De volta às (re)descobertas! No Fundão chega aquela altura do ano em que a cidade se converte num santuário, respondendo às preces de uma cinefilia em estado de ebulição, inquieta não pelo estado do mundo ou pelas ‘coisas’, mas pela condição a que a sua própria “filia” foi relegada: secundarizada na arte em que se manifesta. O cinema tornou-se escape, temeu-se o confronto, cuspiu-se na sua essência. Porém, os Encontros de Cinema do Fundão, que regressam uma vez mais à A Moagem – Cidade do Engenho e das Artes, respondem com exactidão aos desalentos e aos desesperados: há cinema, há cinefilia, há convívio, há culto das sombras e das luzes. Continua-se, persiste-se, encontra-se refúgio.
Nesta nova edição, Alex Cox, cineasta de culto por detrás de obras como “Repo Man” ou “Sid and Nancy”, é o principal “objecto” de resgate desta edição. A sua filmografia surge não em modo retrospectivo, mas como gesto de posicionamento, de revanche e, porque não, de revisionismo. Sair do canónico para reflectir sobre aquilo que verdadeiramente o é: um cinema singular, cruzando géneros e fervorosamente políticos, mesmo quando se disfarça sob a industrialidade dessas tipologias. Não estando presente fisicamente, dir-se-ia que a sua espiritualidade permanecerá naquelas salas através dos seus filmes, que nos acompanharão estes dias, encontrando boa companhia noutros olhares e em outros resgates, onde “Longe Daqui”, de João Guerra, dá igualmente um passo em frente. Tudo isto sob a escuta de um outro fantasma, talvez sentado na primeira fila: John Ford …
Contudo, de romaria lá iremos. José Oliveira, programador e realizador, é desafiado a revelar as costuras desta programação, numa provocação lançada pelo Cinematograficamente Falando …, enquanto a programação completa pode ser consultada aqui.
Num momento em que os Encontros parecem consolidar uma identidade muito própria (entre a cinefilia de culto, a arqueologia do cinema e a criação de comunidades temporárias de pensamento) o que significa, hoje, dedicar uma edição inteira a um cineasta como Alex Cox, cuja obra nasce precisamente do cruzamento entre marginalidade, punk e cinema de género?
Tudo o que dizes sobre o Alex Cox está certo. Há muito que estamos a preparar uma retrospetiva desse grande cineasta que nasceu das raízes do movimento punk inglês. Lamentamos muito que ele não esteja presente, devido a problemas físicos que já o começam a afetar, mas todo este bloco foi preparado com ele, produzimos juntos conteúdos inéditos, a escolha da carta-branca, a estreia do seu último e por ventura derradeiro filme… é importante sobretudo esse lado punk, inventivo, do desenrascanço, da má-educação e do não-compromisso, que o liga muito a diversas forças motrizes que nos últimos anos aterraram neste território e lhe mudaram indelevelmente a paisagem cultural e social, como o Festival punk Fatela Sónica, os Mata-Ratos, diversas associações guerrilheiras que fazem muito com pouco, etc.
A estreia nacional de “Dead Souls: Almas Mortas” parece condensar várias linhas históricas e estéticas: Gógol, western, desvio literário, reinterpretação contemporânea. O que é que interessa mais aqui: o filme como adaptação ou como gesto de sobrevivência de uma cinefilia ainda capaz de atravessar literatura, género e ruína industrial do cinema contemporâneo?
Interessa muita coisa, mas sobretudo é um filme vital, carregado de invenções do arco-da-velha, frescura, ironia, descaramento. Não se trata do filme crepuscular de um “velho” sábio ou de uma despedida lacrimosa, mas sim de mais um gesto de risco de um artista que arrisca tudo em cada cena, e em primeiro de tudo a sua reputação. O humor, a posta-em-cena sofisticada e que inacreditavelmente lembra Jacques Tati – como disse o Mário Fernandes quando eu, ele e o João Palhares vimos o filme em primeira mão em Almería, onde foi filmado – ou os comentários destruidores aos dias de hoje numa cena contemporânea que é espetada ou enxertada no século XIX, tornam o filme absolutamente surpreendente, divertido, negro e trágico.

