela custódia contra um ex-companheiro abusivo e, alegadamente (o uso não é uma protecção no real como também no “mundo ficcional”), molestador dos próprios filhos. Essa actriz é Myriem Akheddiou, uma verdadeira tour de force.

Com isto para salientar que “On vous croit” estreia agora nas salas portuguesas, e o Cinematograficamente Falando… falou com o realizador Arnaud Dufeys, que, juntamente com Charlotte Devillers (enfermeira que trabalha diariamente com vítimas de abuso), esteve por detrás desta história para acreditar, mesmo só ouvindo.

Começaria por uma pergunta simples e mais geral: por que razão escolheram esta temática e como surgiu esta ideia?

A ideia do filme nasceu da experiência vivida por Charlotte enquanto mãe protetora. Como muitas mulheres, durante vários anos teve de prestar contas à justiça para justificar o facto de respeitar a recusa do filho em regressar para junto do pai, ao mesmo tempo que este revelava factos de incesto. Esta é uma situação vivida por muitas mulheres em França e em todo o mundo. Em casos como aquele que ela viveu com o seu filho, a justiça funciona frequentemente a várias velocidades.

Enquanto a investigação relativa às acusações de incesto estagna e não conduz a um julgamento penal, o progenitor acusado continua a beneficiar do direito de guarda ou de visita que lhe tinha sido anteriormente concedido pelo tribunal de família. O que vemos no filme é precisamente a convocação de uma mãe e dos seus filhos que têm, uma vez mais, de se explicar perante outra jurisdição: o tribunal de menores, responsável por tomar decisões no interesse das crianças.

Para além do caso de Charlotte, assistimos a audiências e recolhemos numerosos testemunhos de mulheres confrontadas com situações semelhantes à da personagem do nosso filme. Ao tomarmos consciência das estatísticas e da dimensão deste fenómeno, tornou-se evidente para nós que era urgente abordar esta temática. Queríamos chamar a atenção para a falta de comunicação entre os diferentes procedimentos judiciais e para os efeitos que isso pode ter na confiança que as crianças depositam no mundo dos adultos. 

Quando não se sentem acreditadas nem protegidas, as crianças acabam inevitavelmente por romper com esse mundo adulto que deveria defendê-las, com repercussões que ultrapassam largamente a sua história pessoal e que questionam o próprio funcionamento da nossa sociedade.

Charlotte Devillers & Arnaud Dufeys no Festival de Berlim

O filme consegue evitar qualquer sensacionalismo e aposta numa tensão muito contida e silenciosa. Como trabalharam essa contenção emocional sem perder o impacto dramático da história?

Todo o nosso trabalho consistiu em acompanhar o mais possível o ponto de vista desta mulher e aquilo que ela sente. Tudo começa com a sensação de não ser uma “boa mãe”, porque os filhos lhe guardam ressentimento e porque toda a estrutura familiar se desmoronou. A partir dessa constatação inicial, queríamos que o espectador sentisse, juntamente com ela, o que significa ter de suportar as palavras de quem mente, acusa e julga, sem ter o direito de reagir, sob pena de se voltar também contra si a própria justiça.

Era essencial mostrar que, depois do caos inicial em que esta família mergulha, esta mãe não tem outra escolha senão demonstrar sangue-frio, contenção e dignidade para poder ser ouvida. Todo o filme foi pensado para permitir ao espectador sentir e compreender, em vez de julgar; escutar, em vez de falar. Procurámos permanecer constantemente na complexidade e na nuance, dando um lugar central à observação da pluralidade dos pontos de vista, de modo a evitar qualquer abordagem simplista ou maniqueísta. 

Todas as escolhas de encenação foram feitas nessa lógica, com a preocupação constante de manter a atenção do espectador, colocando-o simultaneamente o mais próximo possível da experiência vivida por esta mãe.

O tribunal surge quase como um palco onde cada palavra pode alterar destinos e onde a verdade, nesta dimensão performativa da justiça, parece ser maleável e calculada, seja na escolha das palavras ou no recurso à emoção através do discurso. Através deste filme, como encaram o papel da justiça neste domínio específico?

