Sintam-se em casa, porque o BEAST, com toda a sua programada bagagem de Leste, chegará ao Porto e residirá no seu coração durante quatro dias repletos de ‘pérolas’, não fosse “Perla”, apresentado em Roterdão, em 2025, integrar a programação, a quem foi-lhe extraído a designação, uma história de fantasmas identitários e contestações a fugas intermitentes que é um dos destaques deste ano.
Contudo, regressando ao BEAST de forma geral, na sua 9.ª edição (a um passo do redondo 10), o festival ocupará os habituais e privilegiados espaços do centro da Invicta: Batalha Centro de Cinema, Cinema Trindade, Passos Manuel e Casa Comum do Porto (sem esquecer a Central Eléctrica, palco de uma exposição performática na noite de sexta-feira). Depois do “trans-expresso” que atravessou regiões e cinematografias como mote de procura, é no HOME que se busca conforto, pertença e obras que espelham precisamente isso: alternativas a este constante desraizamento e desapropriação, igualmente no centro, de espírito nómada ou nesse incessante reconciliação com as raízes, um ciclo de cinema romani [“Amaro Kino – Romani on Screen”]. Porque a Leste, algo de novo, de facto.
Como já se tornou tradição, o Cinematograficamente Falando … debruça-se sobre a programação do BEAST, não como recolha ou cartaz de sugestões, mas como uma introspecção ao “programa de festas”. Radu Sticlea, director do festival, Teresa Vieira, directora artística, e Bianca Stanea, produtora executiva, unidos numa só voz, responderam, uma vez mais, ao desafio.
Depois de uma edição marcada pela ideia de “transição” e pela sensação de um futuro instável, o tema HOME parece introduzir uma necessidade de reencontro, mas um reencontro profundamente frágil. O que significa hoje, para o BEAST, falar de “casa” num contexto europeu atravessado por guerra, migração e deslocação emocional?
O festival abraçou o tema HOME de uma forma multi-facetada. Procurando espelhar o conceito, a emoção que (poderá) transparece(r) através dessa palavra pela escolha de sub-temas, de diferentes colaborações e de variados formatos curatoriais. Para o festival, abordar e falar de “casa” não é um trajecto linear, idílico: procuramos aproximar-nos dele na sua multiplicidade.
De uma reflexão sobre questões de habitação (com o programa de vídeo-ensaios “GROUNDS FOR SPECULATION”, seguido de uma conversa com militantes da Habitação Hoje), de migração (com a secção “PLACE HOLDER”), entre outros temas; até ao fortalecimento de espaços seguros para a comunidade queer (com a secção HOW TO CARE FOR COSMOS, tal como com a noite de performance com curadoria do MOFO Collective, por exemplo), à partilha de trabalhos de espaços de crescimento (com a secção SCHOOL Visit), à familiaridade de registos de infância (com a sessão EAST-TOONS), entre muitos outros.
Para o BEAST, trazer este conceito é alimentar um diálogo e uma reflexão que se pretende permanente, em comunidade, com (e através d)a arte e (d)o cinema. É um tema que consideramos fulcral abordar, para os dias que correm, mas também um espaço (de emoção e de pertença) que queremos criar.