A presença de obras como “Repo Man”, “Walker” e “Sid e Nancy” reforça a ideia de um cinema de choque, atravessado por cultura punk, política e anti-heróis. Mas num contexto como o Fundão, onde a paisagem é mais lenta, mais telúrica e menos urbana, como é que estes filmes reconfiguram a percepção do território, ou será o território que altera a leitura destes filmes?
Não é que queiras referir isso, mas não acredito por aí além que num território em que o tempo é de facto diferente do das grandes cidades, onde o lado telúrico e o grande meio-natural se fazem centro, se deva só mostrar filmes “lentos”, onde a terra, o lado ecológico e seus derivados estejam em primeiro plano. Aliás, dependendo das escolhas, o público até fica aborrecido.
Como referi na primeira pergunta, existe hoje em dia no Fundão uma energia criativa elétrica, onde cineastas, pintores, escritores, etc., fazem das tripas coração para levarem avante as suas visões, permitindo comunhão e irmandade. E penso que a energia explosiva do Cox pode ajudar a dar mais força a esse pessoal e também a todos os que o queiram descobrir, pois comporta de facto uma energia vital, que ajuda a não baixar os braços, a viver. Não só aos artistas, mas potencialmente a todos.
Na secção “Cine Gardunha Acolhe”, a presença de filmes ligados à geografia beirã reforça a ideia de um cinema em diálogo com o território. Mas até que ponto essa ligação é documental, afectiva ou imaginada? Existe ainda uma fronteira clara entre cinema do território e cinema projectado sobre o território?
Peguemos no caso do “Sincero, Apaixonado”, da Margaux Dauby e do Raul Domingues, que nos chegou às mãos de forma surpreendente. Tem uma propulsão documental precisa, pois, mesmo com um lado abstrato fascinante, a história que conta e os sentimentos que abarca estão indelevelmente ligados a lugares concretos, como Lavacolhos ou o Cabeço do Pião, a estação ao lado da Moagem. Ao mesmo tempo, não tem medo de tornar toda a viagem e a passagem num enlevo poético, fantástico, até mágico, pois em sintonia com o que narra. Não tem medo de se perder, tendo essa âncora num território vasto mas protetor. Assim, temos uma ligação omnívora, complexa, com o território. Faz todo o sentido que se mostre nos Encontros’ juntamente com a última obra do nosso grande inventor e artesão Nelson Fernandes, no caso o “Lumen”, que leva o seu experimentalismo e magia a alturas supremas.
Nos Encontros tem sido recorrente a construção de um diálogo entre cinematografias portuguesa e espanhola, não apenas através da programação de filmes, mas também pela presença de cineastas, críticos e escritores de ambos os lados da fronteira. Será que podemos ler aqui algo mais do que uma simples proximidade geográfica ou afinidade ocasional, talvez o esboço de uma verdadeira ideia de “cinema ibérico”, capaz de transgredir as fronteiras linguísticas, culturais e institucionais?
É um pouco essa a ideia, ver o que nos aproxima, o que nos afasta, acolher, perceber, compreender, falar. Não terá a ver com a distância ou suposta facilidade, mas mais com a crença de uma ligação afetiva e antiga profundas. E assim, é mesmo nossa intenção percebermos todas essas dinâmicas relacionais num território contíguo que partilha tantas coisas, mas que ao mesmo tempo conserva a personalidade individual. Não existe um Oliveira espanhol nem um Erice português, mas porque é que eles tinham tanto em comum e se admiravam?

Na secção de (Re)descobertas do cinema português, a articulação entre “Longe Daqui” de João Guerra e “Silvestre” de João César Monteiro parece criar um diálogo entre margens temporais distintas do cinema nacional. O que é que define hoje uma “re-descoberta”? É o tempo histórico que falha ou é a crítica e a cinefilia que chegam tarde demais?
São as duas coisas, e neste caso trata-se, novamente, de recuperar um belo filme português completamente trucidado e assassinado na altura da sua estreia. Uma receção violenta que praticamente acabou com a carreira de um verdadeiro realizador, com uma visão e sensibilidade muito particular. Não em potência, mas já confirmado, pois, como veremos, “Longe Daqui” é mais um caso único na nossa cinematografia: um road-movie antropológico e etnográfico que nos mostra paisagens, relações, coisas e lugares que mais não vimos. E, quem está no meio ou estudou um pouco a história ou a estória do cinema português, sabe que numa determinada época se teve de liquidar alguns cineastas para que outros mais canónicos ou influentes pudessem continuar a filmar sem freios. E isso é triste. E faremos sempre tudo para proporcionar um pouco de justiça. E mostrar os filmes. Não há tempo, acreditamos nisso.
Finalmente, olhando para esta edição como um todo (entre Alex Cox, cinema português, cinema ibérico, música ao vivo e cinefilia ensaística) os Encontros parecem cada vez mais menos um festival e mais uma forma de escrita coletiva do cinema em tempo real. Até que ponto esta expansão contínua do gesto cinéfilo ainda depende de uma sala de cinema, ou já a ultrapassou definitivamente? E que desafios os Encontros de Cinema do Fundão poderá ter nas futuras edições?
Percebo o que dizes, e é salutar. Mas a sala de cinema será sempre o centro da nossa missão. Mostrar bem os filmes, nos melhores suportes e condições, e falar sobre eles de maneira ao mesmo tempo informal e rica. O que penso que nos distingue de outros espetáculos, onde mais das vezes as festas pós-filmes, as vendas, o pitching, a vaidade, etc., se impõe àquilo que verdadeiramente deve interessar: o cinema, o grande cinema, tentar que essa experiência mágica ainda viva numa sala, resista, e proporcionar isso às novas gerações.
De resto, tentamos que a informalidade e a proximidade entre todos continuem, que um anónimo possa abordar o Enzo G. Castellari nas escadas e lhe pergunte o que acha de Tarantino, que possam almoçar lado a lado, sem os aspetos tolos de vedetismo. De resto, sim, isso que dizes da “escrita coletiva do cinema em tempo real” é bonito pois permite-nos a surpresa, valorizar o que nos foge na preparação, proporcionar milagres, tal como aconteceu há dois anos quando a Cristina Fernandes prometeu traduzir o livro do Viota sobre o Ford, depois de o ter conhecido aqui, e este ano cá estarão todos para o lançamento. Um pequeno mas impagável milagre.

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