Cada personagem, tal como cada pessoa na vida, possui uma verdade que lhe é própria. Tendo em conta o que está em jogo para cada um, todos procuram defender o seu ponto de vista a qualquer custo, mesmo que isso implique deturpar, amplificar ou minimizar certos aspetos da realidade. A juíza tem a difícil tarefa de se posicionar no meio destes relatos contraditórios. Era também essa posição que queríamos fazer o espectador sentir. A determinada altura, a verdade tal como é percepcionada pelo espectador constrói-se no cruzamento destas múltiplas versões, colocando-o numa posição próxima daquela que a juíza ocupa ao longo de toda a audiência.

O que mais nos importa nesta abordagem é termos mostrado o exemplo de uma juíza que coloca a escuta e a observação no centro do seu trabalho. Uma juíza que atribui uma importância fundamental à palavra de cada pessoa e que dedica tempo a considerar a complexidade de cada situação antes de tomar a sua decisão.

Apesar da dureza do tema, o filme nunca perde totalmente a esperança. Era importante para vocês deixar espaço para uma forma de reconstrução emocional?

Sem dúvida. Não seria construtivo para ninguém evidenciar os disfuncionamentos da justiça sem mostrar também a função reparadora que ela pode desempenhar. No filme, queríamos mostrar que, através da palavra que vai desenvolvendo ao longo da audiência, Alice se reapropria progressivamente da sua história, mas também do seu lugar enquanto mãe protetora. É porque lhe é finalmente concedido o espaço necessário para se expressar que ela começa, de certa forma, a fazer justiça a si própria.

Ao pôr em palavras aquilo que ela e os seus filhos viveram, toma consciência de que não é essa “má mãe” que alguns quiseram fazê-la acreditar que era. Era importante para nós que subsistisse um vislumbre de esperança no final da audiência. Sem negar as feridas nem as dificuldades que permanecem, queríamos que se sentisse que um caminho de reconstrução é possível e que Alice poderá começar a reconstruir o vínculo com os seus filhos.

A câmara permanece muitas vezes muito próxima das personagens, em particular em Alice, interpretada por Myriem Akheddiou, quase sem lhes deixar qualquer possibilidade de fuga. Como pensaram a linguagem visual do filme para transmitir essa sensação de pressão constante? E como surgiu a participação da actriz no projeto?

Escrevemos o argumento a pensar em Myriem, que eu já conhecia e com quem tinha trabalhado anteriormente. Quando leu o argumento, quis imediatamente interpretar o papel e receava até que mudássemos de ideias. Mas a personagem e o filme foram concebidos para ela desde o início. Em termos de referências formais, tínhamos em mente tanto “Jusqu’à la garde”, de Xavier Legrand, pela forma como acompanha o ponto de vista de uma mulher perseguida e mantida num estado permanente de tensão, como “A Paixão de Joana d’Arc”, de Carl Theodor Dreyer, pela maneira como permanece constantemente ligado ao corpo e ao rosto de uma mulher encurralada por aquilo que acontece fora de campo.

A escolha do formato 4:3 veio também reforçar essa sensação de enclausuramento. Pensámos as cenas que antecedem e seguem a audiência como cenas de predação: no primeiro ato, Alice e os seus filhos são as presas; no terceiro, Alice inverte progressivamente essa relação de forças até se tornar predadora para proteger os filhos.

Quanto à cena da audiência, que dura cinquenta e cinco minutos, a ideia era permitir que uma espécie de torno se fosse apertando muito lentamente em torno dos rostos das personagens.

Num contexto em que muitas narrativas sobre a violência recorrem ao choque visual, optaram por mostrar sobretudo as consequências emocionais e psicológicas, bem como a descrição transmitida pelo relato. Esta escolha impôs-se desde a escrita?

Sim, foi uma escolha sobre a qual estávamos de acordo desde o início. Mas creio também que é algo que atravessa toda a minha pesquisa cinematográfica. O que mais me interessa é a psicologia das personagens. Preciso do cinema para compreender o mundo, para o tornar compreensível e para revelar a sua complexidade. Na minha perspectiva, temos uma responsabilidade na forma como representamos a violência. Desconfio de um cinema que a torna consumível ou espectacular. A violência faz parte da realidade e é importante falar dela, mas creio que é necessário encontrar a distância certa para não a transformar num objecto de entretenimento.