O cinema do Leste sempre trabalhou a memória, mas este ano a memória parece surgir menos como arquivo histórico e mais como sobrevivência íntima. Filmes como “Love is Not an Orange” ou “Perla” parecem habitar precisamente esse espaço entre ausência, distância e reconstrução afectiva. A curadoria desta edição procurou aproximar o político do doméstico?
Esta edição procurou aproximar precisamente essas duas dimensões, porque no contexto do Leste europeu o político raramente existe separado do doméstico. Interessava-nos precisamente esse espaço onde as grandes transformações históricas deixam marcas invisíveis na vida privada. Para muitas sociedades pós-socialistas, a transição para o capitalismo e a migração massiva não foram apenas fenómenos económicos ou geopolíticos, mas experiências profundamente íntimas, que redefiniram o que significa família, pertença ou amor.
De certa forma, estes filmes mostram como a memória deixa de funcionar apenas como reconstrução do passado e passa a tornar-se uma forma de sobrevivência afectiva no presente. E talvez seja aí que o político e o doméstico se encontram de forma mais intensa: na tentativa de continuar a cuidar uns dos outros apesar da fragmentação produzida pela história.
Em 2025, o BEAST parecia mergulhar numa espécie de estado pós-utópico, quase melancólico. Este ano, sente-se um regresso à ideia de comunidade, ainda que precária. O festival continua a acreditar na possibilidade de criar espaços reais de encontro através da cultura, ou essa ideia tornou-se também ela uma forma de resistência?
A equipa do festival, que em tempos vivia quase toda no Porto, está hoje espalhada por vários sítios do mundo. Ainda assim, o festival tornou-se o nosso ponto de encontro anual, um espaço onde voltamos a estar juntos e a reencontrar uma comunidade que continua a existir apesar da distância. Talvez seja precisamente por isso que continuamos a acreditar na importância de criar espaços reais de encontro através da cultura. Não no sentido utópico de imaginar que um festival pode reparar sozinho as fraturas sociais ou políticas do presente, mas no sentido mais concreto e talvez mais urgente de permitir experiências partilhadas e formas temporárias de proximidade. A comunidade já não aparece como uma promessa sólida de futuro, mas como uma prática contínua de resistência ao isolamento, à atomização e à lógica profundamente individualista do presente.
A secção HOW TO CARE FOR COSMOS continua a crescer e parece cada vez mais integrada no ADN conceptual do festival. O queer já deixou de funcionar apenas como representação política para se tornar também uma forma de pensar curadoria, memória, comunidade e até a própria ideia de pertença?
O BEAST é um festival de identidade queer. Desde logo por elementos do núcleo da sua equipa, mas também enquanto um espaço de comunidade e de curadoria que, desde a sua primeira edição, cresce e floresce no festival.
O “encontro” com a expressão que intitula a secção – HOW TO CARE FOR COSMOS – aconteceu há 3 edições (inspirados pelo jardim de Derek Jarman), mas a presença queer (em particular da CEE) é transversal e fundamental desde o início e pode até ser encontrada até hoje fora desta secção que procura dar um espaço de foco às questões da comunidade LGBTQIA+ e às visões – artísticas, conceptuais, emocionais – queer.
O BEAST acredita na arte e no cinema, no gesto de curadoria, de comunidade e de pertença enquanto algo político. As curadorias, colaborações e conversas ao longo dos anos têm uma atenção e preocupação que se move de acordo com esse princípio: um olhar atento para com a contemporaneidade, para com a história, para com a vida e para com a comunidade.
Há algo de muito interessante na coexistência entre arquivos pessoais, vídeo-ensaios urbanos, animação nostálgica e cinema experimental nesta edição. O BEAST parece hoje menos interessado em fronteiras entre formatos e mais numa espécie de ecossistema afectivo de imagens. O cinema contemporâneo da Europa de Leste tornou-se inevitavelmente híbrido?
O universo cultural e artístico da Europa de Leste é um mundo de inúmeras possibilidades. O BEAST procura espelhar diferentes elementos desse rico ecossistema. Vemos este espaço do festival de cinema como um lugar que, com um forte e sólido núcleo e base de curtas e longas-metragens, pode – e deve – procurar ir além do formato cinematográfico dito “tradicional”. Ambicionamos, a cada ano, criar uma experiência imersiva no contexto de produção e pensamento artístico e cultural de uma vasta – e diversa – região.
O que nos leva, por exemplo, a expandir a nossa abordagem para diferentes campos: para reflectir sobre o conceito deste ano através de rádios comunitárias (com um broadcast durante o festival), para uma mostra de performance de artistas ucranianos e portugueses (com uma noite de performance); para um encontro com trabalhos experimentais de um kino klub (com uma sessão de porta flexível); até vídeo-ensaios (com uma conversa sobre questões de habitação), entre outros formatos.

A edição deste ano apresenta-nos o programa especial “Amaro Kino – Romani on Screen”, no qual são exibidas obras não apenas com temática romani, mas também realizadas por cineastas da comunidade cigana. Num momento em que se intensificam os debates em torno da representação e dos direitos das comunidades Roma na Europa, que impactos concretos ou implicações curatoriais pode este tipo de programação ter no contexto de um festival como o BEAST?
O BEAST tem o prazer de integrar esta iniciativa e de colaborar com instituições como a ERIAC, cuja experiência nos permite continuar a aprender e a refletir sobre questões de representação e inclusão. Sendo a comunidade cigana a maior minoria étnica da Europa e uma parte incontornável da realidade quotidiana da Europa Central e de Leste, acreditamos que qualquer reflexão sobre a região fica incompleta sem as suas vozes e perspetivas.
Do ponto de vista curatorial, o impacto do Amaro Kino está precisamente em alargar essa conversa.
Ao apresentar filmes realizados por e sobre pessoas ciganas, o programa revela a diversidade e a complexidade de experiências que existem dentro da própria comunidade cigana, desafiando visões simplificadas e contribuindo para uma compreensão mais rica e plural da região.
Como podemos ler o fenómeno Charli XCX, presente directamente na programação através de “Erupcja”, sob o prisma curatorial e identitário do BEAST?
Decorria o brat summer (2024) quando o BEAST se inspirou em Charli XCX para o título de uma sessão de video-art dos anos 2000 da Estónia: CLUB CLASSICS. Nesse mesmo Verão, Charli XCX partiu numa viagem para um encontro cinematográfico. O destino: Varsóvia.
Em 2026, estamos longe desse Verão, mas estamos próximos da sua essência: pela presença de Charli – uma força do universo pop à qual nos ligamos inevitavelmente – mas também pelo modelo de produção de “Erupcja”, de Pete Ohs. Um filme feito com uma forte – e inabalável – vontade (pura) de criar. Este filme é uma carta de amor à criatividade, à arte e a Varsóvia. A escolha de exibição deste filme, com o qual contactámos pela primeira vez em Wroclaw, na Polónia, é um gesto (mais do que) natural (: inevitável da melhor forma possível).
Ambições para o BEAST nas próximas edições e, nesse sentido, de que forma o cinema da Europa de Leste continuará a influenciar (ou a condicionar) o desenvolvimento e a expansão do festival no futuro?
O BEAST aproxima-se da sua primeira edição com dois dígitos: no próximo ano estaremos na nossa 10ª edição. Algo que procuramos celebrar através de um fortalecimento deste nosso espaço de curadoria e de comunidade. O cinema, a arte e a cultura da Europa Central e de Leste são o nosso grande foco, a nossa identidade, e assim será no (nosso) futuro.
Num panorama português em que as vozes e visões do Centro e Leste da Europa têm marcado cada vez mais presença – um dos objetivos de base do BEAST -, manteremos a nossa vontade e o nosso trabalho de alimentar um espaço cuidado, sólido, de criação, exibição, diálogo e expansão.
Toda a programação pode ser consultada aqui

Deixe um comentário