Neste filme, as consequências emocionais, psicológicas e relacionais pareciam-nos muito mais importantes de explorar do que a própria violência. Queríamos que o espectador fosse confrontado sobretudo com aquilo que ela produz: a destruição dos indivíduos e das relações entre eles e com o mundo exterior. Aliás, esta é uma reflexão que continua a alimentar o meu trabalho. O meu próximo filme explora igualmente as consequências psicológicas da violência, mas desta vez do ponto de vista de um homem confrontado com os actos que ele próprio comete, devido a uma incapacidade inicial de dizer não e de estabelecer limites.

Recearam que o filme pudesse ser interpretado como uma tomada de posição política ou judicial, mais do que como uma reflexão humana e social? Ou era precisamente essa a vossa intenção: sensibilizar através desta história?

Não receámos isso, mas fomos efetivamente confrontados com essa questão em várias ocasiões. Alguns interlocutores, nomeadamente do lado dos difusores, fizeram-nos por vezes notar que o filme poderia ser visto como militante, em particular devido à escolha do título. Da nossa parte, assumimos plenamente a vontade de apoiar a palavra das vítimas e de contribuir para uma reflexão sobre a forma como a nossa sociedade acolhe e trata estas situações. Procurámos, acima de tudo, mostrar as consequências muito concretas que determinadas decisões ou disfunções podem ter nas crianças e nas suas famílias.

Aliás, o filme tem sido muito bem acolhido por numerosos profissionais da justiça, que também nele se reconhecem através das dificuldades que enfrentam no exercício da sua profissão. Uma das críticas que por vezes nos foi dirigida prende-se com o receio de que o princípio fundamental da presunção de inocência possa ser posto em causa. Mas a nossa reflexão situa-se noutro plano. Não procuramos anular o princípio da presunção de inocência, mas antes evidenciar que existe igualmente um princípio de precaução, que consiste em proteger as crianças quando fazem revelações graves e manifestam a vontade de deixar de estar em contacto com um dos progenitores.

On Vous Croit (Charlotte Devillers & Arnaud Dufeys, 2025)

Depois de terem recolhido tantos testemunhos reais durante a investigação, houve algum momento em particular que vos tenha marcado profundamente e que tenha influenciado diretamente uma cena ou uma decisão no filme?

No caso de Charlotte, parece-me evidente que foi guiada pela sua própria experiência e pelo eco que encontrou nos relatos das muitas mulheres que conhecemos. Quanto a mim, há uma imagem muito precisa que me surge quando penso na personagem de Alice. É a de uma mulher que testemunhava publicamente, no âmbito de uma associação, a sua experiência enquanto mãe protetora. Fiquei impressionado com a forma como parecia carregar nos ombros e no corpo todo o peso daqueles anos de processos judiciais, como se a violência do que tinha vivido tivesse ficado inscrita fisicamente nela.

Aliás, não se trata de um caso isolado. Muitas vezes observei como as pessoas que viveram traumas prolongados, sem que estes fossem reconhecidos na sua verdadeira gravidade, transportam no corpo os estigmas do sentimento de injustiça. Há algo na sua postura, na forma como se mantêm de pé, como olham ou ocupam o espaço, que revela o grau de pressão a que estiveram sujeitas durante anos.

E quanto aos vossos projetos futuros? Tencionam continuar a trabalhar juntos enquanto dupla?

Antes de “On vous croit”, Charlotte e eu já tínhamos escrito outro projeto em conjunto, intitulado “Plaisir”, mas para já ainda não sabemos se se concretizará, nem de que forma.

O que é certo é que a escrita destes dois projectos surgiu de forma muito natural. Durante vários anos encontrámos uma verdadeira complementaridade no trabalho de escrita, com sensibilidades e experiências que se alimentavam mutuamente.

Em contrapartida, a experiência da rodagem e, depois, da promoção de “On vous croit” nem sempre foi tão evidente. Foi a primeira experiência de realização de Charlotte e estou convencido de que a sua presença no set trouxe muito ao filme. A sua experiência pessoal esteve na origem do projeto e alimentava constantemente o meu olhar e o de toda a equipa. Parecia-me, por isso, natural que ocupasse o lugar de co-realizadora num filme que também transportava a sua voz. Esta colaboração trouxe-nos muito, tanto a nível humano como artístico. Mas também nos confrontou com diferenças de experiência e de percepção que, por vezes, tornaram certas etapas mais complexas.

Com o distanciamento que o tempo permite, penso que esta experiência foi justa e necessária para este filme em particular. Hoje, no entanto, sei que a forma de colaboração que mais me convém está mais do lado da escrita do que da co-realização.

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